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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O sono acabou - Revista PIAUI

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O sono acabou

Na sociedade 24/7, dormir é coisa para derrotados
por JONATHAN CRARY
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Quem já viveu na Costa Oeste da América do Norte deve saber que, em função das estações, todo ano centenas de espécies de pássaros migram para o norte e para o sul, perfazendo distâncias variadas ao longo da plataforma continental. O pardal-de-coroa-branca é uma dessas espécies. No outono, eles voam do Alasca até o norte do México; na primavera, voltam para o norte. Diferentemente da maioria dos outros pássaros, esse pardal tem a capacidade extraordinária de permanecer acordado por até sete dias durante as migrações, o que permite a ele voar e navegar de noite e procurar por alimento de dia, sem descansar.
Nos últimos cinco anos, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos gastou uma expressiva quantia de dinheiro para estudar essas criaturas. Com recursos do governo, pesquisadores de diversas universidades, notadamente em Madison, no estado de Wisconsin, têm investigado a atividade cerebral dos pássaros durante esses longos períodos de vigília, com a esperança de obter conhecimentos aplicáveis aos seres humanos, e descobrir como as pessoas poderiam ficar sem dormir e funcionar produtiva e eficientemente.
O objetivo inicial é tão somente a criação do soldado sem sono – e o estudo dos pardais-de-coroa-branca constituiu uma fração de um amplo esforço militar para obter algum controle, mesmo que limitado, sobre o sono humano. Inspirados pela Darpa (Defense Advanced Research Projects Agency), divisão de pesquisas avançadas do Pentágono, diversos laboratórios estão conduzindo testes experimentais de técnicas de privação de sono, recorrendo a substâncias neuroquímicas, terapia genética e estimulação magnética transcraniana. O objetivo de curto prazo consiste em desenvolver métodos que permitam a um combatente ficar sem dormir por pelo menos sete dias, e, no longo prazo, duplicar esse período, preservando níveis altos de desempenho mental e físico. Os atuais meios de indução à insônia têm apresentado preocupantes déficits cognitivos e psíquicos – como a diminuição da atenção, por exemplo –, como ocorreu com o uso difundido de anfetaminas em grande parte das guerras do século XX e, mais recentemente, de medicamentos como o Provigil [modafinil]. Agora, em vez de investigar formas de estimular a vigília, a ciência pretende reduzir a necessidade de sono do corpo.
Por mais de duas décadas, a lógica estratégica do planejamento militar dos Estados Unidos tem procurado remover o indivíduo de algumas etapas do circuito de comando, controle e execução. Gastam-se incontáveis bilhões de dólares em sistemas de mira e assassinato robóticos e de operação remota, com resultados desanimadoramente evidentes no Paquistão, no Afeganistão e em outros lugares. Apesar das inúmeras reivindicações por novos paradigmas de material bélico, e ainda que os analistas militares com frequência imputem ao agente humano o fracasso de operações avançadas, a necessidade militar de grandes contingentes humanos não vai diminuir no futuro próximo.
Devem-se entender os estudos sobre privação de sono no contexto de uma busca por soldados cujas capacidades físicas se aproximarão cada vez mais da eficácia de aparatos e redes não humanos. O complexo científico-militar tem se dedicado à pesquisa de formas de “cognição ampliada” que prometem aprimorar a interação entre homem e máquina. Simultaneamente, as Forças Armadas têm financiado diversas outras áreas de investigação do cérebro, bancando inclusive o desenvolvimento de uma droga contra o medo. Haverá ocasiões em que, por exemplo, drones armados com mísseis não poderão ser empregados e esquadrões da morte de soldados resistentes ao sono e à prova de medo serão necessários para missões de duração indefinida. Como parte desses esforços, o experimento com os pardais-de-coroa-branca – apartados dos ritmos sazonais do meio ambiente da costa do Pacífico – deve auxiliar o projeto de impor ao corpo humano um modelo de máquina eficaz e resistente. A história mostra que inovações relacionadas à guerra são inevitavelmente assimiladas na esfera social mais ampla, e o soldado sem sono seria o precursor do trabalhador ou do consumidor sem sono. Produtos contra o sono, após agressiva campanha de marketing das empresas farmacêuticas, iriam se tornar uma opção de estilo de vida e depois, para muitos, uma necessidade.
Mercados 24/7 (abreviação para 24 horas por dia, 7 dias por semana) e infraestrutura global para o trabalho e o consumo contínuos existem há algum tempo, mas agora é o homem que está sendo usado como cobaia para o perfeito funcionamento da engrenagem.

No início dos anos 90, um consórcio espacial russo-europeu anunciou seus planos de construir e colocar na órbita terrestre satélites que refletiriam a luz do Sol para a Terra. O esquema exigia o encadeamento de vários satélites em órbitas sincronizadas com a do Sol, a uma altitude de 1 700 quilômetros, cada um deles equipado com refletores parabólicos retráteis, feitos de um material superfino. Quando completamente abertos, cada satélite-espelho, com 70 metros de diâmetro, teria a capacidade de iluminar uma área de 25 quilômetros quadrados da Terra com uma luminosidade quase dez vezes maior do que a da Lua.
Em princípio, o projeto visava fornecer iluminação para o trabalho industrial e a exploração de recursos naturais em regiões remotas com longas noites polares, na Sibéria e no leste da Rússia, permitindo atividade ao ar livre, noite e dia. Mas o consórcio acabou expandindo seus planos para a possibilidade de oferecer iluminação noturna a regiões metropolitanas inteiras. Calculando que os custos de energia da iluminação elétrica poderiam ser reduzidos, o slogan da empresa era “Luz do dia a noite toda”.
A oposição ao projeto surgiu de imediato e de diversas frentes. Astrônomos temeram que a observação espacial a partir da Terra fosse prejudicada. Cientistas e ambientalistas apontaram consequências fisiológicas prejudiciais tanto aos animais quanto aos humanos, uma vez que a ausência de alternância regular entre dia e noite interromperia vários padrões metabólicos, inclusive o sono. Associações culturais e humanitárias também protestaram, alegando que o céu noturno é um bem comum ao qual toda a humanidade tem direito, e que desfrutar da escuridão da noite e observar as estrelas é um direito humano básico que nenhuma empresa pode eliminar. De qualquer modo, direito ou privilégio, ele já está sendo violado para mais da metade da população do planeta, em cidades que estão permanentemente envoltas na penumbra da poluição e na intensa iluminação.
Defensores do projeto, todavia, afirmaram que tal tecnologia ajudaria a diminuir o uso noturno de eletricidade e que a perda da noite e sua escuridão seria um preço razoável, considerando-se a redução do consumo global de energia. Seja como for, esse empreendimento ilustra o imaginário contemporâneo, para o qual um estado de iluminação contínua é inseparável da ininterrupta operação de troca e circulação globais. Em seus excessos empresariais, o projeto é uma expressão hiperbólica de uma intolerância institucional a tudo que obscureça ou impeça uma situação de visibilidade instrumentalizada e constante.

