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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Los tiempos no son en linha

 

Los tiempos no son en linha

Los tiempos son una víbora

Que se enssila

Que les mata

La sencilla

 

Os tempos não correm em linha

encorajam a rinha

entortam a rima

corrompem la ninã

envenenam a vinha

 

O tempo é uma espiral

Que te convida ao dorso

Comprime teus ossos

Aperta teu torso

Te regorgita caroço

 

Geração ponto com

Os tempos fáceis de tua juventude

Te pareciam espinho

Elegeram o mocinho

Agora aguarda, o redemoinho

O cão no meio do caminho

E um banquete fúnebre

                                                  [Manda a empregada passar

o terno de colarinho

 

Porque

Los tiempos no son en linha

Los tiempos son en víbora

 

E se repetem

Como tragédia

Como farsa

Como imaginas que terminaria?

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

#6x1

 

#6x1

 

Vocês

peças meras

não mais

ao sistema

tanto-faz

 

se é operário que move a máquina

ou se é a máquina que move o operário

 

breve

se faz a vida

no breviário

nem sei o mês

perdi o horário

não sou burguês

tampouco sigo o itinerário

 

morte fraca

 

soco em ponta

de faca

soco em ponta

 de faca

soco em ponta

 de faca

 

se alguém causa inda pena

a tua chaga

soco em ponta de faca

 

apedreja

a mão vil que te afaga

soco em ponta de faca

soco em ponta de faca

 

escarra nessa boca

soco em ponta de faca

apedreja essa mão vil que

te afaga

soco em ponta de faca

escarra nessa boca

que te beija

 

a mão que afaga

é a mesma que apedreja

 

sois vós

peça meras

não mais

ao sistema tanto faz

 

se é a faca

escarra

escarra

 

sé é

beija

beija

 

apedreja

 

toma um fósforo!

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Bar-Esquinas

 

I - Bar - Esquinas

 

O Linho treliça urdindo

Sonetos

Derrama poesia

Tece o olhar

 

Destila preguiça tecido

Restos rangidos

Entorna poesia no bar

 

Margens opostas dispostas

Fundindo Promessas

Olvida sentidos no mar

 

O vinho delírio textura

Rasga

Murmura

Sete sentidos no amar

 

Si Bemol sustenido

Sustento

Ternura

O riso e o chorar

 

Cachaça vadia sem graça

Desgraça - desgraça

No seco deserto vem desaguar

 

Traço seco vermelho opaco

O seio no traço

A esquina no troço

O queixo o abraço

O sexo o espasmo

Germinam do Bar

 

Na esquina avenida

Sem nome

E da rua insone

Se reúnem poetas

Cabe sonhar


Mãos à parede

Gestos suspensos

Beijos no espaço

contido - contido

força bruta

testigo

é o bar


II – Bar do Zabót

 Za – bót

Zá – Bôt

Há botes

Há - çoite

Há - BOTS

Con – sorte

Con – sole

Insone

Um rio

Espargindo

Funéreo

Zarpar

 

 

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Nutridos pelo desejo do abismo

Nutridos pelo desejo do abismo
Temos enfileirado tragédias
no existir 

belos, sublimes e malvados
a contradição
em si

Dança comigo?
Esta valsa louca

Se eu tivesse 
poderes diria
revolução!
mas

somos nutridos pelo desejo
do caos
embotado 
pelo delírio

Corre comigo?
até a praia
até a borda
do mar oceano
até o canto das pedras
até a espuma vadia

somos nutridos
pela vaidade
esgarçada pelo colírio
que deita aos olhos
inunda fossas
nasais
e vem colher a lingua
confundir a garganta
deglutir os sentidos

Caminha comigo?
pelos becos da vida
à margem da espécie
nos limites do limbo
nos escombros
do eu

somos nutridos
pelo medo do fim
obliterado
no instante do átomo
luzes brancas azuis

somos nutridos
pela morte consorte
segundos 
m.a.r.c.a.d.o.s
no ponto

e tu operário
sabes assim?

