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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Coronel Malhães: Memórias sujas da Ditadura

O tenente-coronel Paulo Malhães, morto em seu sítio no interior no Rio de Janeiro em abril, fez 14 viagens secretas ao sul do Brasil durante a ditadura, segundo reportagem publicada nesta segunda-feira (24) pelo jornal "O Globo". As viagens, realizadas entre 1976 e 1980, seriam parte da "Operação Gringo", deflagrada em parceria com a Argentina para perseguir e caçar refugiados no Brasil, principalmente os militantes da guerrilha montonera.
Segundo o jornal, as viagens reforçam as suspeitas sobre o envolvimento direto do governo brasileiro na morte e no desaparecimento de argentinos no Brasil. O grupo do Ministério Público Federal batizado de "Justiça de Transição", que investiga os crimes do regime militar brasileiro, teria encontrado dois volumes denominados "Operação Gringo" no sítio do tenente-coronel, comprovando o monitoramento de estrangeiros no Brasil.
Em depoimento à Comissão Estadual da Verdade, Malhães confessou ter ajudado a prender argentinos adeptos de movimentos revolucionários que buscavam refúgio ou que passavam pelo Brasil e relatou a captura de um líder do grupo Montoneros. Entre eles estava um líder do grupo Montoneros, cujo nome não foi revelado. "Aí o presidente me chamou: 'Malhães, qual foi a cagada [sic] que você fez aí [no Rio de Janeiro]? Sequestrou um argentino importante?'. Eu sequestrei. Eu realmente sequestrei. Mandei de volta para a Argentina", declarou.
Malhães, que confessou ter torturado e matado presos políticos na ditadura morreu em 25 de abril em sua casa em Nova Iguaçu (RJ) após ter seu sítio invadido. Três pessoas foram presas acusadas pelo crime. Segundo a polícia, houve um latrocínio: o grupo queria revender as armas que o coronel guardava em casa. A polícia descartou a possibilidade de o crime ter relação com a atuação de Malhães como torturador na ditadura.

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2014/11/24/coronel-malhaes-fez-14-viagens-secretas-ao-sul-do-pais-durante-a-ditatura.htm




Comissão da Verdade investiga violações cometidas na ditadura125 fotos

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25.mar.2014 - O coronel reformado Paulo Malhães fala a representantes da Comissão Nacional da Verdade, em audiência pública realizada na tarde desta terça-feira (25). Em depoimento, ele afirmou que tinha pavor de interrogar mulheres e gays, em referência à sua atuação na Casa da Morte de Petrópolis, um dos centros clandestinos de tortura do regime militar, na serra fluminense Pedro Kirilos / Agencia O Globo
O coronel reformado do Exército Paulo Malhães foi encontrado morto, na manhã desta sexta-feira (25), no sítio em que morava, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. O corpo apresentava marcas de asfixia, informou a Polícia Civil. O caso está sendo investigado pela Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense.
Malhães prestou depoimento em março à Comissão Nacional da Verdade em que relatava ter participado de prisões e torturas durante a ditadura militar. Disse também que foi o encarregado pelo Exército de desenterrar e sumir com o corpo do deputado Rubens Paiva, desaparecido em 1971.
De acordo com o relato da viúva Cristina Batista Malhães, três homens invadiram o sítio de Malhães na noite desta quinta-feira, 24, à procura de armas. A versão foi confirmada pelo delegado Fábio Salvadorete, responsável pela investigação. O coronel era colecionador de armamentos, disse a mulher aos policiais da DH-Baixada que estiveram na propriedade.
"Não estamos descartando nenhuma hipótese. Pode ter sido um homicídio por motivo de vingança e até mesmo um latrocínio, uma vez que foram levados vários pertences da vítima", afirmou Salvadorete. Segundo o delegado, os criminosos levaram dois computadores, pelos menos três armas antigas colecionadas pelo militar, um aparelho de som, joias e cerca de R$ 700 em dinheiro.
Cristina disse que ela e o caseiro foram amarrados e trancados em um cômodo, das 13h às 22h desta quinta-feira (24), pelos invasores. Em nota, a Polícia Civil informou que agentes "buscam imagens de câmeras de segurança que possam auxiliar na identificação" dos suspeitos de assassinar o militar.
"A perícia de local foi realizada e a mulher da vítima e o caseiro já foram ouvidos. Os agentes buscam imagens de câmeras de segurança que possam auxiliar na identificação da autoria do crime. Foram roubados armas da coleção da vítima e computadores. O caseiro será encaminhado para confecção de retrato falado", informou a instituição.
O coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Pedro Dallari, afirmou ter solicitado ao ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) que a Polícia Federal acompanhe as investigações sobre o assassinato do coronel. Já o Exército afirma, por meio de sua assessoria de imprensa, que "aguarda as investigações dos órgãos de segurança pública".
Luiz Roberto Lima/Extra/Agência O Globo
Peritos inspecionam casa do sítio do coronel Paulo Malhães, encontrado morto na manhã desta sexta-feira (25), em Nova Iguaçu
"Por se tratar de uma situação que envolve investigação conduzida pela CNV, que é órgão federal, pedi que a Policia Federal fosse acionada para acompanhar as investigações conduzidas pela Polícia Civil do Rio", afirmou Dallari.
O presidente da CEV-RJ (Comissão Estadual da Verdade), Wadih Damous, afirmou ser "possível que o assassinato do coronel Paulo Malhães tenha sido queima de arquivo". Para Damous, o crime tem que ser investigado com rigor.
"Na minha opinião, é possível que o assassinato do coronel Paulo Malhães tenha sido queima de arquivo. Ele foi um agente importante da repressão política na época da ditadura e era detentor de muitas informações sobre fatos que ocorreram nos bastidores naquela época. É preciso que seja aberta com urgência uma investigação na área federal para apurar os fatos ocorridos no dia de hoje. A investigação da morte do coronel Paulo Malhães precisa ser feita com muito rigor porque tudo a leva a crer que ele foi assassinado", declarou.
Já a ministra Ideli Salvatti (Direitos Humanos) disse que seria "irresponsável" concluir que o assassinato de Malhães foi queima de arquivo sem a investigação sobre a morte. Ela cobrou seriedade dos órgãos de segurança nas apurações do caso. "Seria uma irresponsabilidade prestar declaração que associe o assassinato ao depoimento antes que qualquer tipo de investigação indique isto. Não podemos fazer acusações", defendeu a ministra.
A advogada Nadine Borges, que também integra CEV do Rio, afirmou à Folha de S.Paulo ter conversado com uma das filhas do militar. Segundo ela, a mulher do coronel foi amarrada e todas as armas do militar foram roubadas. "A polícia tem que investigar a fundo esse crime. Tudo indica que é uma queima de arquivo", disse ela.
A ex-ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República Maria do Rosário comentou a morte de Malhães.
"Soa estranho que, após essas revelações, o militar tenha sido assassinado. Estou entrando em contato com os ministros Ideli (SDH) e José Eduardo Cardozo (MJustiça) para pedir apoio da Polícia Federal na investigação", escreveu ela em sua página no Twitter. (Com Agência Brasil)

MORRE CORONEL USTRA, EX-CHEFE DO DOI-CODI : 15/10/2015.


http://www.brasil247.com/pt/247/brasilia247/201031/Morre-coronel-Ustra-ex-chefe-do-DOI-Codi.htm

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Cinema Clássico: O Ovo da Serpente, de Ingmar Bergman




A República de Weimar vista por Bergman*

Luiz Santiago

[…] qualquer um que fizer o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como um ovo de serpente. Através das membranas finas pode-se distinguir o réptil já perfeitamente formado.

Hans Vergerus
Produzido pelo badalado Dino De Laurentiis (de Noites de Cabíria (1957),Serpico (1973) e Hannibal (2001), só pra citar algumas produções de seu currículo), com colaboração germano-americana, O Ovo da Serpente(1977), de Ingmar Bergman é a melhor reprodução cinematográfica da República de Weimar e do surgimento do nazismo na Alemanha¹.

O cineasta sueco escreveu o roteiro sob meticulosa pesquisa histórica, e nele, retratou com muita fidelidade os primeiros passos de uma sociedade que já dividida, desembocaria nas mãos do nacional-socialismo a partir de 1933. Façamos, antes, uma breve passagem pelos eventos que construíram esse tempo histórico.