Desde 2001, a privação de sono tem sido uma prática de tortura aplicada às vítimas de custódia extrajudicial e a outros presos. As circunstâncias em que um dos detidos em particular, Mohammed al-Qahtani, se viu envolvido foram amplamente divulgadas, ainda que não fossem muito diferentes do tratamento recebido por centenas de outros presos cujos casos não foram tão bem documentados. Al-Qahtani foi torturado de acordo com as especificações do que agora é conhecido como o Primeiro Plano de Interrogatório Especial do Pentágono, autorizado por Donald Rumsfeld.
Praticamente privado de sono durante os dois meses em que foi submetido a sessões de interrogatório que chegavam a durar vinte horas, ele ficou confinado em cubículos onde não podia deitar, iluminados com fortes lâmpadas e equipados com alto-falantes de onde saía uma música muito alta. A comunidade de inteligência das Forças Armadas se referia a essas prisões como dark sites [locais escuros], ainda que um dos locais em que Al-Qahtani esteve encarcerado tenha recebido o codinome Camp Bright Lights [Campo de Luzes Brilhantes]. Certamente não foi a primeira vez que norte-americanos ou seus colaboradores se valeram da privação de sono. De certo modo, é equivocado destacar a técnica – para Mohammed al-Qahtani e muitos outros, a supressão do sono era apenas parte de um programa maior de espancamentos, humilhações, reclusão prolongada e simulações de afogamento. Muitos desses “programas” para prisioneiros extrajudiciais eram elaborados sob medida por psicólogos de equipes de consultoria de ciência do comportamento, que se empenhavam em explorar vulnerabilidades emocionais e físicas que identificavam em cada um deles.
Aplica-se a tortura da privação do sono há muitos séculos, mas seu uso sistemático coincide historicamente com a disponibilidade de luz elétrica e a facilidade de ampliar o som de modo continuado. Utilizada rotineiramente pela polícia de Stálin nos anos 30, em geral era a primeira etapa do que os torturadores do NKVD [Comissariado do Povo para Assuntos Internos] chamavam de “esteira rolante” – a sequência ordenada de brutalidades, da violência gratuita que danifica irreparavelmente os seres humanos. Em experimentos, ratos morrem depois de três semanas de insônia. Em humanos, basta um período relativamente curto para tal prática induzir à psicose; após algumas semanas, surgem os danos neurológicos. A falta de sono acarreta um estado de extremo desamparo e submissão – é impossível extrair informações relevantes da vítima, que confessará ou inventará qualquer coisa. A negação do sono é uma desapropriação violenta do- eu por forças externas, é o estilhaçamento calculado de um indivíduo.
Sabe-se que os Estados Unidos estão envolvidos há tempos na prática de tortura, diretamente ou por meio de governos fantoches. O período pós-11 de Setembro, porém, notabilizou-se pela naturalidade com que veio à luz a prática, tida como apenas um procedimento entre outros. Pesquisas de opinião revelam que a maioria da população aprova a sevícia em algumas circunstâncias. As discussões na grande imprensa são unânimes em não qualificar como tortura a privação de sono; ao contrário, considera-se uma forma de persuasão psicológica tão aceitável quanto a alimentação forçada de prisioneiros em greve de fome. Jane Mayer relatou em seu livroThe Dark Side (2008) que o Pentágono justificava cinicamente a privação de sono alegando que soldados da divisão de elite seal da Marinha eram obrigados a participar de missões simuladas nas quais passavam dois dias sem dormir.
O tratamento dos assim chamados prisioneiros de “alto interesse” em Guantánamo e em outros lugares combinava métodos explícitos de tortura com controle absoluto sobre a experiência sensorial e perceptiva. Os detentos, confinados em celas permanentemente iluminadas, sem janelas, eram obrigados a usar vendas nos olhos e tampões nos ouvidos. Assim, luz e som eram sempre bloqueados quando os indivíduos eram conduzidos para fora, de modo a impedir a consciência do tempo ou de algum estímulo que identificasse seu paradeiro. Esse regime de privação dos sentidos muitas vezes se estende ao contato rotineiro entre prisioneiros e guardas – estes estão sempre inteiramente paramentados, de luvas e capacete com visores espelhados de acrílico, impossibilitando que se veja o rosto ou mesmo um pedaço de pele deles. São técnicas e procedimentos pensados para a indução a estados abjetos de submissão.

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O 24/7 é um tempo de indiferença contra o qual a fragilidade da vida humana é cada vez mais inadequada, e dentro do qual o sono não é necessário nem inevitável. Em relação ao trabalho, torna plausível, até normal, a ideia de trabalhar sem pausa, sem limites. Alinha-se com o inanimado, com o inerte ou com o que não envelhece. Enquanto exortação publicitária, decreta a disponibilidade absoluta – e, portanto, um estado de necessidades ininterruptas, sempre encorajadas e nunca aplacadas. A ausência de restrições ao consumo não é simplesmente temporal. Foi-se o tempo em que a acumulação era, acima de tudo, de coisas. Agora nossos corpos e identidades assimilam uma superabundância de serviços, imagens, procedimentos e produtos químicos em nível tóxico e muitas vezes fatal. A sobrevivência do indivíduo, em longo prazo, é sempre dispensável, se para tanto seja preciso contar, mesmo que indiretamente, com a possibilidade de entreatos sem compras ou o fomento delas. Da mesma forma, 24/7 é inseparável da catástrofe ambiental, dada a exigência de gasto permanente e desperdício sem fim para sua manutenção e a interrupção fatal dos ciclos e estações dos quais depende a integridade ecológica.
Em sua profunda inutilidade e intrínseca passividade, com perdas incalculáveis para o tempo produtivo, a circulação e o consumo, o sono estará sempre a contrapelo das demandas de um universo 24/7. O fato de passarmos dormindo um bom período da vida, libertos de um atoleiro de carências simuladas, subsiste como uma das grandes afrontas humanas à voracidade do capitalismo contemporâneo. O sono é um hiato incontornável no roubo de nosso tempo pelo capitalismo. A maioria das necessidades aparentemente irredutíveis da vida humana – fome, sede, desejo sexual e recentemente a necessidade de amizade – se transformou em mercadoria ou investimento. O sono afirma a ideia de uma necessidade humana e de um intervalo de tempo que não pode ser colonizado nem submetido a um mecanismo monolítico de lucratividade, e desse modo permanece uma anomalia incongruente e um foco de crise no presente global. Apesar de todas as pesquisas científicas, frustra e confunde qualquer estratégia para explorá-lo ou redefini-lo. A verdade chocante, inconcebível, é que nenhum valor pode ser extraído do sono.