somos nutridos
vário sentido
varíola
amanha de manhã
dentes
ossos
marfim

rima comigo?
maldita canção
bolor e amor
flor e ator
cor
amargor
estupor

somos nutridos
pelo desespero
da saber
e ignorar
o sentido da vida
o sentido do dor

a febre 
o cheiro
do falo
recalcado
porão

freud
marx
calcutá
eisntein
arendt
ana
pedro e 
joao

somos nutridos
por anônimos
idolos deuses
dourados
alados
ou não

olha comigo?
pra dentro
de mim
de ti
de nós três
de nós dois
de nós 
um milhão

somos nutridos
pelo desejo
do abismo














segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Fenêtre

Janela Aberta que se abre 
[E Oblitera 
Desavisada 
Nuvem pássaro 
Vento [átimo
 Alvissaras
 Tangerinas 
Tergiversado 
O tempo tem passado 
Bebé Só não passa a ausência dias possíveis que não foram

 Janela que se abre 
Em cheiro 
Sentidos Verso:
 Diverso imaginei 
 Almas
 decaindo vertiginosa queda abissal
 Há um fosso raro
 – aí habitam nossos corpos - 
Premidos pelo tempo 
Do que o tempo
 não sabe nem alcança
 Com seus 
dedos tépidos

 Apodrecer é um verbo 
fácil 
Eu apodreço 
Tu apodreces 
Podres e quase 
átomos em decomposição efêmera 
Sentaremos à janela 
E nossas almas 
livres da represa
 voarão ligeiras 
juntando-se à cachoeira
 anti-descendente 
 anti-gravidade 
anti-brevidade e 
seremos uma torrente inteira inundando as nuvens de sentido e de beleza 
[como somos belos meu bem
 apesar de tudo] 
inundaremos o céu
 anjos de asas débeis 
demônios de riso fácil 
e seremos nuvem 
quando sobrar espaço?

sábado, 15 de abril de 2023

Escombro

 Escombro parte (...)

Imagens geradas por IA (Dall-e-2)

Perna, dedo, língua, braço

Rima, unha, joelho, ombro

Jeito, olho, lágrima, viço

Carne, sangue, osso, baço

Corro, beijo, nado, enguiço

Poro, couro, pele, aço
 

Por onde migras,

teus dedos táteis

Milímetro pós milímetro és escombro

Deplorando ideias fáceis

A cada esquina sou assombro


Floresço dos esgotos da cidade

Sujeira, poeira, lixo, amor

flor, rancor, isopor, catalisa dor 


carrego o  mundo [sobre os ombros

etré escombro

etré  assombro

Entre as horas cruas

Fragmentar privilégios

Disparar sortilégios


Juste escombre

Sob dias tristes

Irmão da fome

Fantasma dos dias vãos


Escória

Para dias de glória

que não escolhi parir




quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Um peixe

 O peixe está morto

Sobre a água flutua

A água está nua

De vida, de peixe, 

A água está morta!

A tristeza abre a porta

Entra depressa

Não pede licença, ora essa

A tristeza esta viva

A morte senhora

Não conta em segundos

O tempo que tens

Um tempo fecundo

O tempo do mundo

Se mede em sorrisos

E vazios entre os beijos

O morte faz contas

A vida é sentido!

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Please, do not feed the trolls

 Please, do not feed the trolls

Can’t abandoned your goals

Don’t do everthing by own

Build yourself that show

Don’t blame people around

Just put the bagpack n’ LOL

Please, keep your goals

Please, take all the control

Please, do not feed the trolls

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Política para quem precisa

A política

É poeira

se fica à

beira

 

Enaltece-se o mito

debate-se o rito

olvida-se o dito

transcrito

e o que vale

proscrito

 à margem

 

Politica

Politiqueira

 há quem bem queira

 

o não querer é fome 

 

o País insone

a acidez consome

o futuro que espera

disforme

 

Política

Para quem precisa

Política porque

Você precisa

De Política


quinta-feira, 1 de abril de 2021

E daí?

Cinco mil, “e dai”.

É quase nada

Dois mil

Quatro mil

Agora um mesmo dia

 

E DAÍ?

 

Não é comigo

Não é comigo

 

Março Trezentos mil

Quinhentos em abril

A minha vida está por um fio

 

Mas não é comigo

Não chega

no meu umbigo

 

Não escolhi ser você

Tua cor é diferente da minha

Esse partido é diferente do meu

Essas mortes não são problemas teus

 

Março trezentos mil

Seiscentos passam pelo funil?