Com a queda da monarquia na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, a cidade de Weimar (onde morreu Goethe) foi escolhida como sede do novo governo, uma República liberal que precisava guiar em país destruído pela guerra. Os primeiros anos da República de Weimar são de profunda crise interna, da qual destacamos alguns eventos:

a) Fracasso industrial, e monumental inflação;

b) Impunidade dos assassinos políticos, que agiam em larga escala – segundo o historiador alemão Peter Gay, em seu livro A Cultura de Weimar, o fato de o novo governo não empreender uma reforma judiciária foi um dos seus grandes erros;

c) Diversas tentativas de derrubar o governo;

d) A “crise moral” – e muitas outras – causada pela assinatura do Tratado de Versalhes;

e) A ocupação de Ruhr pela França;

f) O crescimento desenfreado do fanatismo político, do anti-semitismo e da xenofobia.
Nesse caos social, a moderna centelha cultural condenada pela monarquia ganhou espaço livre para manifestar-se, e é então que temos a Bauhaus, A ópera dos três vinténs, A Montanha Mágica, O Gabinete do Dr. Caligari,Dr. Mabuse, Nosferatu, Metropolis, O Anjo Azul, etc. O expressionismo nas artes deste período representava artisticamente a insegurança e as diversas crises do país, sendo o medo, o principal fantasma.
Bergman constrói com impecável riqueza de detalhes o mundo sangrento, paranoico e instável que era a Alemanha de 1923, ano em que se passa o seu filme, no período de 3 a 11 de Novembro, semana do Putsch de Munique.

O Ovo da Serpente é a história de Abel Rosenberg (David Carradine, em atuação magnífica), um trapezista judeu que vê o seu mundo desmoronar a partir do suicídio de seu irmão, e sua vida se resume a lutar pela sobrevivência ao lado de sua cunhada Manuella (Liv Ullman, como sempre, fenomenal), uma cantora de cabaré.

Bergman insere em suas características autorais o mundo que se dispõe representar, e com a fenomenal fotografia de Sven Nykvist, percorre esses mundos com sua devida aura, captadas de campos observadores muito representativos. Um desses mundos é o do espetáculo, e assistimos as apresentações do cabaré (com Liv Ullman cantando em alemão) e de um bar jazz em Berlim, com músicos alemães de caras pintadas de preto.
O anti-semitismo da República de Weimar é visto desde a segunda cena do filme, quando o delegado de polícia pergunta a Abel se ele é judeu, e mais adiante o prende como sendo suspeito de uma série de “assassinatos brutais e misteriosos”. Em outra cena, um grupo de jovens alemães obrigam dois judeus a lavarem uma calçada com escovas, atitude ignorada pelo policial que passa e vê a cena, mas não faz nada. Bergman mostra sem sentimentalismo como o anti-semitismo se espalhou pela cidade, e o discurso de justificativa para esse ódio, tão grande quanto o destinado aos “bolchevistas”. Através dos jornais e das batidas policiais em “estabelecimentos judeus” (o caso do cabaré onde Manuella trabalha é um exemplo), é possível identificar como o discurso anti-semita tinha força, e já nos anos 1920, causava destruição, mesmo em uma Alemanha cuja forma de governo era uma República.

O desemprego e a fome estão em toda parte na Berlim dos “loucos anos”. A cidade parece uma carcaça por dentro, encoberta pela arquitetura. Em uma cena chocante, vemos pessoas cortarem a carne de um cavalo morto para alimentar-se. Também acompanhamos a constante desvalorização do marco, até o ponto em que o valor impresso da moeda não importava mais, e a venda era feita pelo peso que tinha o dinheiro.
A luta pela sobrevivência é a ordem a ser cumprida, e o medo acompanha as ações vacilantes de uma sociedade que se decompõe.

A libido se ajusta à histeria e ao desalento.

O ponto-chave e revelador da obra é quando a história das experiências com seres humanos é esclarecida, em uma das mais supremas cenas do cinema, onde a maestria do corte, do enquadramento e da direção podem ser vistas em seu ápice. Entre pequenos curtas-metragens feitos durante as “observações”, os closes descritivos em um silencioso David Carradine falam mais do que páginas e páginas de um roteiro. O profético discurso final do cientista dá conta do caminho perigoso pelo qual segue a Alemanha, e ressalta a “passividade” do povo judeu, que segue como ovelhas para o matadouro (polêmica também trabalhada por Hannah Arendt).

O desfecho do filme é a triste revelação de um indivíduo “contaminado” pela virulenta metrópole, que tem a oportunidade de sair daquele espaço que se decompõe, mas não o consegue, e se perde entre pedestres e ruas molhadas pela constante chuva, para nunca mais ser visto.

O realismo com que Bergman nos apresenta a Berlim de 1923 é espantoso. Os figurinos de Charlotte Fleming também merecem destaque, pela adequação dramática e imagética perfeitas.

Em O Ovo da Serpente, Bergman empreende uma obra dotada de forte senso crítico-social e de uma exposição memorável da história. Com profunda força imagética, o diretor consegue construir uma sociedade que vivia sob o medo, e denuncia os “motivos pelos quais” o futuro tenebroso falaria por si.

Até mesmo a posição de alemães antinazistas é abordada, e a descrença em Hitler, por ocasião do Putsch de Munique, é verbalizada em cena simbólica.

O Ovo da Serpente é um supremo exercício cinematográfico, com atuações irreparáveis – inclusive do elenco de apoio – e com a louvável direção de Ingmar Bergman, que usou de seu profundo conhecimento da alma humana para transformar em celuloide o sentimento de uma época, fazendo-o de forma única e magnífica.
(1) Rainer Werner Fassbinder também nos legou uma notável contribuição sobre o tema, em sua série para a TV, Berlin Alexanderplatz (1980), onde percorre o período com profundidade amarga através de suas personagens não menos atormentadas que o mundo onde viviam.

O OVO DA SERPENTE (Das Schlangenei, EUA/Alemanha Ocidental, 1977)
Direção: Ingmar Bergman.
Elenco principal: David Carradine, Liv Ullmann, Heinz Bennent, Gert Fröbe, Edith Heerdegen.
Cotação: *****
Este artigo é parte do Ciclo Bergman no Cine Revista.
*Artigo originalmente postado no blog “Cinebulição” trabalho muito árduo. A política não é somente uma questão de correlação de forças, capacidade de mobilização. Em um momento, ela será isso. Mas ela é, fundamentalmente, convencimento, articulação, sentido comum, crença, ideia compartilhada, juízo e conceito compartilhado a respeito da ordem do mundo. E aqui a esquerda não pode se contentar somente com a unidade de suas organizações. Ela tem que se expandir para o âmbito dos sindicatos, que são o suporte da classe trabalhadora e sua forma orgânica de unificação.

É preciso ficar muito atento também, companheiros e companheiras, a outras formas inéditas de organização da sociedade, à reconfiguração das classes sociais na Europa e no mundo, às formas diferentes de unificação, formas mais flexíveis, menos orgânicas, talvez mais territoriais, menos por centros de trabalho. Tudo é necessário. A unificação por centros de trabalho, a unificação territorial, a unificação temática, a unificação ideológica. É um conjunto de formas flexíveis, frente às quais a esquerda tem que ter a capacidade de articular, propor e de seguir adiante.

Permitam-me em nome do presidente, e em meu nome, felicita-los, celebrar esse encontro, desejar-lhes e exigir-lhes – de maneira respeitosa e carinhosa – que lutem, lutem e lutem!. Não nos deixem sós, outros povos que estamos lutando de maneira isolada em alguns lugares, na Síria, na Espanha, na Venezuela, no Equador, na Bolívia. Não nos deixem sós. Precisamos de vocês, precisamos mais ainda de uma Europa que não veja somente à distância o que ocorre em outras partes do mundo, mas sim novamente uma Europa que volte a iluminar o destino do continente e o destino do mundo.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

sábado, 20 de julho de 2013

Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil

 

Por Antonio Cândido
Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.
Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.



Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora. 
São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.
Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.
Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”. 
Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução:História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.
Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.
Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.
Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler tambémFormação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material. 
Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) eO movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).
Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II. 
A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras. 
Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas. 
Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) éCoronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930). 
O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes,A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política. 
Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.
No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc. 
*Antonio Cândido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.
* *Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000
Extraído de Aldeia Gaulesa

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Todas as Coisas são de Todos

De Spartacus à Praça Tahrir, passando por Robespierre, Thoreau, Touro Sentado, Zapata, Adorno, Einstein, Drummond e o iraquiano que jogou o sapato em Bush, a força das palavras rebeldes numa seleta atualizada e abrasileirada

Fonte: Revista Piauí
Organizado por Andrew Hsiao e Audrea Lim


 SPARTACUS_73 a.C.
A REVOLTA DOS ESCRAVOS
Spartacus, nascido na Trácia, havia sido soldado com os romanos, depois foi feito prisioneiro e vendido como gladiador. Convenceu cerca de 70 camaradas a lutarem pela própria liberdade e a não divertirem mais os espectadores. Eles fugiram e se refugiaram no monte Vesúvio. Lá, escravos fugitivos e homens livres dos campos uniram-se a Spartacus e passaram a saquear terras vizinhas. Como dividia a pilhagem em partes iguais, Spartacus logo passou a contar com muitos aliados. Contra ele, Roma recrutou forças às pressas e aleatoriamente, pois ainda não considerava aquilo uma guerra, mas um motim. Atacou Spartacus e foi derrotada.
Apiano, historiador romano de formação grega, autor de História Romana, fez o relato da revolta de Spartacus e dos escravos. Ela ocorreu entre 73 e 71 a.C. e é conhecida como a Terceira Guerra Servil. As tropas romanas acabaram derrotando os escravos no sul da Itália e supõe-se que Spartacus tenha morrido na batalha.

CIVAVAKKIYAR_900
AFORISMAS
O leite amamentado nunca voltará à teta. A manteiga nunca se dissolverá de novo em leite. O som do mar nunca voltará à concha quebrada, nem a vida ao corpo quebrado. A flor aberta e o fruto que tombou não reaparecerão na árvore. E os mortos nunca, nunca, nunca renascerão.
Civavakkiyar foi um iogue hindu que combateu a religião institucionalizada, os rituais e o sistema de castas.

LE LOI_1400
O ELEFANTE E O GAFANHOTO
Hoje é uma luta do gafanhoto contra o elefante. Mas amanhã o elefante terá suas entranhas arrancadas.
No início do século XV, o Vietnã foi governado pela China. Depois de dez anos de revolta, liderada por Le Loi, o Vietnã reconquistou a independência. A frase foi repetida por Ho Chi Minh, no século passado, na guerra contra os Estados Unidos.

PATTIRAKIRIYAR_1400
LAMENTAÇÃO
Ah, quando virá o dia em que viveremos sem distinção de castas?
Pattirakiriyar foi um rei que renunciou ao poder quando virou iogue e tornou-se mendigo na Índia.

THOMAS MÜNTZER_1524
SERMÃO AOS PRÍNCIPES
Vemos agora como enguias e serpentes copulam à vontade num emaranhado. Os padres e todo o clero pérfido são as serpentes, e os senhores e regentes são as enguias. Ah, adorados senhores, o Senhor há de espatifar os vasos de barro com sua vara de ferro. Portanto, regentes mais adorados e mais autênticos, aprendam o ensinamento diretamente da boca de Deus e não se deixem seduzir por padres bajuladores nem se deixem refrear por alguma falsa paciência e indulgência. Os leigos pobres e os camponeses enxergam isso com muito mais clareza do que os senhores.
Teólogo alemão, líder da Guerra dos Camponeses de 1524-25. Sob tortura, disse que omnia sunt communia – todas as coisas são de todos.

GUAMÁN POMA DE AYALA_1615
CARTA AO REI FILIPE III
Vossa Majestade, em sua grande bondade, sempre cobrou de seus vice-reis e de seus prelados, quando iam ao Peru, que zelassem pelos índios e que os tratassem bem. Mas assim que desembarcavam e punham os pés na terra, eles se esqueciam e se voltavam contra nós. Nossa antiga idolatria e heresia se deviam apenas à nossa ignorância. Nossos índios, que podiam ser bárbaros, mas eram criaturas boas, choravam por seus ídolos quando foram quebrados. Mas são os cristãos que adoram a propriedade, o ouro e a prata como ídolos.
Guamán Poma de Ayala, nobre quéchua, enviou uma carta de 1 189 páginas ao rei Filipe III, da Espanha, criticando o colonialismo e defendendo a autonomia dos índios. A carta nunca foi lida pelo rei.

GERRARD WINSTANLEY_1649
DECLARAÇÃO DO POVO POBRE
Estamos decididos a não sermos mais enganados, nem a viver com medo de vocês, pois a Terra foi feita para nós assim como para vocês. E se a Terra comum nos pertence, o mesmo vale para tudo que nela cresce.
Winstanley foi fundador dos Diggers, grupo igualitário da Inglaterra que veio a ser suprimido pelos proprietários de terra.

SPINOZA_1670
A LIBERDADE É O OBJETIVO
Oobjetivo do governo não é transformar os homens de seres racionais em feras ou fantoches, mas permitir que desenvolvam seu corpo e sua mente em segurança, e que empreguem sua razão sem embaraços; que não mostrem ódio, raiva nem desprezo, e que não sejam observados com os olhos da inveja e da injustiça. De fato, o verdadeiro objetivo do governo é a liberdade.
Exilado da comunidade judaica de Amsterdã por heresia, Spinoza tornou-se um personagem central da filosofia ocidental. Seu Tratado Teológico-Político faz uma defesa pioneira do governo secular e uma crítica à intolerância religiosa e à superstição.

ANDREW MARVELL_1677
O GOVERNO ARBITRÁRIO
O papismo é algo que, a não ser por falta de uma palavra para designá-lo, não pode ser chamado de religião. Tampouco deve ser tratado com a civilidade convenientemente usada quando se fala das diferenças de opinião sobre assuntos divinos. Há muitos anos se tenta transformar o governo legítimo da Inglaterra numa tirania absolutista, e converter a religião protestante num papismo.
Poeta e parlamentar inglês durante os anos de guerra contra a Holanda, Marvell escreveu contra a corrupção na corte, criticou a censura e defendeu os direitos individuais dos dissidentes puritanos.

TUPAC AMARU II_1781
MERECEMOS MORRER
Não existem cúmplices aqui, senão eu e você. Você é o opressor e eu, o libertador. Ambos merecemos morrer.
Tupac Amaru II foi um líder quéchua que comandou um levante indígena contra os espanhóis no Peru. Suas últimas palavras foram destinadas ao general espanhol José Antonio de Areche.

TUPAC KATARI_1781
ÚLTIMAS PALAVRAS
Vocês vão me matar agora, mas eu voltarei, e então serei milhões.
Líder indígena aimará, Tupac Katari liderou um exército de 40 mil pessoas contra os colonizadores espanhóis. Sitiou La Paz, na Bolívia, durante 184 dias, quando foi traído, capturado e esquartejado.

ROBESPIERRE_1792
NO JULGAMENTO DO REI
O direito de punir o tirano e o direito de destroná-lo são a mesma coisa. O julgamento do tirano é a insurreição; o veredicto, o colapso de seu poder; a sen-
tença, o que quer que os direitos do povo exijam.
Os povos não julgam da mesma forma que os tribunais de Justiça; não proferem sentenças, disparam raios; não condenam reis, jogam-nos de volta no vazio.
Revolucionário francês, Maximilien de Robespierre justificou assim a execução de Luís xvi. Disse também: “Se a revolução está errada, então o rei está certo; mas se a revolução está certa, então o rei está errado.” Líder do Terror, foi morto em 1794.

THOMAS PAINE_1793
A ERA DA RAZÃO
Todas as instituições nacionais de igrejas, sejam judaicas, cristãs ou turcas, parecem-me nada mais do que invenções humanas destinadas a aterrorizar e escravizar a humanidade, e monopolizar o poder e o lucro.
Nascido na Inglaterra, Paine emigrou para as colônias americanas em 1774 a fim de participar da Guerra de Independência.

SAINT-JUST_1794
IDEIA NOVA
A felicidade é uma ideia nova na Europa.
Frase de um discurso de Saint-Just no mesmo ano em que foi condenado à morte pela reação à Revolução Francesa. No julgamento de Luís XVI, ele disse: “Não se pode reinar inocentemente” e “Esse homem deve reinar ou morrer”.

