Mostrando postagens com marcador indios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador indios. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de março de 2019

A resistência indígena à escravidão

A derrota dos bandeirantes em Mbororé

Por Domingos Miranda

Em 11 de março de 1641 teve início a batalha do Mbororé entre os bandeirantes e os indígenas guarani e que teve enorme influência no Sul do Brasil e nordeste da Argentina. A tropa bandeirante era formada por 1.500 homens e, durante cinco dias, enfrentou cerca de 4.200 indígenas que moravam nas reduções dirigidas pelos jesuítas na região onde hoje é o Rio Grande do Sul. Pela primeira vez os índios estavam armados com 300 arcabuzes fornecidos pelo governo de Buenos Aires. A derrota da tropa paulista foi completa e apenas 120 integrantes da expedição conseguiram retornar a São Paulo. O historiador Walter Piazza, em seu livro “Santa Catarina: Sua História”, diz que, por causa deste desastre, os bandeirantes não se aventuraram novamente em áreas do extremo Oeste catarinense.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas
A escravidão dos índios foi tão trágica quanto a dos negros. Os bandeirantes paulistas se envolveram na caça aos silvícolas com uma ferocidade terrível, não respeitando qualquer princípio cristão. O objetivo era angariar mão-de-obra para as plantações de cana de açúcar e para o transporte de mercadorias para o porto de Santos. O Sul do Brasil foi a sua principal área de ação. Primeiro atacaram os pacíficos carijós, que habitavam o litoral catarinense. Em menos de um século as tribos desta etnia estavam extintas. Em seguida se dirigiram mais para o Oeste, onde havia milhares de indígenas guarani nas reduções jesuíticas. Depois da destruição de várias reduções, o governo espanhol autorizou que os jesuítas armassem os índios.
Os jesuítas começaram a fazer os aldeamentos dos índios, por eles chamados reduções, em 1602, às margens do rio Paraná, na parte ocidental dos atuais estados do Paraná e Santa Catarina. Depois se estenderam mais para o Sul, no Rio Grande do Sul, Argentina e Paraguai. Entre as 30 reduções, a mais populosa chegou a ter 8 mil habitantes. Os índios que decidissem morar nas reduções, legalmente, não poderiam ser escravizados. Mas os bandeirantes não respeitavam este ordenamento e a partir de 1628 começaram a fazer incursões, destruindo casas, matando e aprisionando índios. De 1636 a 1638, as entradas (nome dado às expedições dos paulistas) haviam destruído todos os estabelecimentos dos jesuítas no oriente do rio Uruguai.
Diante destes abusos os jesuítas permitiram que os índios se armassem e resistissem aos invasores. Quando o bandeirante Jerônimo Pedroso de Barros chegou às margens do rio Mbororé, na confluência com o rio Uruguai, em 1641, encontrou um exército de 4 mil indígenas armados, sob a liderança do índio Ignácio Abiaru. Novos conflitos voltariam a ocorrer nas missões a partir de 1750, após a assinatura do Tratado de Madri, quando a Espanha repassou o Oeste do Rio Grande do Sul para Portugal. Os indígenas aldeados em terras riograndenses teriam que se deslocar para a margem ocidental do rio Uruguai. O cacique Sepé Tiaraju, líder dos Sete Povos das Missões, não aceitou esta decisão e enfrentou de armas na mão as tropas portuguesas e espanholas. Foram trucidados na batalha de Caiboaté, em 7 de fevereiro de 1756. A partir daí não houve novos levantes indígenas na região.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