Não surpreende que, em todo lugar, esteja em curso uma corrosão do sono, dada a dimensão do que está economicamente em jogo. Ao longo do século XX houve incursões regulares contra o tempo de sono – o adulto norte-americano médio dorme hoje cerca de seis horas e meia por noite, uma redução do patamar de oito horas da geração anterior e, por incrível que pareça, de dez horas do começo do século XX. Em meados do século passado, o conhecido provérbio de que “passamos um terço de nossas vidas dormindo” parecia uma certeza axiomática, uma certeza que continua sendo minada.
O sono é um lembrete ubíquo, ainda que despercebido, de uma pré-modernidade que jamais foi completamente superada, do universo agrícola que começou a desaparecer há 400 anos. O escândalo do sono é o enraizamento em nossas vidas das oscilações rítmicas de luz solar e escuridão, atividade e descanso, de trabalho e recuperação, erradicadas ou neutralizadas em outros âmbitos. O sono possui, claro, uma história densa, assim como tudo que é supostamente natural. Jamais foi algo monolítico ou imutável, e ao longo de séculos e milênios assumiu diversas formas e padrões. Nos anos 30, Marcel Mauss incluiu tanto o sono quanto a vigília em seu estudo de “técnicas corporais”, no qual mostrou que comportamentos aparentemente instintivos eram na verdade aprendidos de diversas maneiras por imitação ou educação. No entanto, ainda assim é possível supor que havia características comuns do sono na enorme diversidade de sociedades agrárias pré-modernas.
Em meados do século XVII, o sono se desligou da posição estável que ocupara nas concepções aristotélicas e renascentistas, hoje obsoletas. Sua incompatibilidade com noções modernas de produtividade e racionalidade passou a ser notada, e Descartes, Hume e Locke foram apenas alguns dos filósofos que desprezavam o sono por sua irrelevância para o funcionamento da mente e para a busca de conhecimento. Ele perdeu o valor em face do privilégio conferido à consciência e à vontade, a noções de utilidade, objetividade e ações em interesse próprio. Para Locke, o sono era uma interrupção lamentável, ainda que inevitável, das prioridades que Deus estabeleceu para os seres humanos: serem industriosos e racionais. No primeiro parágrafo do Tratado da Natureza Humana de Hume, o sono, como a febre e a loucura, é um obstáculo ao conhecimento. Em meados do século XIX, a relação assimétrica entre sono e vigília passou a ser caracterizada segundo modelos hierárquicos nos quais o sono era tratado como uma regressão a um modo inferior e mais primitivo, no qual era inibida a atividade cerebral supostamente superior e mais complexa. Schopenhauer é um dos raros pensadores que viraram essa hierarquia contra si mesma e afirmaram que apenas no sono pode-se encontrar “o verdadeiro cerne” da existência humana.
O status incerto do sono deve ser compreendido em relação à dinâmica particular da modernidade, que invalida qualquer organização da realidade em conceitos binários complementares. A força homogeneizadora do capitalismo é incompatível com qualquer estrutura inerente de diferenciação: sagrado–profano, carnaval–dia útil, natureza–cultura, máquina–organismo e assim por diante. Assim, tornam-se inaceitáveis quaisquer noções persistentes do sono como algo de certa forma “natural”. As pessoas continuarão a dormir, claro, e mesmo nas megalópoles em expansão haverá intervalos noturnos de relativo sossego. No entanto, o sono é agora uma experiência desvinculada de ideias de necessidade e natureza. Ao contrário, e como tantas outras coisas, é tratado como uma função variável, mas controlada, que só pode ser definida instrumental e fisiologicamente.

Pesquisas recentes mostram que cresce exponencialmente o número de pessoas que acordam uma ou mais vezes durante a noite para verificar mensagens ou informações. Uma figura de linguagem recorrente e aparentemente inócua é o sleep mode [modo de hibernação], inspirada nas máquinas. A ideia de um aparelho em modo de consumo reduzido e de prontidão transforma o sentido mais amplo do sono em mera condição adiada ou diminuída de operacionalidade e acesso. Ela supera a lógica do desligado/ligado, de maneira que nada está de fato “desligado” e nunca há um estado real de repouso.
O sono é uma afirmação irracional e intolerável de que não é irrestrita a compatibilidade de seres vivos com as forças supostamente irresistíveis da modernização. Um dos truísmos conhecidos do pensamento crítico contemporâneo é que não existem características naturais inalteráveis – nem mesmo a morte, segundo aqueles que preveem que em breve estaremos todos transferindo os dados de nossa mente para uma forma digital de imortalidade. Acreditar que existam quaisquer traços essenciais que distinguem os seres vivos das máquinas é, dizem-nos críticos célebres, ingênuo e delirante. Por que alguém protestaria, pode-se argumentar, se novas drogas nos permitissem trabalhar por 100 horas seguidas? Períodos de sono mais flexíveis e reduzidos não possibilitariam maior liberdade pessoal e organização da própria vida de acordo com necessidades e desejos individuais? Menos sono não permitiria mais oportunidades de “viver a vida ao máximo”? Alguém poderia contestar que os seres humanos foram feitos para dormir à noite, que os nossos corpos estão alinhados com a rotação diária do planeta e que comportamentos que reagem às estações e à luz do Sol existem na maioria dos organismos vivos. A resposta provavelmente seria: isso é uma bobagem new age perniciosa, ou pior, uma nefasta ânsia heideggeriana por alguma conexão com a Terra. No paradigma neoliberal globalista, dormir é, acima de tudo, para os fracos.
No século XIX, após os piores abusos no trato dos trabalhadores durante a industrialização europeia, os administradores das fábricas se deram conta de que seria mais lucrativo oferecer aos empregados módicas horas de descanso a fim de torná-los produtores mais eficazes e sustentáveis no longo prazo, como mostrou Anson Rabinbach em seu estudo sobre a ciência da fadiga. Mas nas últimas décadas do século XX e até o presente, com o colapso de formas controladas ou mitigadas de capitalismo nos Estados Unidos e na Europa, desapareceu a necessidade interna de repouso e recuperação enquanto componentes do crescimento econômico e da lucratividade. O tempo para descanso e regeneração dos seres humanos é simplesmente caro demais para ser estruturalmente possível no capitalismo contemporâneo.

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A desvalorização em longo prazo do trabalho vivo não faz do repouso ou da saúde prioridades econômicas. Hoje são pouquíssimos os momentos significativos na existência humana (com a exceção colossal do sono) que não tenham sido permeados ou apropriados pelo tempo de trabalho, pelo consumo ou pelo marketing. Em sua análise do capitalismo contemporâneo, Luc Boltanski e Ève Chiapello salientaram o leque de forças que valorizam o sujeito constantemente envolvido, operando, interagindo, comunicando, reagindo ou processando em algum meio telemático. Em regiões afluentes do planeta, dizem os autores, isso ocorreu em meio à dissolução de quase todas as fronteiras entre tempo privado e profissional, entre trabalho e consumo. Nesse paradigma de permanente conexão, o maior prêmio é conferido à atividade em si mesma, “estar sempre fazendo algo, movimentar, mudar – é o que confere prestígio, em oposição à estabilidade, muitas vezes sinônimo de inação”. Tal modelo de atividade não é uma transformação do paradigma anterior da ética do trabalho, mas um modelo de normatividade completamente novo, que demanda temporalidades 24/7 para sua realização.

Voltemos brevemente ao projeto dos satélites. Colocar na órbita terrestre enormes refletores de luz solar que eliminariam a escuridão da noite é meio ridículo, parece um projeto de tecnologia tosca, mecânica, saído dos livros de Júlio Verne ou da ficção científica do começo do século XX. Na verdade, as primeiras tentativas de lançamento fracassaram – em uma ocasião, os refletores não abriram corretamente, e em outra a presença de densas nuvens sobre a cidade escolhida para o teste impediu uma demonstração convincente de seu potencial. As pretensões de um tal programa nos trazem à mente um amplo conjunto de práticas pan-ópticas desenvolvidas nos últimos 200 anos. Isto é, remetem à importância da iluminação no modelo original do Panóptico de Jeremy Bentham, que propunha inundar de luzes os espaços a fim de suprimir as sombras e criar condições de controle graças à visibilidade completa. Mas por décadas outros tipos de satélites realizaram, de maneiras muito mais sofisticadas, essas operações de vigilância e coleta de informação. Um panoptismo modernizado se expandiu muito além das ondas visíveis de luz, em direção a outras regiões do espectro, para não mencionar os diversos tipos de escâneres não ópticos e sensores térmicos e biológicos.
Talvez o projeto do satélite deva ser compreendido como a perpetuação de práticas mais claramente utilitárias que tiveram início no século XIX. Em sua história da tecnologia de iluminação, Wolfgang Schivelbusch mostra como o desenvolvimento da iluminação pública por volta da década de 1880 atingiu dois objetivos inter-relacionados: reduziu antigas ansiedades a respeito dos perigos associados à escuridão noturna e expandiu a duração e, portanto, a lucratividade de muitas atividades econômicas. A iluminação noturna constituiu uma demonstração simbólica do que os defensores do capitalismo prometeram ao longo de todo o século XIX: seria a dupla garantia de segurança e ampliação das possibilidades de enriquecer, melhorando para todos, supostamente, o tecido da existência social. Nesse sentido, o triunfo de um mundo 24/7 é uma realização daquele projeto anterior, mas com benefícios e prosperidade que se acumulam sobretudo em favor de uma poderosa elite global.
O 24/7 mina paulatinamente as distinções entre dia e noite, entre claro e escuro, entre ação e repouso. É uma zona de insensibilidade, de amnésia, de tudo que impede a possibilidade de experiência. Parafraseando Maurice Blanchot, é tanto o próprio desastre quanto a consequência do desastre, caracterizado pelo céu vazio, no qual não se vê nenhuma estrela ou sinal, em que qualquer referência se perde e nenhuma orientação é possível. Mais concretamente, é como um estado de emergência, quando um conjunto de refletores é repentinamente aceso no meio da noite, aparentemente como resposta a circunstâncias extremas, mas que continuam acesos, transformados em condição permanente. O planeta é repensado como um local de trabalho ininterrupto ou um shopping center de escolhas, tarefas, seleções e digressões infinitas, aberto o tempo todo. A insônia é o estado no qual produção, consumo e descarte ocorrem sem pausa, apressando a exaustão da vida e o esgotamento dos recursos.