TOUSSAINT L’OUVERTURE_1797
UNIR A ESPÉCIE
Que a chama da liberdade que conquistamos guie nossas ações. Plantemos a árvore da liberdade, rompendo as cadeias de nossos irmãos cativos sob o jugo da escravidão. Que possamos trazê-los para o abrigo dos direitos do homem livre. Que possamos superar as barreiras que separam as nações e unir a espécie humana.
Toussaint L’Ouverture foi um escravo que liderou a revolução haitiana, a única rebelião vitoriosa contra o colonialismo europeu no século XVIII. Derrotado pelas tropas de Napoleão, que defendia a escravidão, morreu numa masmorra francesa em 1803.

OS CARTISTAS_1838
CARTA AO POVO
Nós cumprimos os deveres de homens livres; devemos ter os privilégios de homens livres. Portanto, exigimos o sufrágio universal, que, para ser isento da corrupção e da violência dos poderosos, deve ser secreto.
Um dos grandes movimentos de massa do século XIX, o cartismo fez com que milhões de pessoas assinassem petições ao Parlamento inglês. A reivindicação de eleições anuais veio a se tornar lei.

MARX E ENGELS_1848
O MANIFESTO COMUNISTA
Os comunistas lutam para atingir objetivos imediatos, para a satisfação dos interesses momentâneos da classe trabalhadora; mas, no movimento do presente, também representam o futuro desse movimento e zelam por ele. Os comunistas não se recusam a esconder suas opiniões e seus propósitos. Declaram que seus fins só podem ser alcançados por meio da derrubada violenta de todas as condições sociais existentes. Que as classes dirigentes tremam diante da revolução comunista. Os proletários nada têm a perder, senão seus grilhões. Eles têm um mundo a ganhar.
Marx tinha 30 anos e Engels 28 quando escreveram o Manifesto do Partido Comunista, em Londres, pouco antes das revoluções de 1848.

HENRY DAVID THOREAU_1849
DESOBEDIÊNCIA CIVIL
Sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para os justos é também a prisão. Hoje, o único lugar que Massachusetts reserva para seus espíritos mais livres são as prisões, para serem confinados longe do Estado, por um ato do próprio Estado. É ali que o escravo fugido, o prisioneiro mexicano em liberdade condicional e o indígena deveriam encontrar seus princípios; nesse chão discriminado, mas livre e honorável, onde o Estado coloca os que estão contra ele – a única casa onde um homem livre pode viver com honra.
Escritor e pensador, Thoreau recusou-se a pagar imposto e foi preso pelas autoridades americanas.

SOJOURNER TRUTH_1851
NÃO SOU UMA MULHER?
Tenho tantos músculos quanto qualquer homem, e posso trabalhar tanto quanto eles. Tenho arado e ceifado, e descascado e cortado e aparado, e pode um homem fazer mais? Consigo carregar tanto quantoqualquer homem, e comer o tanto quanto também, se conseguir o que comer. Vocês não precisam ter medo de nos dar nossos direitos, temendo que queiramos demais – pois não poderemos pegar mais do que nossa medida suporta. Não sei ler, mas sei ouvir. Ouvi a Bíblia e aprendi que Eva fez o homem pecar. Bem, se a mulher subverteu o mundo, deem-lhe a chance de colocá-lo na posição certa de novo.
Discurso improvisado na Convenção dos Direitos das Mulheres em Akron, Ohio. Sojourner Truth foi uma defensora da abolição da escravidão, dos direitos das mulheres, da reforma prisional e do fim da pena de morte.

TOURO SENTADO_1867
INTERROGATÓRIO EM FORT UNION
Matei, roubei e feri homens brancos demais para acreditar em uma paz justa. Eles são como remédios, e eu acabaria morrendo uma morte lenta. Preferiria morrer no campo de batalha.
Touro Sentado, chefe sioux, comandou as forças indígenas na Batalha de Little Big Horn – na qual morreu o general George Custer. Anos depois, foi morto por um agente indígena da polícia.

COMUNA DE PARIS_1871
DO COMITÊ CENTRAL
Trabalhadores, não se enganem – esta é uma guerra total entre parasitas e trabalhadores, entre exploradores e produtores. Se vocês estão cansados de vegetar na ignorância e na pobreza; se querem ver seus filhos crescerem para desfrutar os frutos de seu trabalho, em vez de serem animais criados para a fábrica ou o campo de batalha; se não querem que suas filhas sejam instrumentos do prazer da aristocracia endinheirada; se não querem que a pobreza e a devassidão levem os homens às fileiras da polícia e as mulheres à prostituição; finalmente, se querem que a justiça domine, trabalhadores, usem a inteligência, e despertem! Que suas mãos fortes esmaguem as forças repulsivas da repressão!
Em A Guerra Civil na França, Marx escreveu que, pela Comuna de Paris, “a forma foi enfim descoberta”, para a emancipação do proletariado. Versalhes esmagou a Comuna em maio daquele ano.

GUERREIROS SIOUX_1875
CANÇÃO
Os Black Hills são minha terra e eu a
adoro.
E quem ousar interferir ouvirá o som
deste rifle.
O senador William Allison foi ao território sioux para negociar um acordo que permitisse a exploração de ouro na área. Foi recebido por 300 guerreiros, que entoaram a canção em resposta.

ANTONIO MACEO_1890
JURAMENTO
Quem quer que tente conquistar Cuba nada ganhará, a não ser a poeira do chão empapada de sangue – caso não pereça na luta primeiro!
Líder conhecido como Titã de Bronze, lutou pela independência de Cuba.

MARY ELIZABETH LEASE_1891
BOTAR PRA QUEBRAR
O que vocês precisam fazer é cultivar menos milho e botar mais pra quebrar.
Ativista americana da Farmers’ Alliance num discurso no Kansas.

ÉMILE ZOLA_1898
EU ACUSO!
Conheço pessoas que tremem de medo de uma possível guerra, sabendo em que mãos estamos! E que antro de intrigas maliciosas, boataria e calúnias aquela capela sagrada se tornou – mas é ali que o destino do nosso país é decidido! As pessoas se assustam com a luz chocante que acabou de ser lançada com o Caso Dreyfus, essa história de sacrifício humano! Um infeliz, um “judeu sujo” foi sacrificado. De que acúmulo de loucura, estupidez, delírio desenfreado, táticas policiais ignóbeis, métodos inquisitoriais e tirânicos, esse bando de oficiais escapou impune! Eles esmagaram a nação sob suas botas, sufocando o clamor por verdade e justiça sob o pretexto pecaminoso de que estão agindo para o bem da nação!
Zola arriscou sua carreira de escritor, e possivelmente a vida, com este artigo de primeira página no L’Aurore, no qual acusou as Forças Armadas, com o beneplácito do governo e da Igreja, de difamar o capitão Alfred Dreyfus. Zola foi condenado e teve de fugir da França. Uma campanha de opinião pública fez com que Dreyfus fosse reabilitado.

SINDICATOS_1905
CONSTITUIÇÃO DO IWW
A classe trabalhadora e a classe empregadora não têm nada em comum. Não pode haver paz enquanto a fome e a necessidade forem encontradas entre milhões de trabalhadores e os poucos que constituem a classe empregadora detiverem todas as coisas boas da vida.
A central sindical Industrial Workers of the World recrutou imigrantes, mulheres, não brancos e trabalhadores imigrantes para formar uma organização de combate independente.

EMILIANO ZAPATA_1911
PLANO DE ALAYA
Mexicanos: pensem no fato de que a astúcia e a má-fé de um só homem estão derramando sangue de forma escandalosa, porque ele é incapaz de governar; pensem que seu governo está sufocando nossa terra e ameaçando nossas instituições com a força bruta das baionetas; portanto, assim como erguemos nossas armas para trazê-lo ao poder, erguemo-las de novo contra ele por descumprir as promessas ao povo mexicano e por trair a revolução iniciada por ele; não somos personalistas, somos partidários de princípios, não de homens!
Zapata liderou a Revolução Mexicana que derrubou o ditador Porfírio Díaz. O Plano de Ayala adotou a palavra de ordem “Terra e Liberdade”, que se tornou o mote da revolução. Zapata foi morto numa emboscada, em 1919.