terça-feira, 4 de julho de 2017

Antropologia sob ameaça


Fonte: https://avidapublicadasociologia.wordpress.com/
Hoje há um evento importantíssimo no PPPCIS-UERJ (Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ): trata-se do seminário 'Terras Indígenas, Violência no Nordeste e CPI da FUNAI', agendado para às 17:30 na sala 9031F. Entre os palestrantes, estarão presentes Antônio Carlos de Souza Lima, atual presidente da ABA, e Daniela Alarcon, doutoranda do Museu Nacional. Por que esse evento é tão importante?
Há pouco menos de um mês, o deputado Nilton Leitão (PSDB-MT) publicou o seu relatório final da CPI FUNAI INCRA 2, no qual pede indiciamento de mais de 60 pessoas, entre funcionários públicos, indígenas e antropólogos. O documento foi a peça final de uma comissão parlamentar de inquérito marcada por forte presença da bancada ruralista e por constantes ataques à Associação Brasileira de Antropologia e aos profissionais envolvidos com a produção de laudos antropológicos, entre os quais Daniela. Aos que tiverem interesse, recomendo a leitura do imenso documento, disponível aqui. Não li o documento inteiro - que é enorme -, mas nas páginas que li, distribuídas ao longo do texto, foi possível ver que a comissão concentrou seus esforços em ouvir colonos, agricultores e moradores de cidades e localidades nas quais havia histórico de conflitos de terra envolvendo indígenas ou quilombolas. Os indígenas - supostamente grandes interessados em discutir a FUNAI - praticamente não foram ouvidos, e antropólogos críticos da ABA ganharam destaque, enquanto profissionais envolvidos com a questão indígena foram tratados como suspeitos. Li até mesmo uma passagem do texto em que a simples citação à obra do historiador inglês E.P Thompson por parte de um antropólogo é interpretada como justificativa para fraude pericial, como se o simples recurso à História Oral fosse altamente suspeito.
A ABA tem reagido a essa ofensiva, como se pode ver aqui , mas o assunto não está merecendo a atenção devida. Parte da imprensa repercutiu o clima geral da comissão, em que a antropóloga Flávia Cristina de Mello, uma da responsáveis pelo estudo de identificação e delimitação da Tera Indígena Mato Preto, foi alvo de questionamentos machistas sobre supostos 'relacionamentos amorosos' com indígenas da região. Em depoimentos colhidos no relatório a respeito da situação no Oeste do Paraná, é visível a hostilidade às instituições de ensino superior e às próprias atividades de pesquisa realizadas por estudantes na região, por supostamente serem simples instrumentos de manipulação dos indígenas.
Parece-me claro que o trabalho público realizado por cientistas sociais deve estar submetido ao escrutínio e à crítica de qualquer cidadão, mas não se trata apenas disso. Desde a ascensão do deputado Eduardo Cunha, forças parlamentares mais conservadoras ganharam prestígio e voz no Congresso. Entre os seus alvos, estão as próprias ciências sociais e seus conceitos, como se pode ver em projetos do tipo 'Escola sem Partido' ou em numerosas iniciativas legislativas Brasil afora que procuram impedir o uso de conceitos há décadas consagrados, como 'gênero'. Infelizmente, a CPI da FUNAI INCRA 2 talvez seja mais um episódio assustador desse clima geral de hostilidade não apenas às ciências humanas, mas à própria universidade. Nesse sentido, o evento de hoje não poderia ser realizado em lugar melhor. Afinal, a UERJ talvez seja a vítima mais visível desse misto de hostilidade e desprezo que atinge em cheio as instituições de pesquisa no país. Sucesso ao evento e força à ABA!