 

Mas não é comigo

Não é minha irmã

Meu pai minha mãe

Não é meu amigo

 

Bolsonaro

Bolsonaro

Menos Brasil Menos Brasília

A minha vida está por um triz

Quem enterra estes corpos?

Quem olha pelo Pais?

Quem chora por estes mortos

Não foi o que você quis?

 

Um milhão

Uma cifra exata

As pessoas que matas

As contas por data

Valem mais

Menos valem

Que o golpe da faca?

 

Bolsonaro

Bolsonaro

A vida é urgente

Essa dor tão pungente

Não alivia

Não passa

Bolsonaro

Tão caro

Tão raro

Adjetivas no nome

A morte sem face

A dor sem enlace

A luta de classe

O colo que abrace

O mise em place

Quem a vida rechace


Por Jeison G Heiler

domingo, 28 de julho de 2019

Silêncios

levo calados

gesto, pranto
desespero

resignado

fúria, revolta
exaspero

a surda voz
a rouca voz

inaudível

surdo
esquecimento

mas restou você
mas restou você

retrato opaco
traço fraco
sorriso exato
verbo lato

o que restou
de você?







quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Lançamento do Livro de poesias Escombros


Escombros I

Escombros é o que o título supõe: um ajuntamento meio aleatório e desconexo [mas nem tanto] das experiências de que somos feitos. De que sou feito? Esse acúmulo aleatório, escória de dias passados. Em um tempo em que a meritocracia é festejada como arquétipo politico cabe denunciar o óbvio: como dissera um jovem alemão naquele "18 de Brumário de Luis Bonaparte" -  "Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado, a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos". 

Escombros II

Em algum dia dos meus treze ou quatorze anos meu pai me levou consigo para ajudá-lo no oficio de pedreiro. Com dezessete anos um argentino chamado Timóteo bateu palmas em uma tarde de minha casa arrancando-me definitivamente da adolescência. Ali começaria a vida adulta. A primeira profissão registrada em meus documentos. Servente de pedreiro. A primeira missão recebida consistia na inútil tarefa de arrancar quadrados de grama com as unhas e transporta-los para um terreno vizinho ao local que abrigaria a primeira franquia do MCDonalds em Joinville. Nunca frequentei a loja depois de inaugurada. Nunca provei um Mcdiafeliz TM. A experiência de peão de obras, contudo, foi muito boa. A relação de camaradagem entre a peãozada impregnou-me com uma forte esperança a respeito da natureza humana. Então escombros são também, literalmente, as ruínas de uma juventude destroçada, e das marcas que ficaram destes dias. A experiência material indelével de dias ásperos divididos entre andaimes, betoneiras e da vivacidade de honestos companheiros.

Escombros III

Não sou um escritor ou um poeta profissional. Nem tal leitor, portanto. Me alimentei da poesia catada ao largo. Esta disponível à grande massa e nos livros didáticos das bibliotecas publicas escolares. Dos ruínas literários em que emerjo há, entretanto algumas peças marcantes. Alvarez de Azevedo e Augusto dos Anjos talvez tenham sido os primeiros. Gilberto Mendonça Telles veio depois por acaso, catato em um sebo barato. A paixão por Drummond me fez garimpar de maneira contumaz todo o disponível no O Sebo de Joinville e no Sebo de Jaraguá. Depois vieram Leminski, Bukowski. Mais tarde descobri a poesia de Adélia Prado. Até me enveredar por Leprevost e outros tantos marginais. Na literatura li os clássicos, e até hoje trago entre os preferidos Machado de Assis, que está na epígrafe, Guimarães Rosa, Saramago, Cortazar, Kafka e o fabuloso Gabo. Uma das obras mais marcantes, sem dúvida foi J.D, Salinger e seu deslocado Holden Caufield. Nenhum destes, dentre tantos outros, pode passar incólume ao veredicto de culpados por esta peça de escombros literários.



segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Tese de Doutorado defendida em 01/02/2018: O FENÔMENO DA REITERAÇÃO NO FINANCIAMENTO ELEITORAL BRASILEIRO - Perfil de Financiadores e o Impacto no Desempenho eleitoral empresarial

Resumo da Tese:

Adotando a perspectiva dos financiadores empresariais, esta tese trata do tema de financiamento eleitoral inserindo uma nova variável de controle: a reiteração destes financiadores no tempo. O objetivo geral é investigar as motivações dos financiadores adotando como sistemática de controle identificar se as doações eleitorais de empresas apresentam interação entre diferentes eleições. Em outras palavras, se inquere quais os tipos de vínculos que se estabelecem entre financiador, partidos e candidatos e se estes vínculos subsistem entre diferentes ciclos eleitorais.