Último obstáculo – na verdade, a última das “barreiras naturais”, para usar a expressão de Marx – à completa realização do capitalismo 24/7, o sono não pode ser eliminado. Mas pode ser arruinado e despojado, e existem métodos e motivações para destruí-lo. Odano ao sono é inseparável do atual desmantelamento da proteção social em outras esferas. Assim como o acesso universal à água potável tem sido exterminado pela poluição e privatização no mundo todo, somadas à valorização comercial da água engarrafada, não é difícil vislumbrar, em relação ao sono, um semelhante processo de produção de escassez. Os abusos que ele sofre criam as condições de insônia nas quais o sono deve ser comprado – mesmo que paguemos por um estado quimicamente modificado que é apenas uma aproximação do sono real.
As estatísticas sobre o aumento do uso de soníferos mostram que, em 2010, compostos como Ambien (zolpiden) ou Lunesta (eszopiclone) foram receitados para cerca de 50 milhões de norte-americanos, e muitos outros milhões compraram outros tipos de produtos que induzem ao sono. Mas seria equivocado imaginar uma melhora nas condições atuais que permitiria às pessoas dormir profundamente e acordar refeitas. A essa altura, mesmo um mundo organizado de maneira menos opressiva dificilmente eliminaria a insônia.
O filósofo Emmanuel Lévinas é um dos muitos pensadores que tentaram compreender os sentidos da insônia no contexto da história recente. A insônia, afirma, é uma forma de imaginar a extrema dificuldade da responsabilidade individual diante das catástrofes de nosso tempo. Parte do mundo modernizado no qual vivemos é composta da visibilidade ubíqua da violência inútil e do sofrimento humano que ela causa. Essa visibilidade, em todas as suas formas híbridas, é um clarão que desestabiliza toda condescendência e impede a desatenção regeneradora do sono. A insônia corresponde à necessidade de vigilância, à recusa de ignorar o horror e a injustiça que assolam o mundo. É a inquietação do esforço de evitar ignorar o sofrimento alheio. Mas essa inquietação é também a ineficácia frustrante de uma ética da vigilância; o ato de testemunhar e sua monotonia podem se tornar mera resignação diante da noite, diante do desastre. Não é nem público nem completamente privado. Para Lévinas, a insônia sempre paira entre a introspecção e a despersonalização radical; não exclui o interesse pelo outro, mas tampouco oferece uma noção clara de um espaço para sua presença. É onde enfrentamos a quase impossibilidade de viver humanamente. A insônia deve ser distinguida do fardo da vigília, com sua atenção quase insuportável ao sofrimento e à enorme responsabilidade que ele impõe.

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Existem muitas afirmações de como a vida pública e a esfera de trabalho eram alienantes para a maioria das pessoas, como “Deus nos proteja da visão única e do sono de Newton”, de William Blake; “Sobre as nossas mais nobres faculdades se espalha um sonho repleto de pesadelos”, de Carlyle; e “O sono arrasta toda a nossa vida diante de nossos olhos”, de Emerson, até “O espetáculo expressa nada mais do que o desejo de sono da sociedade”, de Guy Debord. Seria fácil reunir centenas de outros exemplos dessa caracterização às avessas da parte desperta da experiência social moderna. Imagens de uma sociedade de adormecidos vêm da esquerda e da direita, da alta e da baixa cultura, e têm sido um elemento constante no cinema, de O Gabinete do Dr. Caligari aMatrix. Essas evocações do sonambulismo em massa têm em comum a associação de comportamentos rotineiros, habituais ou de quase transe, à debilitação ou redução das capacidades perceptivas. As teorias sociológicas dominantes, em sua maioria, sugerem que os indivíduos hoje vivem e agem, ainda que de modo intermitente, em estados que são enfaticamente distintos do sono – estados de autoconsciência nos quais o sujeito pode avaliar eventos e informações, na condição de partícipe racional e objetivo da vida pública ou cívica. Quaisquer posições que caracterizem as pessoas como desprovidas de iniciativa, autômatos passivos à mercê da manipulação ou do controle de seu comportamento, são em geral consideradas redutoras ou irresponsáveis.
Ao mesmo tempo, quase todas as noções de despertar político são consideradas igualmente perturbadoras, por sugerir um processo de conversão repentino e irracional. Basta lembrar o principal slogan eleitoral do partido nazista no começo da década de 30: Deutschland erwache! – Despertai, Alemanha! Mais remota historicamente é a Epístola de São Paulo aos Romanos: “Tanto mais que sabeis em que tempo estamos vivendo: já chegou a hora de acordar [...] deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz!” Ou, mais recente e enfadonho, o chamado das forças anti-Ceausescu em 1989: “Despertai, romenos, do sono profundo em que fostes colocados pelas mãos de um tirano.” Despertares políticos e religiosos são tratados em termos perceptivos, como uma habilidade recém-adquirida de vislumbrar, através de um véu, um estado verdadeiro das coisas, de discriminar um mundo invertido de outro que está na ordem correta, ou de recuperar uma verdade perdida que se torna a negação daquela da qual despertamos.