domingo, 11 de setembro de 2016

A falta que faz o saber indígena

Até a ONU, às voltas com tantos problemas que envolvem países inteiros, está preocupada com as ameaças aos povos indígenas no Brasil, que considera mais graves que os dos anos 1980 – diz um informe especial publicado no primeiro dia deste mês. Causas: demarcação de terras estagnada, enfraquecimento da Fundação Nacional do Índio (Funai) pelos últimos governos e iniciativas em andamento na atual administração que podem agravar o panorama. E os índios – que ocuparam todo o território nacional – hoje não chegam a 1 milhão de pessoas (0,47% do total brasileiro), segundo o IBGE : eram 24 povos com 896.917 pessoas em 2010, das quais 324 mil vivendo em cidades e 572.083 em áreas rurais.
A relatora da ONU para os direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, que esteve por aqui em março, acha que “hoje os povos indígenas encaram riscos mais profundos que no momento da adoção da Constituição, em 1988”. Porque, como constatou ela, o atual governo deixava pendentes 20 demarcações de terras – nos últimos oito anos não houve avanços. Os assassinatos de líderes indígenas passaram de 92 em 2007 a 138 em 2014 (Estado, 2/9). E tudo pode piorar com as crises econômica e política. E com a decisão de extinguir órgãos de defesa dos direitos humanos, além das ameaças de reverter ratificações e declarações de terras indígenas, como Cachoeira Seca (PA), Piaçaguera (SP) e Pequizal do Naruvotu (MT). Para a ONU, a prioridade deve ser a conclusão do processo de demarcação, “abandonado há anos”. O abandono tem incentivado o aumento da violência, principalmente entre os guaranis-caiovás e terenas (MS), os araras e paracanãs (PA) e os caapores (MA).
As dificuldades neste momento são corroboradas por vários noticiários em jornais e televisões. Um deles, aFolha de S.Paulo (4/9), relata a situação de uma família de índios da região do Xingu que passou a receber Bolsa Família (R$ 300 mensais). Eles se mudaram para a cidade e logo concluíram que a importância recebida era insuficiente para o sustento familiar, comprar fogões velhos, pagar aluguel da casa mais do que modesta. A situação só não é pior porque o filho adolescente trabalha numa borracharia.
Há 105 mil famílias indígenas recebendo Bolsa Família, 76 mil incluídas nas áreas rurais e quase 30 mil em áreas urbanas. R$ 182,31 é o benefício médio. Diz o noticiário que as consequências são “devastadoras” – o que traz imediatamente à memória a notícia de estudo que há mais de 30 anos vinha sendo desenvolvido por pesquisadores da então Escola Paulista de Medicina. Eles comparavam o estado de saúde de índios que moravam isolados em suas aldeias com o de outros que haviam emigrado para as cidades. Entre os primeiros – como registravam suas fichas semestrais – não havia um único caso de hipertensão ou de doenças coronarianas, AVCs, diabetes, problemas pulmonares e outros; já entre os que trabalhavam como boias-frias perto de Bauru (SP), todos esses problemas estavam presentes e ainda os casos de invalidez ou morte eram frequentes.
O autor destas linhas decidiu acompanhar a equipe médica ao Parque Indígena do Xingu – na época, inteiramente isolado - e, ali, os exames corporais e de laboratório por que passava cada um dos índios que já tinham fichas de exames anteriores. Mais uma vez, não havia um só caso de doença entre populações de índios do parque, comparando com migrados. E o jornalista ficou impressionado, não apenas com as constatações médicas, mas com o modo de viver desses índios xinguanos: a não delegação de poder (o chefe não tem poder, não dá ordens, é o grande líder e conselheiro, mas não manda em ninguém; se tentasse, os outros se dobrariam de rir); homem não bate em mulher; todas as pessoas são livres e iguais; o homem planta e colhe, pesca, busca ervas medicinais e alimentícias; a mulher cozinha e cuida dos filhos – mas sem receber ordens, etc. O fascínio provocado por esse testemunho levou o jornalista a produzir desde a década de 1980 várias séries para a televisão, que levaram a surpreendentes índices de audiência.
Essa possibilidade de convivência social com outros fundamentos levava à pergunta: seria possível voltarmos a viver como índios? Certamente, não. Só discutir a hipótese provocava espanto ou desdém. Mas provavelmente seria possível incorporar muitas de suas práticas sociais e de relacionamentos.
Há algumas décadas, o médico e professor da Universidade Federal de São Paulo Douglas Rodrigues, que estava na mencionada primeira viagem ao Xingu, já dizia que a hipertensão e a diabetes começavam a ser mais presentes, dadas as mudanças entre índios que antes viviam isolados, por causa dos contatos com habitantes de cidades e pela mudança nas dietas. A documentação para a TV comprovou a tese.
O tempo só acentuou as mudanças – e as análises. E tentativas de socorrer índios com programas sociais como o Bolsa Família e outros só alterou a rotina, acentuou a dependência de recursos financeiros, de programas assistenciais e médicos, necessidade de roupas, calçados, alimentos, etc.
O Estado brasileiro não tem política adequada para os grupos indígenas. Disfarçadamente, sem enunciá-la, sobrepõe uma política de aculturação, para substituir os fundamentos das culturas originárias – que criavam os modos de viver – e implantar a cultura branca. Os resultados são penosos, seja com a migração para cidades, seja com as transformações nas aldeias. Em lugar de aprendermos com eles alguns fundamentos de seus modos de viver originários, nós os levamos a absorver nossos modos de ser, a deixar de ser índios, sem terem vantagens, só prejuízos.
Na crise que vivemos, muitos livros, como o recém-publicado A Guerra da Água, de Harald Welzer, preveem que “caos e violência” causarão a próxima guerra mundial, em disputa pela água e outros recursos naturais. Sentiremos falta dos conhecimentos indígenas.
*jornalista e-mail: wlrnovaes@uol.com.br