Basicamente a pesquisa se articulou em torno da seguinte problemática: a) Qual a importância da reiteração no sistema de financiamento eleitoral privado (empresarial) brasileiro? b) Qual a população de financiadores reiterados no universo total de empresas que opta por se engajar financeiramente no processo eleitoral? c)Quais os fatores determinantes para a ocorrência da reiteração ou desistência no financiamento eleitoral? d) A reiteração no financiamento entre diferentes ciclos tem impacto positivo no desempenho eleitoral do financiador? e) Qual o perfil do financiador eleitoral brasileiro? f) Determinados perfis de financiador são mais bem-sucedidos em relação ao resultado eleitoral? As hipóteses da pesquisa se desdobram em dois grupos. i) Hipóteses sobre os fatores que explicam os padrões de reiteração; H1- O desempenho do(s) candidato(s) patrocinado(s) pelo financiador relaciona-se com a manutenção do financiamento eleitoral no ciclo seguinte. Controlando-se outras variáveis como setor econômico e ideologia uma outra hipótese subjacente a este modelo é a de que os valores de financiamento também possam explicar a reiteração ou desistência. Sustentando-se que doações mais expressivas levam a reiteração no financiamento, ao passo que doações menores favoreçam a desistência dado o menor engajamento que representariam. ii)Hipóteses sobre o impacto da reiteração. H2 - Financiadores reiterados acumulam expertise e seus patrocinados possuem maior êxito eleitoral do que novatos em matéria de financiamento eleitoral.  H3: É possível identificar perfis de financiadores vinculados e estratégicos no que diz respeito ao engajamento eleitoral sustentando-se a hipótese de que financiadores de perfis estratégicos teriam melhor desempenho eleitoral em relação a outros perfis. Para atender a este conjunto de objetivos em termos metodológicos o desenho de pesquisa envolveu o desenvolvimento de três distintos modelos de análise de regressão (logística bivariada e linear multivariada)  tomando por base as declarações de gastos dos partidos e candidatos para o TSE nas eleições de 2010 e 2014.  Por esta metodologia o financiamento eleitoral esteve presente em todos os modelos. Como variável explicativa, da reiteração, no primeiro caso, e do resultado eleitoral no segundo e terceiro modelos. Entre os resultados alcançados demonstrou-se como o fenômeno da reiteração é importante para compreensão do sistema de financiamento eleitoral brasileiro como um todo. Identificando-o como um mercado concentrado em poucos e reiterados financiadores atuando de modo articulado entre motivações estratégicas na sua maior parte, mas também, com a presença de financiadores com motivações ideológicas de longo prazo.



Palavras-chave: Financiamento Eleitoral; Eleições; Democracia; Reiteração; Empresariado; Perfil Financiador



Agradeço imensamente a estas pessoinhas: Joice (Vida); meu filho Lenini, Beatriz (Mae), minha filha Marina e Meu Pai Sabiá.


No final aquela confra com os Profes!


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Veja meu bem, essas feridas da vida, Margarida

Fevereiro de 2006. Retorno de uma viagem a Brasília, primeira vez que voara de avião na vida, com uma dor incômoda no pescoço. O desconforto da viagem e uma noite mal dormida me levaram a crer que não era nada sério. A dor persistiu e se agravou. 


Logo não conseguiria mais virar o pescoço, atrapalhando gestos simples da vida como atravessar uma rua. Imaginando se tratar de algum problema menor procurei o hospital. Jovem com então 25 anos de idade eu não tinha plano de saúde. E adoecer não estava nos meus planos. 