Odespertar – perturbação epifânica da insipidez entorpecida da existência rotineira – recupera a autenticidade em oposição ao ócio entorpecido do sono. Nesse sentido, ele é uma forma de decisionismo: a experiência de um momento redentor que parece interromper o tempo histórico, no qual um indivíduo se submete a um encontro transformador com um futuro até então desconhecido. Mas toda essa categoria de imagens e metáforas não condiz mais com um sistema global que nunca dorme, garantia de que nenhum despertar potencialmente perturbador seja necessário ou relevante. Se algo sobrevive da iconografia do pôr e do nascer do sol, é em torno daquilo que Nietzsche identificou como a demanda, formulada por Sócrates, por “uma permanente luz diurna da razão”.Mas desde os tempos de Nietzsche tem havido uma transferência enorme e irreversível da “razão” humana às operações 24/7 de redes de processamento de informação e à incessante transmissão de luz por circuitos de fibra óptica.
Paradoxalmente, para a subjetividade o sono é uma imagem sobre a qual o poder opera com a menor resistência política possível e uma condição que não é passível de ser instrumentalizada ou externamente controlada – que evade ou frustra as demandas da sociedade de consumo global. Assim, não é preciso lembrar que os muitos clichês do discurso social e cultural dependem de um sentimento monolítico ou vazio do sono. Blanchot, Merleau-Ponty e Walter Benjamin são apenas alguns dos pensadores do século XX que refletiram sobre a profunda ambiguidade do sono e sobre a impossibilidade de encaixá-lo em qualquer esquema binário. O sono deve ser entendido em relação às distinções entre público e privado, entre o individual e o coletivo, mas sempre levando em consideração sua permeabilidade e proximidade. Penso sobretudo que, no contexto de nosso próprio presente, o sono pode representar a durabilidade do social, e pode ser análogo a outros pilares nos quais a sociedade poderia se escorar ou proteger-se a si mesma. O sono – estado mais privado e vulnerável de todos – depende crucialmente da sociedade para se sustentar.
Um dos exemplos vívidos da insegurança do estado de natureza no Leviatã de Thomas Hobbes é a vulnerabilidade de um indivíduo adormecido diante dos inúmeros perigos e predadores que se deve temer a cada noite. Assim, uma obrigação rudimentar da comunidade é oferecer segurança para aquele que dorme, não apenas contra perigos reais, mas – igualmente importante – contra a ansiedade que geram. A proteção daquele que dorme, por parte da comunidade, ocorre no interior de uma reconfiguração maior da relação social entre segurança e sono. No início do século XVII, ainda se podem encontrar resquícios de uma hierarquia imaginada que distinguia as capacidades sobre-humanas do senhor ou do soberano – cujos poderes oniscientes, ao menos simbolicamente, não sucumbiam às condições desabilitadoras do sono – dos instintos somáticos de homens e mulheres trabalhadores.
No entanto, em Henrique V, de Shakespeare, e Dom Quixote, nos deparamos tanto com a formulação quanto com o esvaziamento desse modelo hierárquico. Para o rei Henrique, a distinção relevante não é apenas entre sono e vigília, mas entre uma vigilância perceptiva mantida ao longo da “noite totalmente vigiada” e a sonolência profunda, bem como a “mente vazia”, do pequeno proprietário ou do camponês. Sancho Pança, de outro ponto de vista, divide o mundo entre aqueles que, como ele próprio, nasceram para dormir e aqueles que, como seu senhor, nasceram para vigiar. Em ambos os textos, ainda que subsistam as obrigações associadas à posição na hierarquia, existe uma consciência paralela da obsolescência e da persistência meramente formal desse modelo paternalista de vigilância.
A obra de Hobbes é um importante indício de uma transformação da garantia de segurança e das necessidades daqueles que dormem. Novos tipos de perigo substituíram aqueles que preocupavam Henrique e o senhor de Sancho Pança, e esses perigos são tratados em um acordo contratual não mais fundado em uma ordem natural de posições terrenas e celestes. As primeiras grandes repúblicas burguesas, assim como a comunidade imaginada por Hobbes, eram exclusivistas, pois existiam para servir às necessidades das classes proprietárias. Assim, a segurança oferecida àquele que dorme diz respeito não apenas à segurança física ou corporal, mas à proteção de sua propriedade e de seus bens enquanto está dormindo. Ainda, a ameaça potencial ao sono pacífico da classe proprietária viria dos pobres e dos indigentes, enquanto entre aqueles cujo sono cabia ao rei Henrique zelar estavam incluídos os inferiores, até mesmo o “escravo infeliz”. A relação entre propriedade e o direito ou privilégio de um sono tranquilo tem suas origens no século XVII e permanece em vigor nas cidades do século XXI. Os espaços públicos são agora totalmente planejados com a finalidade de impedir o sono, muitas vezes incluindo – com uma crueldade particular – o formato serrilhado de bancos e outras superfícies acima do chão que impedem que um corpo humano se deite sobre eles. O fenômeno disseminado, mas socialmente ignorado, dos sem-teto urbanos é sinal de inúmeras privações, mas poucas são mais agudas do que os riscos e inseguranças do sono desabrigado.
Em um sentido mais amplo, no entanto, o contrato que pretendia oferecer proteção a qualquer pessoa, proprietária ou não, foi quebrado há muito tempo. Na obra de Kafka encontramos a ubiquidade das condições que Hannah Arendt identificou como a ausência de espaços ou tempos nos quais pode haver repouso e regeneração. O romance O Castelo, a novela A Construção e outros textos trazem à tona a insônia e a vigilância obrigatória que acompanham as formas modernas de isolamento e alienação. Em O Castelo há uma inversão do antigo modelo de proteção soberana: aqui, a vigilância inútil e a vigília aflitiva do agrimensor marcam sua inferioridade e irrelevância para os funcionários sonolentos da burocracia do castelo. A Construção, uma história da redução da existência humana à busca obsessiva e ansiosa de autopreservação, é um dos retratos mais lúgubres, em toda a literatura, da vida como solidão, da qual se extirpou qualquer reciprocidade. É uma visão sombria da vida humana na ausência de comunidade ou sociedade civil, infinitamente distante das formas coletivas de vida dos recém-criados kibutzim pelos quais Kafka se sentia tão atraído.

Odesastre na fábrica de produtos químicos em Bhopal, na Índia, em 1984, expôs de forma terrível a absoluta falta de proteção ou segurança para os mais carentes. Pouco depois da meia-noite de 2 de dezembro, um vazamento de gases altamente tóxicos de um tanque de armazenamento precariamente mantido matou milhares de moradores da região – a maior parte deles dormia no momento do acidente. Outros milhares de pessoas morreram nas semanas e meses seguintes, e houve um número ainda maior de feridos ou inválidos para toda a vida. O desastre de Bhopal é até hoje a revelação definitiva do desacordo entre a globalização corporativa e a possibilidade
de segurança e sustentabilidade para as comunidades humanas. Nas décadas seguintes, a insistente negação de responsabilidade ou de justiça em relação às vítimas pela empresa Union Carbide confirma que o próprio desastre não pode ser tratado como um acidente e que, no contexto das operações corporativas, as vítimas eram inerentemente supérfluas.
Decerto as consequências teriam sido igualmente horríveis se o acidente tivesse ocorrido durante o dia, mas o fato de ter acontecido à noite ressalta a vulnerabilidade sem par da pessoa adormecida em um mundo do qual desapareceram ou foram enfraquecidas antigas garantias sociais. Diversos pressupostos fundamentais a respeito da coesão das relações sociais se aglutinam em torno da questão do sono – na reciprocidade entre vulnerabilidade e confiança, entre exposição e proteção. É crucial a dependência da guarda de outros para a despreocupação revigorante do sono, para um intervalo periódico no qual se está livre de temores, e para um esquecimento temporário “do mal”. À medida que se intensifica a corrosão do sono, pode-se compreender melhor como a solicitude essencial em relação àquele que dorme não difere qualitativamente da proteção exigida por formas mais imediatamente óbvias e agudas de sofrimento social. 

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-96/tribuna-livre-da-luta-de-classes/o-sono-acabou

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A exceção latino-americana


A exceção latino-americana

Fonte: Blog Aldeia Gaulesa - Erick da Silva


Unica área do planeta onde os gulags de tortura da CIA não se implantaram


Por Greg Grandin


O mapa diz tudo. Como ilustração para um terrível novo relatório, “Globalizing Torture: CIA Secret Detentions and Extraordinary Rendition” [Globalizar a Tortura: Prisões secretas da CIA e as “entregas extraordinárias” (de prisioneiros políticos a outros países para serem torturados fora do território norte-americano veja mais aqui)] recentemente publicado pelo Open Society Institute, o Washington Post construiu um infográfico igualmente terrível: todo pintado de vermelho, como encharcado em sangue; mostra que nos anos depois do 11/9 a CIA transformou quase todo o planeta em um gigantesco arquipélago gulag.