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

MPF investiga envenenamento de crianças indígenas em MT

O Ministério Público Federal (MPF) está investigando uma suposta tentativa de envenenamento de crianças indígenas da etnia bororo que vivem na terra de Jarudore, na região do município de Poxoréu (a 259 km de Cuiabá). Segundo informações do G1, a terra é disputada entre índios e posseiros há mais de cinquenta anos, com processo na Justiça Federal, relatos de ameaças e invasões de faixas de terras por ambas as partes.
O MPF conta que ultimamente peixes foram encontrados próximos a terra indígena. Embora, nenhuma criança tenha morrido ou comido os peixes, há relatos de que cinco cães da aldeia e alguns animais silvestres - como tatus e serpentes - morreram com suspeita de intoxicação após ter contato com os peixes envenenados.
O local tem mais de 4,7 mil hectares e tradicionalmente é habitado por índios da etnia bororo. Mas, segundo o MPF, há mais de cinquenta anos tem sido ocupada ilegalmente também por posseiros que perseguem os indígenas e são responsáveis pela situação de instabilidade crescente na área. O MPF defende que seja realizada uma operação de desintrusão.
A Funai contou que foram observadas dezenas de besouros e moscas mortas em contato com os peixes deixados na entrada da terra indígena.
A Política Federal (PF) também suspeita que o alimento envenenado foi deixado ali para atrair as crianças das aldeias e foi até a área para realizar uma perícia ainda na noite de sexta-feira.
Ainda de acordo com o G1, a suposta tentativa de envenenamento das crianças é considerada um ato hediondo e a PF já identificou alguns suspeitos de terem deixado o alimento envenenado. O procurador da República Paulo Taek afirma que caso evidencia a perseguição que vem sendo sofrida pelos bororo por parte dos invasores da terra.

Fonte: http://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/mpf-investiga-envenenamento-de-crian%c3%a7as-ind%c3%adgenas-em-mt/ar-AAg6Jn7?li=AAaB4xI&ocid=iehp

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Valduga articula projeto que supre carência de proteínas em aldeia de Araquari

A Aldeia Guarani Piraí-Tí, localizada no município de Araquari, receberá um projeto piloto da Fundação Nacional do Índio (Funai) que trata do complemento no consumo de proteínas na alimentação da população indígena e na possibilidade de incrementar a renda da comunidade.
A iniciativa consiste na instalação, na área de reserva que comporta a aldeia guarani, de uma lagoa de dez mil metros quadrados para o povoamento de espécies nativas de peixe, como o jundiá, dourado, curimbatá e a piracanjuba. O convênio que viabiliza o projeto foi assinado na sexta-feira (20), durante reunião na Fundação 25 de julho, em Joinville, entre os técnicos da Funai João Paulo de Araújo Severo, Nilvan Vieira Duarte e Fernanda Cerqueira, o cacique Ronaldo Costa e o presidente da Cooperativa Mista de Piscicultores de Timbó (Coomapeixe), Roger Krambeck.
O gestionamento e a interlocução entre Funai e Coomapeixe se deu por meio da equipe de assessoria do deputado Cesar Valduga (PCdoB), que designou o advogado Jeison Giovani Heiler para acompanhar as tratativas entre as partes. A execussão do projeto, bem como o fornecimento de alevinos, deve ficar sob a responsabilidade da Coomapeixe, sob a supervisão da Funai.
Para Heiler, a celebração do convênio é importante, pois garantirá melhor qualidade alimentar aos indígenas. “Havia a intenção da Funai em instalar esta lagoa na aldeia, porém, havia a necessidade de uma cooperativa idônea para implementar o projeto a baixo custo, é aí que entra a articulação do mandato do deputado Valduga e a boa vontade da Coomapeixe”.
O projeto, considerado de baixo custo, pode dispor de até R$ 20 mil, contemplando a construção da lagoa e o fornecimento de alevinos, e é uma resposta à identificação pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), de carência de proteínas animais na alimentação das comunidades indígenas. Desta forma a construção de lagoas ou tanques pesqueiros nas comunidades indígenas é uma forma de efetivar a reintrodução de proteína animal na dieta indígena.

domingo, 22 de novembro de 2015

Aldeia Indigena Piraí

Cacique Guarani Ronaldo Costa em reunião para articulação projeto de inserção de proteína animal na comunidade indígena por intermédio da construção de tanques de peixe


