sexta-feira, 26 de junho de 2015

A corrupção, quando é privada: Diretores de Ford, Mitsubishi, Anfavea, Santander e da RBS, afiliada da Globo, deverão prestar depoimento

Zelotes: CPI convoca executivos de empresas

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga irregularidades no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) aprovou nesta terça-feira 23 a convocação de diretores das empresas Ford, Mitsubishi, Anfavea, Santander e da RBS, afiliada da Globo, todas supostamente envolvidas noesquema de corrupção investigado pelaOperação Zelotes.
Operação Zelotes, deflagrada em março passado por diversos órgãos federais de investigação, constatou que grandes empresas vinham subornando integrantes do Carf, órgão do Ministério da Fazenda junto ao qual os contribuintes podem contestar multas aplicadas pela Receita Federal, para serem absolvidos de pagar impostos devidos ou reduzir de forma significativa o valor a ser pago.
A investigação já comprovou prejuízos de 6 bilhões de reais aos cofres públicos, mas auditores envolvidos na operação avaliam que a fraude pode ultrapassar 19 bilhões de reais. A Zelotes caminha com muitas dificuldades, em parte porque ela não sensibiliza a Justiça e a mídia, uma vez que mexe no poder econômico, segundo diagnóstico do procurador Frederico Paiva, responsável pela investigação.
Atualmente, o juiz titular da 10ª Vara Federal Criminal de Brasília, Ricardo Augusto Soares Leite, está sendo investigado pela Corregedoria de Justiça por conta de suas ações à frente da Operação Zelotes. Ele é acusado de barrar vários pedidos de prisão preventiva solicitados pela Polícia Federal e de paralisar as interceptações telefônicas quando as diligências caminhavam para comprovar crimes praticados por altos funcionários de bancos como o Safra, Bradesco e Santander
O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan Yabiku Junior, foi citado como participante do esquema que teria causado perda de R$ 6 bilhões aos cofres públicos. Relatórios da Polícia Federal apontam que a empresa Ford do Brasil e a Mitsubishi Motors do Brasil teria participado do esquema de corrupção investigado na Operação Zelotes.
Também foi aprovada a convocação do vice-presidente do Banco Santander, Marcos Madureira, e do presidente do Grupo RBS (empresa de comunicação afiliada da Globo no Rio Grande do Sul), Eduardo Sirotsky Melzer. As duas empresas também são citadas como possíveis participantes do esquema.
Além deles, foram convocadas Adriana Oliveira Ribeiro, ex-conselheira do Carf e sócia da J.R. Silva Advogados Associados, e Gegliane Maria Bessa Pinto, funcionária da empresa. A J.R. Silva tem sido apontada como uma das principais peças do esquema de corrupção. Também foram convocados os ex-conselheiros do Carf Jorge Victor Rodrigues, Meigan Sack Rodrigues e Jorge Celso Freire da Silva, que teria cobrado propina para avaliar um recurso de R$ 5 bilhões do Banco Santander.
Lutero Fernandes do Nascimento, assessor direto de Otacílio Dantas Cartaxo, ex-presidente do Carf foi indiciado sob suspeita de participar do esquema para livrar de multa o Banco Safra. José Domingues de Oliveira Santos, presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), teria sido responsável pela indicação de conselheiros representantes dos contribuintes mencionados nas investigações da Operação Zelotes. Edson Pereira Rodrigues, ex-presidente do Carf, também foi citado nas investigações.
Além dos pedidos de convocação, a CPI aprovou requerimento para ter acesso à declaração de imposto de renda dos últimos cinco anos do ex-conselheiro do Carf Leonardo Manzan. O colegiado também vai requerer à  Coordenação-Geral de Pesquisa e Investigação (Copei) cópia digitalizada de qualquer processo informando aquele órgão a respeito de suspeitas de manipulação de julgamentos do Carf.
No dia 18 de junho, o ex-conselheiro Nelson Mallmann afirmou, em depoimento à CPI, que a Copei, da Secretaria de Receita Federal, recebeu, já em outubro de 2013, um relatório com denúncias de irregularidades no Carf. "Será de extrema valia para os trabalhos desta CPI obter cópia desse documento e de qualquer procedimento que tenha sido instaurado em função dele",  justificou o presidente da comissão, senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO).
A relatora da CPI, senador Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), e os demais senadores que compõe o colegiado apoiaram os pedidos.
Com informações da Agência Senado

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Cemitério de elefantes - Dalton Trevisan

HÁ UM CEMITÉRIO de bêbados na minha cidade. Nos fundos do mercado de peixe e a margem do rio ergue-se o velho ingazeiro – ali os bêbedos são felizes. A população considera-os animais sagrados e provém às suas necessidades de cachaça e peixe com pirão de farinha. No trivial contentam-se com as sobras do mercado