Fui atendido pelo SUS. Por sorte todos os procedimentos foram muito rápidos e em meia hora já tinha conversado com médicos de três especialidades diferentes: o clínico geral que me atendeu primeiro. A pneumologista que estranhou a radiografia que apresentava um deslocamento em minha traqueia e me perguntou se eu havia engolido algo diferente. E por fim o oncologista para quem fui encaminhado e que me perguntou a idade, se já tinha filhos e se pretendia ter outros. Com a suspeita de um linfoma ele disse que me internaria imediatamente. Eu me recusei e fiz com que ele acreditasse que eu voltaria depois de pegar algumas roupas, uns livros e avisar minha família. Ele resistiu talvez imaginando que eu fosse capaz de alguma bobagem.

Não tinha esses registros na época, mas agora sei que o receio do médico oncologista que me atendeu era fundado. Estudos sugerem que as taxas de suicídio são 60% maiores em pacientes que recebem o diagnóstico de uma neoplasia. Essa taxa chega a 300% se a doença afetar os pulmões.

Mesmo sem conhecer esses dados suspeitei que as pessoas eventualmente pudessem tentar qualquer coisa contra si depois de um diagnóstico que possam imaginar terminal, me pareceu que era essa a preocupação do médico naquele momento. Isso em mim teve um efeito terrível.

Imaginei que minha situação fosse realmente grave – e era – mas tinha 90% de chances de cura. Porém, essa probabilidade de cura depende de uma serie de fatores. E de fato, se tratava daquela doença cujo nome muitas vezes evito proferir até hoje: Câncer.

No caminho do hospital até minha casa imaginei o pior. Eu tinha um caroço de aproximadamente cinco centímetros no pescoço que o medico me ajudara a identificar. Ele já estava fechando minha traqueia obstruindo a respiração. O simples exame de raio X indicava que meu mediastino estava tomado pelo tumor.

Naquele momento lembrei da personagem Macabéa, a triste datilógrafa de A Hora da Estrela de Clarice Lispector. Por alguma razão na hora de sua morte aquela personagem notou com felicidade uma erva daninha vencendo o asfalto. Enquanto dirigia para casa um VW Gol antigo apeguei-me também a pequenos detalhes como esse. O capim crescendo na beira da rodovia, as pessoas pedalando suas bicicletas, ou caminhando despreocupadas. Coisas que naquela altura imaginava que nunca mais teria oportunidade de fazer. Além disso imaginava que cicatrizes horrendas ficaram marcadas no pescoço para retirada dos tumores.

Ao chegar em casa narrei o diagnóstico para minha esposa e sogros e abracei meu filho que tinha então menos de seis meses de idade.

Apanhei minhas coisas e me dirigi ao hospital onde fui internado para realização de exames e início imediato do tratamento. Os exames confirmaram a suspeita do médico que agora sabia se tratar do oncologista Dr. Luis Carlos Stoeberl. Muito atencioso e preocupado autorizou a primeira quimioterapia mesmo antes de finalizados os trâmites burocráticos exigidos nestes casos.

Além das dores no pescoço eu tinha outros sintomas. Tosses fortes. Dificuldades de respiração. Inspirações profundas davam início a crises respiratórias intercaladas com muita tosse. Por todo o corpo tinha também uma coceira terrível que levou a deixar marcas na pele provocadas pelas unhas na ânsia de aplacar a comichão aguda que tomava todas as partes do corpo, em especial pernas, braços, e as costas. Esses sintomas, todos, simplesmente desapareceram depois da primeira seção de quimioterapia.

A quimioterapia é repleta de receios. Antes da realização da primeira sessão Dr. Luis avisou que meus cabelos cairiam e que em alguns casos a quimio poderia levar a esterilidade. Além disso alertou sobre os enjoos e sobre os cuidados com alimentação para reestabelecer o sistema imunológico que seria bombardeado com cada quimioterapia.

Entretanto, os cabelos não caíram, e ao fim de seis meses de tratamento eu sustentava uma barba digna de papai noel. A esterilidade não veio e isso tornou possível que Marina viesse ao mundo depois que recebi o diagnóstico de cura. Já os enjoos. Estes parecem inevitáveis. Porém, em nenhuma das sessões de quimio, ou depois delas, apresentei vômitos.