EMMA GOLDMAN_1911
SEM CONFLITO
O anarquismo é a única filosofia que devolve ao homem a consciência de si mesmo; que sustenta que Deus, o Estado e a sociedade não existem, que suas promessas são inválidas e vazias, pois só podem ser cumpridas por meio da subordinação do homem. O anarquismo é o instrutor da unidade da vida, não apenas na natureza, mas no homem. Não existe conflito entre os instintos individuais e sociais, não mais do que existe entre o coração e os pulmões. O indivíduo é o coração da sociedade, conservando a essência da vida social; a sociedade são os pulmões que distribuem o elemento que conserva a essência da vida – o indivíduo – puro e forte.
A escritora americana abordou temas como a homossexualidade, o ateísmo e os presídios. Detida por pregar o controle de natalidade e se opor ao serviço militar obrigatório nos Estados Unidos, foi deportada para a Rússia. Lá, se opôs aos sovietes quando Lênin lhe disse que “não pode haver liberdade de expressão em um período revolucionário”.

ITO NOE_1914
PROBLEMAS DAS MULHERES
Os “problemas das mulheres” não são apenas problemas das mulheres. São problemas para os seres humanos. São questões para homens e mulheres refletirem. Mas os homens usam a tradição como um escudo. As mulheres ignorantes que,por milhões de anos, permaneceram como escravas são incapazes de escapar da disposição servil que se infiltrou em suas células. Sem autoconsciência, se alinham aos homens arrogantes e depreciam quem luta a seu favor.
Escritora feminista e anarquista, vinda de uma família trabalhadora japonesa, Ito se rebelou contra seu casamento arranjado, escreveu críticas aos misóginos, às mulheres da classe alta e aos comunistas. Foi assassinada pela polícia militar.

ROSA LUXEMBURGO_1915
PANFLETO JUNIUS
Violada, desonrada, esvaindo em sangue, emanando sujeira – eis aí a sociedade burguesa. Assim ela é. Não é totalmente imaculada e moral, com pretensões à cultura, à filosofia, à ética, à ordem, à paz e ao primado da lei – mas uma besta voraz, uma praga na cultura e na humanidade. Assim se revela em sua verdadeira forma. Em meio a esse sabá das feiticeiras, uma catástrofe aconteceu: a social-democracia internacional capitulou. Enganarmo-nos sobre isso seria a coisa mais estúpida e fatal que o proletariado poderia fazer.
O imperialismo e sua brutalidade política, e a sequência de catástrofes sociais incessantes que desencadeou, são sem dúvida uma necessidade histórica para as classes dominantes do mundo capitalista. Nada seria mais fatal para o proletariado do que se iludir, acreditando que é possível, após essa guerra, resgatar a continuação idílica e pacífica do capitalismo. A conclusão que o proletariado deve tirar da necessidade histórica do imperialismo é de que se render a ele significará viver para sempre à sua sombra vitoriosa e comer de seus restos.
É nossa força, nossa esperança, que são ceifadas dia após dia, como a relva sob a foice. As melhores forças, mais inteligentes e instruídas do socialismo, os portadores das tradições sagradas e os heróis mais ousados do movimento dos trabalhadores, a vanguarda de todo o proletariado, os trabalhadores da Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha, Rússia – são esses que estão agora sendo estropiados e conduzidos ao matadouro.
Trata-se de um ataque não contra a cultura burguesa do passado, mas contra a cultura socialista do futuro, um golpe letal contra aquela força que traz em seu bojo o futuro da humanidade, e é a única capaz de conduzir os tesouros preciosos do passado para uma sociedade melhor. Aqui o capitalismo expõe sua caveira assustadora; aqui ele revela o fato de que sua lógica histórica está esgotada; sua dominação contínua já não é conciliável com o progresso da humanidade.
Proletários do mundo, uni-vos!
Escrito na prisão, o panfleto denuncia o apoio do Partido Social Democrata Alemão à Primeira Guerra Mundial. Rosa Luxemburgo foi assassinada, junto com Karl Liebknecht, também ele fundador da Liga Spartacus, por paramilitares alemães, em 1919.

JOE HILL_1915
ÚLTIMO PEDIDO
Não chorem a minha morte – organizem-se.
O mais popular compositor do IWW, Joe Hill foi acusado de homicídio em Salt Lake City. Apesar dos protestos internacionais contra a farsa judicial que se seguiu, foi fuzilado. Suas últimas palavras estão num telegrama enviado a um companheiro, Wobbly Haywood.

LÊNIN_1917
TOMADA DO PODER
É preciso passar imediatamente à insurreição... Palavra de ordem: todo poder aos sovietes, a terra para os camponeses, a paz para os povos, o pão para os esfomeados.
A vitória é certa. E, numa proporção de nove sobre dez, sem derramamento de sangue.
Esperar é um crime contra a revolução.
Lênin, o líder dos bolcheviques, escreveu essa recomendação numa carta ao Comitê Central do partido, em setembro de 1917, dois meses antes da tomada do poder pelos comunistas.

TRISTAN TZARA_1918
MANIFESTO DADA
DADA; conhecimento de todos os meios rejeitados até agora pelo sexo pudico dos bons costumes:DADA; abolição da lógica, a dança dos impotentes da criação: DADA; de toda hierarquia e equação social instalada como valores por nossos subordinados: DADA; cada objeto, todos os objetos, os sentimentos e obscuridades, as aparições e o choque preciso de linhas paralelas são úteis para a batalha: DADA; abolição da memória: DADA; abolição da arqueologia: DADA; abolição dos profetas: DADA; abolição do futuro: DADA; crença absoluta e indiscutível em cada deus como um produto imediato da espontaneidade: DADA.
Nascido na Romênia e ativo na França, Tzara foi artista de vanguarda. Combateu pelos republicanos espanhóis, ingressou no Partido Comunista e participou da Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial.

SULTAN-GALIEV_1919
O ORIENTE
Não devemos perder de vista que a Revolução Socialista no Oriente não deve se limitar à abolição do poder do imperialismo europeu; ela deve se espalhar e colocar para o Oriente a questão da destruição de sua própria burguesia, que se pretende liberal, mas que em realidade é brutalmente despótica; ela é clerical e feudal. E é capaz, para satisfazer os seus interesses egoístas, de mudar a todo momento a sua posição em relação aos adversários estrangeiros.
Dirigente bolchevique tártaro, Sultan-Galiev tentou criar uma república muçulmana autônoma na União Soviética. Detido por ordem de Stálin, em 1923, foi condenado à morte em 1940.

MAO TSÉ-TUNG_1927
O MOVIMENTO CAMPONÊS
Uma revolução não é um jantar de gala, ou escrever um ensaio, ou pintar um quadro, ou fazer bordados. Ela não é feita com a mesma elegância, calma e delicadeza. Nem com a mesma suavidade, amizade, cortesia, moderação e generosidade. A revolução é uma insurreição. Um ato de violência no qual uma classe derruba a outra.
Num relatório sobre o movimento no campo em Hunan, Mao defende que o Partido Comunista organize o campesinato chinês para levar adiante a luta pela revolução proletária.

WALTER BENJAMIN_1940
FILOSOFIA DA HISTÓRIA
Articular historicamente o passado não significa reconhecê-lo “como de fato foi”. Significa apropriar-se da memória tal como ela se revela em um momento de perigo. O materialismo histórico deseja reter essa imagem do passado que, inesperadamente, aparece ao homem escolhido pela história num momento de perigo. O perigo afeta tanto o conteúdo da tradição como seus receptores. A mesma ameaça paira sobre ambos: tornar-se um instrumento das classes dominantes. Em cada época, deve-se tentar libertar a tradição de um conformismo que está prestes a subjugá-la. O Messias não vem apenas como salvador, vem como o vencedor do Anticristo. Só terá o dom de atiçar as centelhas da esperança no passado o historiador que estiver convencido de que mesmo os mortos não estarão seguros se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de ser vitorioso.
Interlocutor e crítico de Bertolt Brecht, Theodor Adorno e Georg Lukács, Benjamin suicidou-se, em 1940, ao ser detido na fronteira com a Espanha, quando tentava escapar da França ocupada.