Cacique Ronaldo Costa recepcionando acadêmicos do Curso de Direito da Católica de SC unidade de Joinville.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Indígenas montam site e contam sua versão da história em materiais didáticos

reprodução
A ONG Thydewá tem diversos projetos com o objetivo de empoderar os povos indígenas
Ainda nos primeiros anos da escola, quando as crianças têm seus contatos iniciais com a história brasileira, uma das perguntas propostas por muitos professores é “Quem descobriu o Brasil?”. A esta indagação, é comum que se espere que a criançada em coro responda “Pedro Álvares Cabral”.
Ao atribuir ao navegador português a descoberta do país, esta versão dos acontecimentos desconsidera as estimadas 5 milhões de pessoas que aqui viviam antes da chegada dos europeus. Para tentar minimizar este e muitos outros desrespeitos à cultura indígena, a ONG Thydêwá resolveu criar uma plataforma online para que os índios desenvolvam materiais didáticos que contem sua história e atualidade.
No site Índio Educa, é possível encontrar artigos a respeito de diferentes etnias e tribos brasileiras, todos escritos por indígenas. Os assuntos são diversos, e vão de aspectos históricos ao cotidiano. ”A época do índio sem voz está terminando. Este projeto tem o objetivo de empoderar o indígena para dialogar. Trabalhamos em cima dos preconceitos que existem, como pessoas que acham que eles ainda vivem nus”, conta o presidente da Thydêwá, Sebastian Gerlic.
A ideia surgiu em 2008, quando a Lei 11.645 tornou a temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena” obrigatória no currículo oficial da rede de ensino. Desde então, a ONG começou a reunir jovens indígenas interessados em produzir material de apoio a professores e alunos, e o Índio Educa foi lançado em 2011.
“Percebemos uma carência de material didático para dar subsídio a essas disciplinas. Então, chamamos indígenas que estão em universidades para formar um grupo de trabalho. Hoje o site tem 200 matérias provenientes de 10 etnias diferentes”, explica Gerlic.
O conteúdo do site é todo em formato de Recurso Educacional Aberto, com licença Creative Commons. Isso significa que o material pode ser utilizado e modificado por outras pessoas, como professores que queiram montar um conteúdo didático próprio.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Conselho Indigenista esclarece "suicídio coletivo" de índios

24 DE OUTUBRO DE 2012 - 12H41 

Conselho Indigenista esclarece "suicídio coletivo" de índios


O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) emitiu nota para esclarecer o que está sendo disseminado nas redes sociais como "suicídio coletivo" dos índios Kaiowá e Guarani. Na verdade, a carta divulgada por eles fala em morte coletiva, já que decidiram ficar na terra e resistir à desapropriação autorizada pela Justiça Federal de Navirai, no Mato Grosso do Sul. Leia a íntegra da nota abaixo.



Nota sobre o suposto suicídio coletivo dos Kaiowá de Pyelito Kue


O Cimi entende que na carta dos indígenas Kaiowá e Guarani de Pyelito Kue, MS, não há menção alguma sobre suposto suicídio coletivo, tão difundido e comentado pela imprensa e nas redes sociais. Leiam com atenção o documento: os Kaiowá e Guarani falam em morte coletiva (o que é diferente de suicídio coletivo) no contexto da luta pela terra, ou seja, se a Justiça e os pistoleiros contratados pelos fazendeiros insistirem em tirá-los de suas terras tradicionais, estão dispostos a morrerem todos nela, sem jamais abandoná-las. Vivos não sairão do chão dos antepassados. Não se trata de suicídio coletivo! Leiam a carta, está tudo lá. É preciso desencorajar a reprodução de tais mentiras, como o que já se espalha por aí com fotos de índios enforcados e etc. Não precisamos expor de forma irresponsável um tema que muito impacta a vida dos Guarani Kaiowá.

O suicídio entre os Kaiowá e Guarani já ocorre há tempos e acomete sobretudo os jovens. Entre 2003 e 2010 foram 555 suicídios entre os Kaiowá e Guarani motivados por situações de confinamento, falta de perspectiva, violência aguda e variada, afastamento das terras tradicionais e vida em acampamentos às margens de estradas. Nenhum dos referidos suicídios ocorreu em massa, de maneira coletiva, organizada e anunciada.

Desde 1991, apenas oito terras indígenas foram homologadas para esses indígenas que compõem o segundo maior povo do país, com 43 mil indivíduos que vivem em terras diminutas. O Cimi acredita que tais números é que precisam de tamanha repercussão, não informações inverídicas que nada contribuem com a árdua e dolorosa luta desse povo resistente e abnegado pela Terra Sem Males.