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Quando ronca a barriga, ao ponto de perturbar-lhes a sesta, saem do abrigo e, arrastando os pesados pés, atiram-se à luta pela vida. Enterram-se no mangue até os joelhos na caça ao caranguejo ou, de tromba vermelha no ar, espiam a queda dos ingás maduros.
Sabem que estão condenados como elefantes mal feridos e coçam as perebas, sem nenhuma queixa, escarrapachados entre as raízes que lhes servem de cama e cadeira, a beber e beliscar algum pedacinho de peixe. Cada um tem o seu lugar e gentilmente advertem-se:
- Não use a raiz do Pedro.
- Foi embora, sabia não?
- Estava aqui há pouco...
- Pois é, sentiu que ia se apagar e caiu fora. Eu gritei: Vai na frente, Pedro, e deixa a porta aberta.
À flor do lodo borbulha o mangue – os passos de um gigante perdido? João dispõe no brasido o peixe embrulhado em folha de bananeira.
- O Cai Nágua trouxe as minhocas?
- Sabia não?
- Agora mesmo ele...
- Entregou a lata e disse: Jonas, vai dar pescadinha vermelha.
Aporta de outras margens um elefante moribundo.
- Amigo, venha com a gente.
Dão-lhe uma raiz no ingazeiro, caneca de pinga, um rabo de peixe.
No silencio o bzzz dos pernilongos assinala o posto de cada um. Sentados entre as raízes, assombram-se com o mistério na noite – o farol piscando no alto do morro.
Distrai-se um deles a afundar o dedo no tornozelo inchado, ergue-se e, puxando os pés de paquiderme, afasta-se entre adeuses em voz baixa -que ninguém perturbe os dorminhocos. Esses, quando acordam, não carecem de perguntar para onde foi o ausente. E, se indagassem, com intenção de levar-lhe um ramo de margaridas, quem saberia responder? O caminho revela-se a cada um na hora da morte.
A viração da tarde assanha as varejeiras grudadas nos seus pés disformes e as folhas do ingazeiro reluzem como lambaris prateados – ao som da queda dos frutos os bêbedos mais próximos levantam-se com dificuldade e os disputam entre si rolando no pó. O vencedor descasca o ingá e chupa de olhar guloso a fava adocicada. Jamais correu sangue no cemitério – a faquinha na cinta é para descamar peixe. E, aos brigões, incapazes de se moverem, basta-lhes xingarem-se à distância.
E eles que suportam o delírio, a peste, o travo de fel na língua, o mormaço, as cãibras de sangue, cultivam o ódio obtuso dos elefantes por uns animaizinhos inofensivos: os pardais, que se aninham entre as folhas e, antes de dormir, lhes cospem na cabeça – o seu pipiar irrequieto lhes envenena a modorra.
Da margem eles contemplam os pescadores mergulhando os remos.
- Tem um peixinho aí, compadre?
O pescador atira-lhes o peixe desprezado no fundo da canoa.
- Por que você bebe, Papa-Isca?
- Maldição de mãe, uai.
- O Chico não quer peixe?
- Coitado, morreu de inchaço.
Com a pressa que lhe permitem os pés tumefatos, despediu-se dos companheiros cochilando à margem, esquecidos de enfiar a minhoca no anzol.
Cuspindo na agua as sementes negras de ingá, os outros não o interrogam: as presas de marfim que indicam o caminho são garrafas vazias. Chico perde-se no cemitério sagrado, entre as carcaças de pés grotescos surgindo ao luar.

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quinta-feira, 11 de junho de 2015

Longa-metragem resgata a arte e a loucura de Arthur Bispo do Rosário

São Paulo – Nascido em 1909 na cidade Japaratuba, em Sergipe, Arthur Bispo do Rosário se mudou em 1926 para o Rio de Janeiro, onde se alistou na Escola de Aprendizes da Marinha. Além de marinheiro, era pugilista e acabou sendo contratado pela Light para ser lavador de bonde e borracheiro. Depois de sofrer um acidente de trabalho, processou a empresa e foi defendido pelo advogado Humberto Magalhães Leoni, na casa de quem passou a trabalhar fazendo todo tipo de afazeres domésticos. Até que na noite de 22 de dezembro de 1938, Bispo passou a ser assombrado por misticismos e alucinações.
É esta a história real que conta o filme O Senhor dos Labirintos, dirigido pelo pernambucano Geraldo Motta, que estreia nesta quinta-feira (11) em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e em Aracaju. Baseado no livroArthur Bispo do Rosário - O Senhor do Labirinto (Ed. Rocco, 192 págs.), de Luciana Hidalgo, o longa-metragem apresenta o universo paralelo criado por Bispo durante os 50 anos em que ficou confinado na colônia psiquiátrica Juliano Moreira, no Rio de Janeiro.
A interpretação do ator Flávio Bauraqui no papel principal é minuciosa e emocionante. Diagnosticado como esquizofrênico-paranoico, Bispo tinha certeza de que era a nova representação de Jesus Cristo na Terra e sua arte compunha o cenário do "castelo" que construiu em seu quarto no hospício, onde só entrava quem fosse capaz de ver sua aura. Com a simpatia de funcionários da instituição, especialmente de Wanderley (Irandhir Santos), o artista tinha acesso a agulhas, tesouras, ferramentas e tudo o que precisasse para fazer seus mantos, bordados e assemblages.
A trama toda se desenrola em torno de sua obsessão religiosa, de sua produção artística e da amizade com o guarda Wanderley e com a psicóloga estagiária (Maria Flor). O filme resgata a importância do artista pobre, negro, nordestino e com problemas mentais cujos trabalhos foram exibidos ao público pela primeira vez em 1989, em uma exposição coletiva realizada no Parque Lage.
Depois de sua morte, ocorrida no mesmo ano, toda a obra de Arthur Bispo do Rosário foi tombada e transformada em patrimônio histórico pelo Instituto Estadual de Patrimônio Artístico e Cultural do Rio de Janeiro. Depois, muitas de suas peças foram expostas em museus brasileiros e estrangeiros, como o Jeu de Paume, em Paris, e o Victoria and Albert Museum, Londres, além de representarem o Brasil na Bienal de Veneza e na 30ª Bienal de Arte de São Paulo.
O filme vale o ingresso só pela interpretação dos atores principais, pelo cenário absolutamente convincente e, claro, pela história de Bispo. Os problemas evidentes com a maquiagem fazem com que os telespectadores não se convençam da idade avançada de Bispo e Wanderley ao final do longa. Mas nem isso tira o brilho do filme, que mostra a íntima relação entre a arte e a loucura de um personagem fundamental para a cultura brasileira.

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