LEON TROTSKY_1940
TESTAMENTO
Além da felicidade de ser um combatente da causa do socialismo, quis a sorte me reservar a felicidade de ser o esposo de Natasha Sedova. Durante quarenta anos de vida em comum, ela permaneceu uma fonte inesgotável de amor, magnanimidade e ternura. Sofreu grandes dores, principalmente no último período de nossas vidas. Encontro algum conforto no fato de que ela conheceu também dias de felicidade.
Nos 43 anos de minha vida consciente, permaneci um revolucionário; durante 42 destes, combati sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que recomeçar, procuraria evidentemente evitar este ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida permaneceria imutável. Morro revolucionárioproletário, marxista, partidário do materialismo dialético e, em consequência, ateu irredutível. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente; em verdade, ela é hoje mais firme do que o foi nos dias de minha juventude.
Natasha acabou de chegar pelo pátio até a janela e abriu-a completamente para que o ar possa entrar mais livremente em meu quarto. Posso ver a larga faixa de verde sob o muro, sobre ele o claro céu azul, e por todos os lados a luz do sol. A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo mal, de toda opressão, de toda violência e possam aproveitá-la plenamente.
Dirigente bolchevique, Trotsky foi banido por Stálin, refugiou-se na Turquia, na Noruega, na França e depois no México. Ali, escreveu seu testamento, no mesmo ano em que foi assassinado por um agente stalinista.

ADORNO & HORKHEIMER_1944
EVOLUÇÃO?
Durante séculos a sociedade se preparou para Victor Mature e Mickey Rooney.
Exilados em Los Angeles, onde se refugiaram do nazismo, Theodor W. Adorno e Max Horkheimer analisaram a indústria cultural no livro Dialética do Esclarecimento.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE_1945
PASSAGEM DO ANO
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Maior poeta em língua portuguesa do seu tempo (e de vários tempos), Drummond cantou a esperança num mundo radicalmente modificado, que fosse fruto da vitória sobre o fascismo na guerra de 1939-45. Cantou também a desilusão que se seguiu.

ALBERT EINSTEIN_1949
POR QUE SOCIALISMO?
Estou convencido de que só existe um meio de eliminar esses graves malefícios: o estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educacional que seja orientado para fins sociais. Em tal economia, os meios de produção estão nas mãos da própria sociedade e são utilizados de forma planejada. Um sistema que ajusta a produção às necessidades da comunidade distribuiria o trabalho entre todos aqueles aptos a trabalhar, e garantiria um meio de subsistência a todo homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além da promoção de suas próprias habilidades inatas, procuraria desenvolver nele uma sensação de responsabilidade por seu próximo, em vez da glorificação do poder e do êxito de nossa sociedade atual.
Com a tomada do poder pelos nazistas, o físico Albert Einstein renunciou à cidadania alemã e abandonou o país para nunca mais voltar.

SIMONE DE BEAUVOIR_1949
O SEGUNDO SEXO
Um homem tem razão por ser um homem; é a mulher que está errada. Ela é simplesmente o que o homem decreta; assim ela é chamada “o sexo”, no sentido de que aparece essencialmente ao macho como um ser sexual. Para ele, ela é sexo – sexo absoluto, nada menos. Ela é definida e diferenciada em referência ao homem, e não ele em referência a ela; ela é o incidental, o inessencial em oposição ao essencial. Ele é o Sujeito, ele é o Absoluto – ela é o Outro.
Fundadora de Les Temps Modernes, revista quecriou com Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir associou o existencialismo ao feminismo.

LOLITA LEBRÓN_1954
PALAVRAS AO SER PRESA
Não vim aqui para matar. Vim aqui para morrer.
Dolores Lebrón foi uma nacionalista porto-riquenha que ficou na prisão por 25 anos por ter atacado a Câmara americana, em 1954. Libertada, retornou a Porto Rico e à luta pela independência.

CONTRA O PODER NUCLEAR_1955
O MANIFESTO RUSSEL-EINSTEIN
Descortina-se à nossa frente, se quisermos, o progresso contínuo com felicidade, conhecimento e sabedoria. Deveremos, em vez disso, escolher a morte, porque não conseguimos esquecer nossas contendas? Apelamos como seres humanos aos seres humanos: lembrem-se de sua humanidade e esqueçam o resto. Se conseguirem isso, o caminho está aberto para um novo paraíso. Do contrário, aguarda-os à frente o risco da morte universal.
Sete anos antes da crise dos mísseis de Cuba, cientistas e pensadores de todo o mundo, liderados pelo filósofo Bertrand Russell e Einstein, divulgaram uma declaração condenando a estocagem e o uso de armas nucleares.

DOM HÉLDER CÂMARA_1960
ME CHAMAM DE SANTO
Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista.
Arcebispo de Olinda e Recife, d. Hélder criou a “igreja dos pobres”, grupo de bispos preocupados com questões sociais, e atacou duramente os militares durante a ditadura.

BETTY FRIEDAN_1963
A MÍSTICA FEMININA
Não podemos mais ignorar essa voz dentro das mulheres que diz: “Quero algo mais do que meu marido, meus filhos e meu lar.”
Fundadora da Organização Nacional das Mulheres, Betty Friedan defendeu o direito ao aborto e disseminou o feminismo nos Estados Unidos com o livro A Mística Feminina.

MARTIN LUTHER KING JR._1963
EU TENHO UM SONHO
Eu tenho um sonho de que um dia esta nação vai se levantar e viver o verdadeiro significado de sua crença: “Consideramos que estas verdades são evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais.”
Eu tenho um sonho de que um dia, nos montes escarlates da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos senhores de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade.
Eu tenho um sonho de que um dia até o estado do Mississippi, um estado sufocado pelo suor da injustiça, sufocado pelo calor da opressão, será transformado num oásis de liberdade e de justiça.
Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos um dia viverão numa nação em que não sejam julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.
Eu tenho um sonho hoje!
Ativista político e pastor protestante, Luther King tornou-se um símbolo na luta pelos direitos civis dos negros dos Estados Unidos. O discurso foi proferido em Washington, para uma plateia de 200 mil pessoas. Luther King foi assassinado em 1968.

NELSON MANDELA_1964
EM DEFESA DA VIOLÊNCIA
Não nego que planejei sabotagem. Não a planejei num espírito de irresponsabilidade, nem por ter amor à violência. Eu a planejei como resultado de uma avaliação calma e fria da situação política que surgira após muitos anos de tirania, exploração e opressão de meu povo pelos brancos. Os fatos concretos eram que cinquenta anos de não violência nada trouxeram ao povo africano além de uma legislação cada vez mais opressora, e dando cada vez menos direitos.
Queremos direitos políticos iguais, porque sem eles nossas deficiências serão permanentes. Não é verdade que a emancipação de todos resultará no domínio racial. A divisão política baseada na cor é totalmente artificial e, quando desaparecer, desaparecerá também o domínio de um grupo racial pelo outro.
 Acalentei o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todas as pessoas possam conviver em harmonia e com oportunidades iguais. Trata-se de um ideal pelo qual espero viver e que espero ver realizado. Se preciso for, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer.
Mandela foi líder da Lança da Nação, o braço armado da luta contra o apartheidna África do Sul. Preso e condenado por terrorismo, passou quase trinta anos na prisão por recusar uma conciliação com o governo que implicasse no fim da organização armada da resistência. Solto, foi eleito presidente do país.

MALCOLM X_1964
VOTO OU BALA
As mãos de Tio Sam estão gotejando sangue, gotejando sangue dos negros deste país. Ele é o hipócrita número 1 da terra. Ele tem audácia – sim, ele tem –, imagine-oposando de líder do mundo livre. Saiba o mundo o quão ensanguentadas estão as suas mãos. Saiba o mundo da hipocrisia praticada aqui. Que seja o voto ou a bala.
Proferido menos de um mês após o rompimento de Malcolm X, o discurso do ativista muçulmano marcou sua disposição de se aliar com o movimento dos direitos civis. Foi assassinado no ano seguinte.

JEAN-PAUL SARTRE_1964
POR QUE RECUSO O NOBEL
Um escritor não se deve deixar transformar em uma instituição.
Ganhador do Nobel de Literatura, foi o primeiro a recusar o prêmio. Em 1945, já havia dispensado a maior honraria francesa, a Légion d’Honneur.