Durante o tratamento passei por cenas bizarras causadas por minha paranoia com a doença. Raramente saia de casa com medo de expor-me devido ao sistema imunológico debilitado. E quando saia, nas primeiras vezes, enchia-me de cuidados. Houve uma oportunidade em que sai para ir ao banco dirigindo meu VW Fusca 1984 em pleno dia de verão. Mantive todas as janelas fechadas. Usava casacos, um cachecol e um gorro. Tenho certeza que teria chamado a atenção de todos se saísse à rua com aquela indumentária. Felizmente, uma mínima noção do ridículo e o convencimento de minha família me levaram a deixar o cachecol e o gorro no carro. Não abri mão do casaco.

O pior momento do tratamento viria em meados de dezembro. Estava fazendo a penúltima sessão de quimioterapia. Havia implantado um cateter para receber as últimas quimioterapias em virtude de uma inflamação nas veias conhecida como flebite causada em reação as drogas da quimio. Nessa época meu tratamento não era mais custeado pelo SUS, e sim pelo plano de saúde da prefeitura onde iniciara há algumas semanas antes do diagnóstico.

Para economizar, a agulha que dava acesso ao cateter foi substituída por uma mais barata. Porém, essa agulha, por ser inadequada, agrediu o silicone do cateter permitindo uma infecção bacteriana. Essa infecção me colocou em uma cadeira de rodas. Com fortes febres, vômitos e uma fraqueza generalizada nesta altura temi que o pior pudesse ocorrer. Eu já não era capaz de sustentar o meu corpo e o simples gesto de levantar o braço parecia uma tarefa impossível. Era fim de ano. O acesso aos médicos era difícil. Mas a sorte parecia estar ao meu lado e minha internação coincidiu com o plantão do médico que me acompanhava. Depois de muitas idas se vindas ao hospital sem saber o que estava ocorrendo comigo, Dr. Luiz diagnosticou a infecção. Tratou-a, agendou uma cirurgia para extração do cateter e em algumas semanas recebi a última dose da quimioterapia em uma veia da perna. Já que as veias mais adequadas dos braços haviam todas secado em razão da flebite.

Recordo-me de fazer contato com meus pais nesse período por telefone e das saudades que sentia de pequenos atos da vida cotidiana, como sorver um café preto de minha mãe com meu pai e meus irmãos em uma dessas tardes de chuva.

Passado o tratamento segui fazendo o acompanhamento semestral. Por cinco anos carreguei comigo o medo de uma recidiva da doença. E confesso que somente depois de vencidos os dez anos do fim do tratamento passei a acreditar que estava completamente livre daquele mal.

Ao longo de todos estes anos tenho militado em uma ong que fundamos para divulgar os direitos dos pacientes oncológicos. A Sociedade Sem Câncer. Nesta ONG conheci pessoas incríveis como a querida Maria do Carmo que preside a entidade nos últimos anos levando na raça a luta por melhores condições aos pacientes.

Recentemente perdi uma pessoa muito querida vítima dessa doença. Quando a amiga Carol Chaves, muito jovem, passou por essa provação e solicitou-me que escrevesse sobre minha experiência relutei em fazê-lo com medo de reeditar os muitos sentimentos que acompanham esse diagnóstico para muitos ainda terrível. Ainda hoje é impossível falar disso por muito tempo sem um calafrio no abdômen e uma respiração que teima em descompassar-se.

Porém é assim. Ela veio e passamos por ela. Ela atravessou-nos. Varou de parte a parte cada centímetro, cada célula do corpo. Deixou cicatrizes que a maioria não conseguirá ver. Senão de perto. Bem perto. Para alguns terá deixado lições, para outros, traumas terríveis. Muitos sairão desse processo melhores do que eram. Outros não.

Eu sempre neguei a doença. Negava-a como se não fizesse parte de mim, senão como uma intrusa. Mas ela esteve aqui. Instalou-se. Desarticulou-me por completo. Depois dela veio o reinício. E decidi fazer as coisas de modo diferente. Menos trabalho. Menos tarefas. Aprendi a dizer não para muitas atribuições que me impunham.