No início do século 20, mapa também quase todo pintado em vermelho era usado para mostrar o alcance global do Império Britânico, onde, se dizia, o sol nunca se punha. Tudo sugere que, entre o 11/9 e o dia em que George W. Bush deixou a Casa Branca, o sol tampouco se punha no império de tortura que a CIA construiu.

No total, dos cerca de 190 países que há no planeta, 54 participaram de diferentes modos do sistemaglobal de tortura construído pelos EUA, acolhendo as prisões da CIA nos “pontos negros” [orig. black site], permitindo que seu espaço aéreo e aeroportos fossem usados para voos clandestinos, oferecendo inteligência, sequestrando estrangeiros ou nacionais do próprio país e repassando-os a agentes norte-americanos para que fossem “entregues” a terceiros países como o Egito ou a Síria. Marca registrada dessa rede, escreveOpen Society, foi sempre a tortura. O relatório documenta os nomes de 136 indivíduos desaparecidos no que o relatório apresenta como operação ainda em andamento, embora os autores deixem bem claro que o número total, implicitamente muito superior, “permanecerá para sempre oculto”, dado o “excepcional nível de sigilo oficial, associado às prisões secretas e à rede das ‘entregas extraordinárias’ de prisioneiros a vários países”.

Nenhuma região do mundo escapa à imensa mancha de sangue. Nem a América do Norte, lar do comando central do gulag global. Nem a Europa, o Oriente Médio, a África, a Ásia. Nem a tão social-democrata Escandinávia. A Suécia entregou pelo menos dois prisioneiros à CIA, em seguida repassados (“entrega extraordinária”) ao Egito, onde foram torturados com choques elétricos e sofreram outras violências. Nenhuma região escapa... exceto a América Latina.


O que mais chama a atenção no mapa publicado pelo Post é que, na América Latina, não se vê nenhuma marca vermelha-cor-de-sangue, horrenda marca de postos de tortura distribuídos pelo planeta pela CIA. De fato, nenhum dos países do que um dia se chamou “o quintal de Washington” participou do programa de entrega de prisioneiros, por agentes norte-americanos, para serem torturados fora do território dos EUA; nenhum apoiou o programa dirigido por Washington; nenhum recebeu, para serem torturados, quaisquer “suspeitos de terrorismo”. Nem a Colômbia, país que, nos últimos 20 anos, foi o estado-cliente mais próximo dos EUA na região. É verdade que deveria aparecer uma marca de sangue sobre a ilha de Cuba, mas só faria confirmar o que já se viu. Ali não é território latino-americano desde que Teddy Roosevelt tomou para os EUA a Base Naval de Guantánamo, em 1903, como “propriedade perpétua”.

Duas, três, muitas CIAs

Como a América Latina conseguiu tornar-se territorio libre nesse novo mundo distópico de prisões “pontos negros” e voos na calada da noite, o Sion dessamatrix (como diriam os fãs dos filmes de Wachowskis) militarista? Afinal de contas, foi na América Latina que uma primeira geração de especialistas em contraguerrilha norte-americanos ou financiados pelos EUA criaram um protótipo do que seria a Guerra Global ao Terror, de Washington, no século 21.
Já antes da Revolução Cubana de 1959, antes de Che Guevara convocar os revolucionários a criarem “dois, três, muitos Vietnãs”, Washington já tratava de instalar duas, três, muitas agências centralizadas de inteligência na América Latina. Como Michael McClintock mostra em seu indispensável Instruments of Statecraft, no final de 1954, poucos meses depois do infame golpe que a CIA promoveu na Guatemala e que derrubou governo democraticamente eleito, o Conselho Nacional de Segurança dos EUA recomendava “fortalecer as forças internas de segurança nas nações estrangeiras amigas”. Na Região, significa três coisas.

Primeiro, os agentes da CIA e outros funcionários dos EUA puseram-se a trabalhar “profissionalizando” as forças de segurança de vários países (Guatemala, Colômbia e Uruguai) – quer dizer: convertendo os aparelhos locais de inteligência, quase sempre brutais, mas pouco eficazes, em agências sempre brutais, mas “centralizadas” e eficientes, capazes de reunir informações, analisá-las e armazená-las. Mais importante, cuidaram de coordenar os vários braços das forças de segurança de cada país – a polícia, os militares e os esquadrões paramilitares – para agirem a partir da informação obtida, ação quase sempre letal e sempre brutal.

Segundo, os EUA expandiram enormemente o alcance dessas novas agências muito mais eficazes e eficientes, deixando bem claro que trabalhavam não só na defesa nacional, mas também na agressão contra estrangeiros. Estavam sendo construídas para serem a vanguarda de uma guerra global pela “liberdade” e de um império anticomunista de terror em todo o hemisfério.

Terceiro, os agentes norte-americanos em Montevidéu, Santiago, Buenos Aires, Assunção, La Paz, Lima, Quito, San Salvador, Cidade da Guatemala e Manágua trabalhariam para sincronizar a operação de todas as diferentes forças nacionais de segurança.


O resultado foi estado de terror em escala praticamente continental. Nos anos 1970s e 1980s, a “Operação Condor” [1] do ditador chileno Augusto Pinochet, na qual operaram juntos serviços de inteligência de Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Chile, foi o mais infame consórcio transnacional de terror, com ações criminosas em Washington (assassinato de Orlando Letelier), em Paris e em Roma. Os EUA, desde antes, já trabalhavam para construir  operações desse tipo no hemisfério sul, principalmente na América Central, nos anos 1960s.

Quando a União Soviética entrou em colapso em 1991, centenas de milhares de latino-americanos haviam sido torturados, assassinados, sequestrados e desaparecidos, ou presos sem julgamento, por resultado, em grande parte, das habilidades organizacionais e do apoio de agentes terroristas norte-americanos. A América Latina era, então, o gulag de fundo de quintal de Washington. Os atuais presidentes de três países da região – José Mujica, do Uruguai; Dilma Rousseff, do Brasil; e Daniel Ortega da Nicarágua – foram vítimas desse reino de terror.

Quando terminou a Guerra Fria, grupos de direitos humanos começaram a tarefa hercúleo de desmantelar a rede amplíssima, muito profundamente enraizada, de dimensões continentais, de agentes de inteligência, espiões, prisões clandestinas e técnicas de tortura – e de expulsar do governos da região os militares, enviando-os de volta à caserna. Nos anos 1990s, Washington não só não se opôs a esse processo como, de fato, até deu uma ajuda na despolitização das Forças Armadas na América Latina. Muitos acreditaram que, com a União Soviética fora do páreo, Washington poderia projetar o próprio poder no próprio quintal mediante meios mais ‘suaves’ como acordos internacionais de comércio e outras modalidades de alavancagem econômica., Aconteceu, então, o 11/9.

“Oh My Goodness”

Rumsfeld
No final de novembro de 2002, exatamente quando os traços básicos dos programas de prisões secretas e de“entregas extraordinárias” [de prisioneiros, para serem torturados] da CIA estavam sendo delineados noutra parte do mundo, o Secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld viajou quase 10 mil quilômetros até Santiago, Chile, para participar de uma reunião de Ministros de Defesa do hemisfério. “Desnecessário dizer”, disse Rumsfeld, retórico,“que eu não viajaria toda essa distância se não achasse que é evento extremamente importante”. E era.