CHE GUEVARA_1965
VIDA E REVOLUÇÃO
Correndo o risco de parecer ridículo, me permita dizer que o verdadeiro revolucionário é guiado por um grande sentimento de amor. É impossível pensar num autêntico revolucionário que careça dessa qualidade.
Os líderes da revolução têm filhos que estão começando a falar, que não estão aprendendo a chamar seus pais pelo nome; esposas das quais foram separados como parte do sacrifício de suas vidas para a realização da revolução; o seu círculo de amigos se limita estritamente ao número de colegas revolucionários. Não há vida fora da revolução.
Guevara escreveu isso numa carta a Carlos Quijano, editor de Marcha, semanário publicado em Montevidéu. Estava numa viagem durante a qual discursou nas Nações Unidas e visitou países africanos. Também disse mais tarde que “um povo sem ódio não consegue derrotar um inimigo brutal”.

PAULO FREIRE_1968
PEDAGOGIA DO OPRIMIDO
A verdadeira generosidade está em lutar para que desapareçam as razões que alimentam o falso amor. A falsa caridade, da qual decorre a mão estendida do “demitido da vida”, medroso e inseguro, esmagado e vencido. Mão estendida e trêmula dos esfarrapados do mundo, dos “condenados da terra”. A grande generosidade está em lutar para que, cada vez mais, essas mãos sejam de homens ou de povos, se estendam menos em gestos de súplica. Súplica de humildes a poderosos. E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas, que trabalhem e transformem o mundo.
Preso durante o golpe militar de 1964, o pedagogo brasileiro viveu quinze anos no exílio, onde escreveu Pedagogia do Oprimidoe outros livros que influenciaram professores de várias partes do mundo.

GRAFITE_1968
RAZÃO
Sejamos razoáveis: peçamos o impossível.
Pichação parisiense durante a greve geral de maio daquele ano.

MUHAMMAD ALI_1970
NENHUM VIETCONGUE ME XINGOU
Não tenho nada contra os vietcongues. Nenhum vietcongue jamais me chamou de crioulo.
Ali se opôs à Guerra no Vietnã, foi condenado por recusar o recrutamento e por isso privado do título de campeão mundial de pesos pesados. Mais de 200 mil pessoas recusaram-se ao alistamento e o presidente Jimmy Carter se viu forçado, em 1977, a conceder-lhes anistia.

PAULO EMÍLIO SALLES GOMES_1973
NÃO SER E SER OUTRO
Não somos europeus nem americanos do norte, mas destituídos de cultura original, nada nosso é estrangeiro, pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro.
Ao avaliar o cinema nacional, em 1973, Paulo Emílio fez uma súmula da problemática da identidade brasileira.

SALVADOR ALLENDE_1973
AVENIDAS SE ABRIRÃO
Trabalhadores de minha pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens superarão esse momento cinza e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, muito mais cedo do que tarde, grandes avenidas se abrirão novamente, por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.
Viva o Chile! Viva o povo! Vivam os trabalhadores!
Em 11 de setembro de 1973, Allende fez um último discurso, ao ser derrubado da Presidência.

ANÔNIMO CHECO_ANOS 80
TRANSIÇÃO
O que é o socialismo?
É a dolorosa transição do capitalismo para o capitalismo.
Piada corrente nas universidades checas, nos estertores do domínio stalinista.

ANÔNIMOS DE PEQUIM_1989
SETE PEDIDOS
Reconhecer que a posição de Hu Yaobang em relação à democracia e à liberdade estava certa.
Admitir que as campanhas contra a poluição espiritual e a liberalização burguesa estavam erradas.
Publicar a remuneração das autoridades e de seus familiares.
Permitir a circulação de jornais independentes e a liberdade de pensamento.
Aumentar as verbas da educação e o salário de intelectuais.
Abolir a restrição a manifestações em Pequim.
Promover eleições democráticas para trocar as autoridades que tomaram decisões políticas ruins.
Durante as manifestações na Praça da Paz Celestial, a multidão chegou a um acordo em torno de sete reivindicações, que foram endereçadas à direção do Partido Comunista. A primeira delas se referia a Hu Yaobang, líder do partido em desgraça que morrera pouco antes. A manifestação terminou num banho de sangue, promovido pelos líderes do PCC, Deng Xiaoping à frente.

SUBCOMANDANTE MARCOS_1994
EM NOSSOS SONHOS
Em nossos sonhos vimos outro mundo, um mundo honesto, um mundo decididamente mais justo do que aquele onde vivemos agora. Vimos que nesse mundo não havia necessidade de exército. Paz, justiça e liberdade eram tão comuns que ninguém falava delas como conceitos distantes, mas como pão, aves, ar, água, como livro e voz. Assim as coisas boas eram chamadas nesse mundo. E nesse mundo havia bom-senso e boa vontade no governo, e os líderes eram pessoas de pensamento claro. Eles governavam obedecendo. Esse mundo não era um sonho do passado, não era algo que vinha para nós de nossos ancestrais. Vinha da frente, do próximo passo que iríamos dar. Assim começamos a avançar para realizar esse sonho, fazer com que descesse e se sentasse às nossas mesas, iluminasse nossos lares, crescesse nos nossos milharais, enchesse os corações de nossos filhos, enxugasse o nosso suor, curasse a nossa história. E era para todos. É isso que queremos. Nada mais, nada menos.
Porta-voz e “antilíder” do Exército Zapatista de Libertação Nacional, o subcomandante Marcos tornou-se um ícone da luta anticapitalista global. Ele se recusa a revelar sua identidade, embora o governo mexicano afirme que é Rafael Sebastián Guillén Vicente, ex-professor na Cidade do México.

ANGELA DAVIS_1998
BIG BUSINESS
As prisões não fazem problemas desaparecer, elas desparecem com seres humanos. E a prática de fazer desaparecer enormes contingentes de pessoas das comunidades pobres, imigrantes e racialmente marginalizadas tornou-se, literalmente, um grande negócio.
Ex-militante do partido Black Panther, Davis foi duas vezes candidata a vice-presidente dos Estados Unidos pelo Partido Comunista. Fundou o grupo Resistência Crítica, que propugna o fim do sistema carcerário.

MIGUEL ALVES DOS SANTOS_2000
VENCER
Saber respeitar, ser jovem até os 100 anos de idade – a cor não interessa, pode ser preto, pode ser branco. Somos todos iguais. Isso é importante. O Movimento dos Sem Terra tem esse brilho, tem esse caráter de liberdade. Então, é por isso que eu vim para o Movimento. Para uma coisa que vinha depois e que me destinou a voltar àquele nosso processo de antigamente, a lutar junto, a me aliar, que é o que sempre quis: “Vencer, vencer.” Lutar para vencer. Para ver os nossos filhos, nossos netos, nossos companheiros dando risada. Formar um lar, ter uma casa produtiva, com saúde e com educação. É importante você chegar numa praça e ver os velhinhos se divertindo, alegres e satisfeitos.
Trabalhador preso e torturado por suspeita de comunismo, Santos viveu dois anos nas ruas de São Paulo e depois se tornou líder do Movimento dos Sem Terra, o MST.

NAOMI KLEIN_2001
AGENDA LOCAL
O movimento antiglobalização precisa se transformar em milhares de movimentos locais, combatendo os efeitos da política neoliberal na vida das pessoas: falta de casas, estagnação dos salários, disparada dos aluguéis, violência policial, aumento explosivo da população carcerária, criminalização dos trabalhadores migrantes, e assim por diante. Essas também são lutas que envolvem questões prosaicas: o direito de decidir para onde vai o lixo, de dispor de boas escolas públicas, de receber água limpa. Ao mesmo tempo, os movimentos locais que combatem a privatização precisam vincular suas campanhas a um grande movimento global, que pode mostrar como suas questões particulares se encaixam na agenda econômica internacional. O objetivo não deveria ser regras boas e governantes distantes, mas uma democracia próxima da vida das pessoas.
Klein, jornalista e ativista canadense, é autora do livro Sem Logo, publicado um ano após as manifestações de Seattle, em 1999, contra a Organização Mundial do Comércio.