Conselho Indigenista Missionário, 23 de outubro de 2012

Histórico


Os índios Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul (MS), Centro-Oeste brasileiro, cansados da morosidade da justiça, decidiram retomar parte do tekoha (território sagrado) Arroio Koral, localizado no município de Paranhos, em 10 de agosto deste ano. Poucas horas depois, nem bem os cerca de 400 indígenas haviam montado acampamento, pistoleiros invadiram o local levando medo e terror para homens, mulheres e crianças.

No momento do ataque, os/as indígenas correram e se espalharam pela mata, no entanto, passados os momentos de pânico, aos poucos os Guarani Kaiowá foram retornando para o acampamento e mesmo se sentindo inseguros e amedrontados pretendem não sair mais de lá.

O Guarani Kaiowá Dionísio Gonçalves assegura que os indígenas estão firmes na decisão de permanecer no tekoha Arroio Koral, mesmo cientes das adversidades que terão que enfrentar, já que o território sagrado reivindicado por eles fica no meio de uma fazenda.

“Nós estamos decididos a não sair mais, nós resolvemos permanecer e vamos permanecer. Podem vir com tratores, nós não vamos sair. A terra é nossa, até o Supremo Tribunal Federal já reconheceu. Se não permitirem que a gente fique é melhor mandarem caixão e cruz, pois nós vamos ficar aqui”, assegurou.

A batalha pela retomada de terras indígenas não é de hoje no Mato Grosso do Sul. Neste estado, onde se localizam os mais altos índices de assassinatos de indígenas, esta população luta há vários anos pela devolução de terras tradicionais e sagradas. Dentro deste contexto de luta já aconteceram diversos ataques como os de sexta-feira, muitos ordenados por fazendeiros insatisfeitos com a devolução das terras aos seus verdadeiros donos.

O conflito fundiário e judicial que envolve o território sagrado Arroio Koral parecia estar resolvido quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em dezembro de 2009, um decreto homologando a demarcação da terra.

No entanto, em janeiro de 2010, o Supremo Tribunal Federal (STF), do qual está à frente o ministro Gilmar Mendes, suspendeu a eficácia do decreto presidencial em relação às fazendas Polegar, São Judas Tadeu, Porto Domingos e Potreiro-Corá.

O processo continua em andamento, mas tem caminhado a passos muito lentos, já que ainda não foi votado por todos os ministros. Assim, fartos da morosidade da justiça brasileira, os Guarani Kaiowá decidiram fazer a retomada da terra.

Os indígenas escreveram uma carta para os ministros do Supremo Tribunal Federal e para o governo federal em que reivindicam o despejo dos fazendeiros que ainda estão ocupando e destruindo territórios tradicionais já demarcados e reconhecidos pelo Estado brasileiro e pela Justiça Federal e exigem a devolução imediata de todos os antigos territórios indígenas.

“Sabemos que os pistoleiros das fazendas vão matar-nos, mas mesmo assim, a nossa manifestação pacífica começa hoje 10 de agosto de 2012. Por fim, solicitamos, com urgência, a presença de todas as autoridades federais para registrar as nossas manifestações pacíficas, étnicas e públicas pela devolução total de nossos territórios antigos”, anuncia o último trecho da carta assinada por lideranças, rezadores, mulheres pertencentes ao Povo Kaiowá e Guarani dos acampamentos e das margens de rodovias, ameaçados pelos pistoleiros das fazendas, dos territórios reocupados e das Reservas/Aldeias Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul.

Leia a carta dos indígenas na íntegra:
Carta da comunidade Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay-Iguatemi-MS para o governo e Justiça do Brasil
Nós (50 homens, 50 mulheres e 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, viemos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de da ordem de despacho expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, do dia 29 de setembro de 2012. Recebemos a informação de que nossa comunidade logo será atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal, de Navirai-MS.

Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver à margem do rio Hovy e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay. Entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio e extermínio histórico ao povo indígena, nativo e autóctone do Mato Grosso do Sul, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy onde já ocorreram quatro mortes, sendo duas por meio de suicídio e duas em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas.

Moramos na margem do rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs, avós, bisavôs e bisavós, ali estão os cemitérios de todos nossos antepassados.

Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui.

Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação e extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal. Decretem a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e enterrem-nos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos.

Sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo em ritmo acelerado. Sabemos que seremos expulsos daqui da margem do rio pela Justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui. Não temos outra opção esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.

Atenciosamente, Guarani-Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay

Com Adital e Cimi