Passaram-se de anos e vejo-me quase tão atribulado de tarefas e trabalho quanto antes. Naquele período que antecedeu meu adoecimento. Médicos e pesquisadores ainda não sabem ao certo o que causa o câncer. Sabe-se que é o mal do século e a doença que atinge três de cada quatro famílias nos Estados Unidos, por exemplo. Sabe-se que as taxas de adoecimento são maiores nos grandes centros urbanos, onde a vida é mais agitada e o tempo é matéria fugidia nas mãos de seus habitantes.

Agora, repensando minha história decido que é tempo de retomar o tempo pelas mãos. Tempo de viver bem. De viver com o mínimo para viver mais. Tenho tentado fazê-lo.

Espero que ao ler este breve relato alguma coisa também possa ser ressignificada em sua vida. Pela bem da vida. Que como aquela erva daninha da Hora da Estrela, teima em vencer o asfalto, o concreto para vicejar em verdes e claras horas de estio.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Radicais Livres - Com Ilustrações by Batata sem Umbigo

Por Jeison Giovani Heiler - Poema Integrante do Livro "Escombros" - Premiado pelo Edital de Cultura Elisabete Anderle - 2017.

How many years must a mountain [of love] exist
Before it is washed to the sea? Yes?

and how many years 
can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes?
and how many times 
must a Jee turn his head

And pretend that
he just doesn't see?

nothing to give
for you
nothing for [...
promises
to dream
to submit
to fuck
anything
unless 

 letras tortas
frases desconexas
e doses de sentido
doses incompletas
urgentes de sentido
tão pungentes

but the wind
sopra com seu hálito quente 
esmurra contra minha face
seus diretos de esquerda

how many times 
must a man turn his head
And pretend 
that he just doesn't see? 


anywhere and now
pode estar
deitada

olha pro teto 
e não vê
olha pro lado 
e não vê
olha pra dentro
 e não vê
olha através 
do contrário e 
ao avesso


o que teria sido meu bem
palavras quentes - um pouco de manteiga
talvez uma tarde de chuva

é confortável aí dentro?
adivinho um raio de sol
pegado à tua pele
adivinho a consistência
da saliva dentro da tua boca
o vigor pulsando
adivinho um par de olhos
semicerrados
teus lábios 
grossos açucarados
                            [e um monte de sacanagem que não posso mais dizer


desinfetarei o mundo de sentidos
e me comportarei dentro de meus sapatos
e nós de gravata desajeitados
não caibo no mundo
e o mundo não cabe aqui dentro
mas
dobrei no bolso de trás um rascunho

mad world 


é melhor ser amado
ou temido?
é melhor ser amado
ou esquecido?
é melhor desaguar
um mar aqui dentro
pra lavar o que ficou de você

continua a não existir
porra nenhuma 
pra você
meu bem

e ainda assim
insisto
alimento 
com meus ossos


com o que restar 
de mim sobre o asfalto
esse amor famélico-infecto


desinfetarei o mundo de sentidos 
restará a mudez
e o ruído acrítico das
massas
o vozerio
solidão compacta
a cada mergulho no mar revolto
regressaremos mais enxutos
secos sujos solitários
porém livres
porém livres
e solitários


livre é a partícula
átomo esvoaçante
pairando sobre os 
escombros



sobre telhados 
de zinzo
sobre pretos
bichas
velhos
e mães solteiras
mal letradas
apoiando-se 
esses desgraçados
no que há de comum
do infortúnio
social

setenta por cento do mundo
não tolera mais você
estampa algum jornal
em letra garrafal

o resto é o que tem sobrado
mad mad world bebé

como é ser
 este tipo de molécula
cancerosa?
radical?
[livre?
e 
só?

como é dançar
no espaço
surdo
aos teus gemidos

os cães ainda ladram
mas o eco é seco
opaco
oco
reto
desinfeto

o prefeito da capital
já pintou os muros e as paredes
desinfetou com jatos sórdidos
da agua escassa
os desvalidos
da crack-land
o prefeito da capital
injetou
e há muito mais tempo
doses 
cavalares de desamor
no lobo parietal
desintegrou os espaços do cracko
desinfetou os espaços do afeto

certo, você dirá
as pessoas ainda se amam
no becos
nos guetos

assim como fumam
no fluxo
no lixo
cachimbos
de lata 

enquanto
do lado 
a morte 
ensaia
sua valsa 
lúgubre

amores
dores
cores licores
vapores
marginais