NOAM CHOMSKY_2003
CONTROLE DA MÍDIA
É necessário algo para amansar o rebanho perplexo, e esse algo é a nova revolução na arte da democracia: o consentimento forjado. A mídia, as escolas e a cultura popular precisam ser divididas. A classe política e os tomadores de decisões têm que fornecer alguma sensação tolerável de realidade, embora também tenham de inculcar as crenças de que necessitam.
No Estado totalitário, ou Estado militar, isto é fácil. Brande-se um porrete e, se alguém sair da linha, recebe uma bordoada na cabeça. Mas à medida que a sociedade se tornou mais livre e democrática, perdeu-se essa capacidade. Portanto, agora é necessário recorrer às técnicas de propaganda. A lógica é clara. A propaganda está para a democracia como o porrete está para o Estado totalitário.
Teórico da linguística, o intelectual americano criticou a política externa americana e fez oposição à Guerra do Vietnã. Seus alvos têm variado dos meios de comunicação em massa ao governo israelense, passando pela ocupação do Iraque.

HAROLD PINTER_2005
DISCURSO DO NOBEL
Como todos sabem, a justificativa para a invasão do Iraque foi que Saddam Hussein possuía um arsenal de armas de destruição em massa, algumas das quais poderiam ser disparadas em 45 minutos, ocasionando uma destruição pavorosa. Garantiram-nos que era verdade. Não era verdade. Disseram-nos que o Iraque mantinha relações com a Al Qaeda e que era corresponsável pela atrocidade que se abateu sobre Nova York em 11 de setembro de 2001. Garantiram-nos que era verdade. Não era. Disseram-nos que o Iraque era uma ameaça à segurança do mundo. Garantiram-nos que era verdade. Não era.
Os crimes dos Estados Unidos têm sido sistemáticos, constantes, cruéis, impiedosos, mas pouca gente toca no assunto. É preciso responsabilizar os Estados Unidos. Eles manipulam o poder com extrema frieza no mundo todo, fazendo-se passar por uma força universal do bem. Trata-se de um ato de hipnose brilhante, e muito bem-sucedido.
Escritor, diretor de teatro e ator inglês, Pinter intitulou seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura “Arte, Verdade e Política”.

HUGO CHÁVEZ_2006
NA ASSEMBLEIA DA ONU
O diabo esteve ontem aqui, bem aqui. Ainda há cheiro de enxofre hoje. Ontem, nesta mesma tribuna, o presidente dos Estados Unidos, a quem chamo de “o diabo”, falou como se fosse o dono do mundo. Seria apropriado que um psiquiatra analisasse o discurso do presidente dos Estados Unidos. Como porta-voz do imperialismo, veio dar suas receitas para manter o atual esquema de dominação, de exploração e de saque dos povos do mundo. Foi como um filme de Alfred Hitchcock. Eu até proporia um título: A Receita do Diabo.
O discurso do tirano mundial, cínico e cheio de hipocrisia, mostra a tentativa dos imperialistas em controlar tudo. Eles querem nos impor o modelo democrático tal e qual o concebem: a falsa democracia das elites. É um modelo democrático muito original: imposto a explosões, a bombardeios, na base de invasões e canhonaços. Ora, que democracia! Seria preciso revisar as teses de Aristóteles, não?
O que ocorre é que o mundo está despertando e em todo canto os povos se insurgem. Sim, podemos ser descritos como extremistas, mas nos insurgimos contra o império, nos insurgimos contra o modelo de dominação...
A aurora ocorre em todos os lugares: na América Latina, África, Europa e na Oceania. Gostaria de enfatizar essa visão otimista. Para que possamos fortalecer nossa vontade e nossa disposição em lutar pelo salvamento do mundo, e construir um mundo novo e melhor.
O presidente venezuelano falou à Assembleia Geral das Nações Unidas um dia depois de George W. Bush. Chávez tentou dar um golpe de Estado em 1992 e não conseguiu. Foi eleito presidente em 1998 e reeleito em 2000 e 2006, além de ter vencido uma tentativa de golpe em 2002.

ANTONIO CANDIDO_2009
EXAGEREM, ERREM, ACERTEM
Estou aqui para fazer um protesto veemente contra a intervenção da força policial no campus: ela é um atentado a um dos direitos mais sagrados, que é o de debater sem sofrer pressão externa. Atuem, ajam, exagerem, errem, acertem na busca da justiça social.
Num discurso numa assembleia na Universidade de São Paulo, o decano da crítica literária incentivou estudantes que protestavam contra a entrada da polícia militar no campus.

MUNTAZER AL-ZAIDI_2009
POR QUE ATIREI O SAPATO
Estou livre. Mas meu país ainda é prisioneiro de guerra. Muito se falou sobre a ação e sobre a pessoa que realizou a ação, e sobre o herói e o ato heroico, e o símbolo e o ato simbólico. Mas, simplesmente, eu respondo: o que me impeliu a agir é a injustiça que se abateu sobre o meu povo e a humilhação que a ocupação quis impor à minha pátria, colocando-a sob seu tacão.
Digo àqueles que me reprovam: sabe em quantos lares destruídos aquele sapato que atirei entrou? Quantas vezes pisoteou o sangue de vítimas inocentes? Talvez aquele sapato fosse a reação adequada quando todos os valores são violados.
Quando atirei o sapato no rosto do criminoso George Bush, quis expressar minha rejeição às suas mentiras, à ocupação do meu país, ao assassinato do meu povo. Minha rejeição à sua pilhagem da riqueza do meu país, à destruição da infraestrutura. E à dispersão dos filhos do Iraque em uma diáspora.
Al-Zaidi, jornalista iraquiano, jogou um sapato em George W. Bush na ocasião de uma visita do presidente americano a Bagdá. O número de mortes de civis devido à ocupação do Iraque foi estimado em mais de 1 milhão de pessoas, entre 2003 e 2010.

LIU XIAOBO_2009
O TAMBOR E A CANETA
Seja na China ou em outras partes do mundo, na Antiguidade ou na era Moderna e Contemporânea, a inquisição literária através da criminalização do discurso constitui um ato contra a humanidade e os direitos humanos.O primeiro imperador da dinastia Qin conseguiu a unificação da China, mas a tirania de sua “queima de livros e de enterrar vivos os sábios confucianos” tornou-se uma triste lembrança. O imperador Wu, da dinastia Han, foi um homem de grande talento e visão, mas sua decisão de mandar castrar o grande historiador Sima Qian valeu-lhe críticas e ignomínia.
Em termos de efeito objetivo, é mais perigoso calar a boca das pessoas do que represar um rio. As altas paredes da prisão não conseguem deter a livre-expressão. Um regime não pode estabelecer sua legitimidade suprimindo diferentes pontos de vista políticos, nem pode preservar a paz e estabilidade duradouras mediante a inquisição literária. Pois os problemas oriundos do tambor de uma caneta só podem ser resolvidos pelo tambor de uma caneta.
Participante dos protestos da Praça da Paz Celestial, em 1989, o escritor Liu Xiaobo tem defendidoos direitos humanos na China desde então. Foi condenado em 2009 a onze anos de prisão, e recebeu o Nobel da Paz no ano seguinte.

HENNING MANKELL_2010
A AÇÃO E A PALAVRA
A Faixa de Gaza foi transformada na maior prisão ao ar livre do mundo, e era óbvio que deveríamos fazer alguma coisa. Achamos que talvez devêssemos tentar romper o bloqueio, e a única maneira de fazer isso era com um comboio de barcos. A primeira vez que ouvi falar disso, pensei que era uma boa ideia, gosto de navegar. Acredito muito na solidariedade como um instrumento para mudar o mundo, e acredito no diálogo, mas é a ação que prova a palavra.
Escritor sueco, Mankell estava no comboio que tentou romper o embargo da Faixa de Gaza, em maio, quando tropas israelenses invadiram os barcos e mataram nove pessoas. Desde 1989, Israel restringe o direito de ir e vir em Gaza, e em 2007 bloqueou a área. David Cameron, o primeiro-ministro inglês, descreveu Gaza como um “campo de prisioneiros”.

ZUCCOTTI PARK_2011
CONTRA O 1%
Nós somos os 99%.
Divisa do movimento Ocupar Wall Street, em Nova York e em dezenas de cidades nos Estados Unidos, referindo-se à maioria prejudicada da sociedade.

PRAÇA TAHRIR, CAIRO_2011
CONTINUAR
Não vamos sair, ele sai.
Grito dos manifestantes que exigem a renúncia do marechal Mohamed Hussein Tantawi e a queda da junta militar que controla o Egito desde fevereiro, quando foi derrubado o ditador Hosni Mubarak. J