Foi depois da invasão do Afeganistão, mas antes da invasão do Iraque, e Rumsfeld surfava altas ondas, além de repetir “11 de setembro” praticamente de segundo em segundo. Talvez não conhecesse o especial significado da data em toda a América Latina, mas 29 anos antes, no primeiro 11/9, um golpe apoiado pelo general Pinochet e seus militares, com apoio da CIA, levara à morte o presidente Salvador Allende, democraticamente eleito para governar o Chile. Ou talvez soubesse e aí estivesse, exatamente, o que mais o interessava? De fato, estava em preparação uma nova guerra global de defesa da liberdade, chamada dessa vez Guerra Global ao Terror. Rumsfeld chegava para arregimentar recrutas.

Lá, em Santiago, na cidade da qual Pinochet comandara a Operação Condor, Rumsfeld e outros funcionários do Pentágono tentaram vender o que chamavam então de “integração” de “várias capacidades integradas em maiores capacidades regionais” – fórmula insípida de descrever sequestro, tortura e outros meios mortais que já estavam em andamento em outros pontos. “Eventos em todo o mundo antes e depois de 11 de setembro sugerem as vantagens” – disse  Rumsfeld, de as nações trabalharem em conjunto para enfrentar a ameaça terrorista.

Pinochet
“Oh my goodness [Santo Deus!]” – disse Rumsfeld a um repórter chileno – “os tipos de ameaças que enfrentamos são globais”. A América Latina estava em paz, admitiu, mas tinha um aviso para os líderes latino-americanos: não cometessem a tolice de convencer-se de que o continente estaria a salvo de nuvens que engrossavam em outros pontos. Os perigos existem,“antigas ameaças, como drogas, crime organizado, tráfico de armas, sequestros, captura de reféns, pirataria e lavagem de dinheiro; e novas ameaças, como cibercrimes; e ameaças desconhecidas, que podem surgir sem aviso”.

“Novas ameaças”, acrescentou, “têm de ser enfrentadas com novas capacidades”. Graças ao relatório agora publicado pela Open Society, vê-se hoje exatamente de que “novas capacidades” Rumsfeld falava.

Poucas semanas antes de Rumsfeld chegar a Santiago, por exemplo, os EUA, agindo baseados em informação falsa fornecida pela Real Polícia Montada do Canadá, haviam prendido Maher Arar, homem de duas nacionalidades, sírio e canadense, no aeroporto John F. Kennedy de New York; em seguida o entregaram a uma “Unidade Especial de Remoção” [orig. Special Removal Unit]. Foi levado primeiro à Jordânia, onde foi espancado; depois, foi levado à Síria, país que vive em fuso horário cinco horas adiante em relação ao Chile, onde foi entregue a torturadores locais. Dia 18 de novembro, quando Rumsfeld fazia sua palestra em Santiago ao meio dia, já eram cinco da tarde na “cela-túmulo” de Arar numa prisão da Síria. Ali Arar passaria, sob tortura, todo o ano seguinte.

Ghairat Baheer
Ghairat Baheer foi capturado no Paquistão cerca de três semanas antes da viagem de Rumsfeld ao Chile, e jogado numa prisão controlada pela CIA no Afeganistão, chamada Salt Pit. Enquanto o Secretário de Defesa elogiava o retorno da América Latina ao Estado de Direito, depois dos negros dias da Guerra Fria, é provável que Baheer estivesse no meio de uma sessão de tortura “pendurado nu, durantes horas”.

Capturado um mês antes da visita de Rumsfeld a Santiago, o cidadão saudita Abd al Rahim al Nashiri foi transportado para Salt Pit; depois foi transferido “para outro ponto negro em Bangkok, Tailândia, onde sofreu simulação de afogamento”. Depois, passou pela Polônia, Marrocos, Guantánamo, Romênia, e voltou a Guantánamo, onde permanece. Nesse período, foi submetido a “simulação de execução com pólvora seca, com ele em pé e amarrado”; e um interrogador norte-americano encostou uma arma semiautomática na cabeça dele, com ele sentado à sua frente”. Os interrogadores também “o ameaçaram de trazer sua mãe, para ser estuprada à frente do filho”.

Cerca de um mês antes da reunião em Santiago, o iemenita Bashi Nasir Ali Al Marwalah foi levado de avião para Camp X-Ray, na ilha de Cuba, onde permanece até hoje.

Menos de duas semanas depois que Rumsfeld jurou que os EUA e a América Latina partilhariam “valores comuns”, Mullah Habibullah, cidadão afegão, morreu “depois de sofrer graves maus tratos” quando estava sob custódia da CIA num local chamado “Bagram Collection Point”. Investigação militar nos EUA “concluiu que o uso de posições de estresse e privação de sono, combinado a outros tipos de agressões (...) causaram ou foram fatores que contribuíram diretamente para sua morte”.

Dois dias depois do discurso do secretário em Santiago, um agente da CIA que trabalhava em Salt Pit, acorrentara Gul Rahma nu, num bloco de concreto, ao ar livre. Rahma morreu de frio.

E o relatório da Open Society prossegue assim, com muitos e muitos e muitos outros casos.

Territorio Libre

Rumsfeld deixou Santiago sem obter compromissos firmes. Alguns dos militares da região sentiram-se tentados pelas supostas oportunidades que parecia haver na visão do secretário, de fundir luta contra crimes comuns e uma campanha ideológica contra o Islã radical, uma guerra unificada na qual tudo ficava subordinado ao comando dos EUA. Como observou o cientista político Brian Loveman, à época da visita de Rumsfeld a Santiago, o comandante do Exército Argentino abraçara o mais recente conjunto de temas de Washington; e insistia em que “defesa é questão a ser tratada de modo integrado, sem falsas divisões a separarem segurança interna e externa”.

Mas a história não andava a favor dos planos de Rumsfeld. Sua viagem a Santiago coincidiu com a crise de proporções épicas que se abateu sobre as finanças argentinas, das piores da história. A crise marcou colapso muito profundo e amplo do modelo econômico – algo como um “reganismo super carregado de esteróides” – que Washington muito fizera para promover na América Latina, desde o final da Guerra Fria. Em pouco tempo, uma nova geração de políticos de esquerda começaria a chegar ao poder em grande parte do continente, e comprometidos com a noção de soberania nacional, o que implicava limitar a influência de Washington na região, mais do que qualquer de seus predecessores.

Luiz Ignácio Lula da Silva (E), Hugo Chávez Frías(C), Néstor Kirchner(D)
Hugo Chávez já era presidente da Venezuela. Apenas um mês antes da viagem de Rumsfeld a Santiago, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente do Brasil pela primeira vez. Poucos meses depois, no início de 2003, os argentinos elegeram Néstor Kirchner, que pouco depois de empossado pôs fim às manobras militares conjuntas com os EUA. Nos anos seguintes, os EUA sofreram baque após baque. Em 2008, por exemplo, o Equador expulsou os norte-americanos da Base Aérea Manta, que os EUA mantinham no país.  [2] 

Naquele mesmo período, o frenesi de que foi tomado o governo Bush para invadir o Iraque, ato ao qual se opuseram a maioria dos países latino-americanos, também contribuiu para minar o que ainda restasse da boa vontade pró-EUA que o 11/9 produzira na região. O Iraque parecia confirmar as mais sinistras previsões dos novos presidentes latino-americanos: que a tal “força para manutenção da paz”, de cuja relevância Rumsfeld tanto queria convencê-los, não passava de isca, com a qual esperava arregimentar soldados latino-americanos como Gurkhas, para uma guerra imperial unilateral a ser ressuscitada.

No Brasil, a “cortina de fumaça”

Telegramas diplomáticos dos EUA divulgados por WikiLeaks mostram o quão firmemente o Brasil rejeitou os esforços de Washington para pintar o país de vermelho-sangue, no novo mapa do gulag global.

Telegrama do Departamento de Estado, de maio de 2005, por exemplo, revela que o governo do presidente Lula recusou “múltiplas solicitações” feitas por Washington para que o país acolhesse prisioneiros libertados da prisão de Guantánamo, particularmente um grupo de cerca de 15 uigures que os EUA mantinham presos desde 2002 e não podiam ser mandados de volta para a China.

“A posição [do Brasil] quanto a essa questão não mudou desde 2003 e não há sinais de que venha a mudar em futuro próximo” – diz o telegrama. Na sequência, relatava que o governo Lula dera a entender que considerava todo o sistema montado em Guantánamo (e por todo o planeta) como afronta à lei internacional. “Todas as tentativas de discutir essa questão com funcionários do governo do presidente Lula” concluía o telegrama, “foram rapidamente rejeitadas, ou aceitas sem entusiasmo e não prosperaram”.

Além disso, o Brasil também não aceitou qualquer cooperação com o governo Bush para criar o que seria uma versão, para todo o Hemisfério Ocidental da lei conhecida como Patriot Act. O plano implicava, e foi rejeitado por isso, revisar a legislação local de modo a rebaixar as exigências para comprovar prática de crime de conspiração, ao mesmo tempo em que se ampliaria a definição do crime de conspiração.

Lula congelou a iniciativa e manteve-a congelada por vários anos, mas parece que o Departamento de Estado não percebeu o movimento, ou não o compreendeu corretamente. Até que, em abril de 2008, afinal, um diplomata dos EUA escreveu que o suposto interesse do Brasil em reformar seu código de leis, acolhendo o pedido de Washington, não passava, mesmo, de “cortina de fumaça”. O governo brasileiro, conjecturava o diplomata, temia que expandir a definição de terrorismo visasse a permitir ataques contra “membros de movimentos que [o governo Lula] considera legítimos movimentos sociais que lutam por sociedade mais justa”. E não seria possível “redigir leis anti-terrorismo que excluíssem as práticas corriqueiras” da base social de esquerda que apoiava o governo Lula.

Um diplomata norte-americano reclamou que esse “modo de pensar” – quer dizer, um modo de pensar de quem realmente valoriza as liberdades civis – “implica graves desafios aos nossos esforços para promover a cooperação contra o terrorismo ou promover a aprovação de leis antiterrorismo”. Além disso, o governo do Brasil preocupava-se com a possibilidade de a mesma legislação vir a ser usada para perseguir árabe-brasileiros, que são muitíssimos, no Brasil.

Pode-se concluir que, se o Brasil e os demais países latino-americanos tivessem concordado com integrar-se ao programa de “entregas especiais” de prisioneiros para serem torturados também na América Latina, a Open Society teria lista muito maior de torturados a publicar em seus relatórios.

Para finalizar, telegrama também distribuído por WikiLeaks revelou que o Brasil rejeitou várias vezes os esforços dos EUA para isolar Hugo Chávez, presidente da Venezuela, providência absolutamente indispensável para que os EUA conseguissem comandar toda a operação de antiterrorismo em que planejavam envolver o continente.

Nelson Jobim
Em fevereiro de 2008, por exemplo, o embaixador dos EUA no Brasil reuniu-se com o ministro da Defesa de Lula, Nelson Jobim, para queixar-se de Chávez. Jobim disse a Sobell que o Brasil partilhava a “sua preocupação sobre a possibilidade de a Venezuela exportar instabilidade”. Mas, em vez de “isolar a Venezuela”, o que poderia levar apenas a maior polarização, Jobim “sugeriu que seu governo apoiaria a criação de um Conselho Sul Americano de Defesa, para controlar Chávez e impedi-lo de gerar turbulências”.

Só havia um problema: o Conselho Sul Americano de Defesa já era, então, ideia de Chávez! Foi parte de seu esforço, em parceria com Lula do Brasil, para criar instituições independentes, paralelas às instituições controladas por Washington. Na conclusão do telegrama, o embaixador dos EUA estranha a ideia de que o Brasil cogitasse de usar a ideia de Chavez para “cooperação de Defesa”, como parte de uma “suposta estratégia”... para conter Chávez.

Para engripar a engrejagem da máquina perfeita de guerra perpétua

Incapaz de pôr em operação seus planos de contraterrorismo pós 11/9 em toda a América Latina, o governo Bush re-entrincheirou-se. Passou a tentar construir uma “máquina perfeita de guerra perpétua” num corredor que ia da Colômbia, pela América Central, até o México. O processo militarizar essa região mais delimitada, quase sempre sob o disfarce de que ali haveria “guerras de drogas”, só fez crescer e ampliar-se durante o governo Obama, para dizer o mínimo. A América Central converteu-se, sim, em única área na qual o SOUTHCOM – comando do Pentágono que cobre as Américas Central e do Sul – consegue operar mais ou menos à vontade. Basta considerar este outro mapa,construído por Fellowship of Reconciliation, que mostra a região como uma espécie de longa área de livre movimentação aérea para os drones e para operações norte-americanas de caça a traficantes de drogas.

Washington continua a tentar avançar cada vez mais para o sul, tentando estabelecer-se como corpo militar na região; dessa vez, pôs a coisa em embalagem mais tecnocrática e menos ideológica, mas ainda é aspiração de globalizamento. Os estrategistas militares dos EUA, por exemplo, adorariam contar com uma faixa de ampla movimentação aérea na Guiana Francesa ou na parte do Brasil que avança pelo Atlântico. O Pentágono a usaria como apoio, no projeto de aumentar sua presença já crescente na África – o que permitiria que seu SOUTHCOM passasse a agir em coordenação com o o AFRICOM, o mais novo comando global dos EUA. Mas, pelo menos por hora, a América do Sul está conseguindo engripar e manter engripada a máquina norte-americana de guerra perpétua.

Voltando ao mapa do Washington Post, vale a pena registrar que, pelo menos nessa parte do mundo, pelo menos nesse século 21, o sol ainda não raiou na coreografia da tortura global coreografada pelos EUA.



Notas dos tradutores

[1] A ver, sobre essa Operação Condor, também, o documentário Condor (Brasil, 2007, dir. Roberto Mader), interessantíssimo. 

[2] Sobre o fim da base militar dos EUA no Equador: 22/5/2012, vídeo-entrevista traduzida:  Assange entrevista No. 6 – “Rafael Correa, presidente do Equador”, em que os dois comentam o episódio:


“JULIAN ASSANGE: Seu Governo fechou a base militar dos EUA em Manta. Pode dizer-me por que decidiu fechar aquela base?

RAFAEL CORREA: Ora... Você aceitaria uma base militar estrangeira no seu país? Como eu disse naquela época: se é assunto tão simples, se não há problema algum em os EUA manterem uma base militar no Equador, ok, tudo bem: permitiremos que a base de inteligência permaneça no Equador, se os EUA permitirem que estabeleçamos uma base militar do Equador em Miami. Nessas condições, ok, sem problema. [Assange ouve a tradução e ri]