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quinta-feira, 8 de junho de 2017

A meritocracia é um mito que alimenta as desigualdades, diz Sidney Chalhoub, pesquisador da UNICAMP & HARVARD


Para historiador da Unicamp e de Harvard, a Universidade está preparada para as cotas étnico-raciais

Fonte> https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/06/07/meritocracia-e-um-mito-que-alimenta-desigualdades-diz-sidney-chalhoub

Veja tb: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/06/1891434-cota-racial-em-concurso-publico-e-constitucional-decide-stf.shtml

Ao aprovar o princípio das cotas étnico-raciais, a Unicamp se alinhou às grandes universidades do mundo, como Harvard, Yale e Columbia, que adotam a diversidade como critério para o ingresso de seus estudantes. O pressuposto dessas instituições é que a diversidade melhora a qualidade. A afirmação é do historiador Sidney Chalhoub, professor titular colaborador do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp e docente do Departamento de História da Universidade de Harvard (EUA). Na entrevista que segue, concedida ao Jornal da Unicamp, Chalhoub salienta a importância das ações afirmativas como mecanismo de reparação e promoção de justiça social e contesta argumentos utilizados pelos críticos das cotas, como a necessidade de preservar a meritocracia. “A meritocracia como valor universal, fora das condições sociais e históricas que marcam a sociedade brasileira, é um mito que serve à reprodução eterna das desigualdades sociais e raciais que caracterizam a nossa sociedade. Portanto, a meritocracia é um mito que precisa ser combatido tanto na teoria quanto na prática. Não existe nada que justifique essa meritocracia darwinista, que é a lei da sobrevivência do mais forte e que promove constantemente a exclusão de setores da sociedade brasileira. Isso não pode continuar”, defende.


O historiador Sidney Chalhoub: “As razões históricas, sociais e filosóficas em favor das cotas justificam plenamente a medida. Não há futuro possível com esse perfil de desigualdade se reproduzindo ao longo do tempo. É uma missão de todos superar essa desigualdade”








Jornal da Unicamp – Quem tem medo das cotas étnico-raciais?


Sidney Chalhoub – Quando esse assunto começou a ser discutido no Brasil, ainda nos anos 1990, houve uma resistência grande entre intelectuais e acadêmicos que consideravam que a adoção desse sistema provocaria tensões raciais na sociedade brasileira. No entanto, o que se viu, conforme essas políticas foram sendo adotadas, primeiro isoladamente por algumas universidades estaduais, e depois em várias universidades federais, até que uma legislação federal sobre o assunto fosse aprovada, foi que as cotas foram muito bem acolhidas no interior das instituições. Hoje, o que se vê na Unicamp é a defesa das cotas pelo movimento estudantil. A defesa não está restrita ao movimento negro. A partir das experiências das universidades estaduais e federais, houve o entendimento de que a diversidade do corpo discente contribui para a qualidade acadêmica e para a produção de conhecimento nas universidades. Os que têm medo das cotas são os setores que têm tido acesso às universidades públicas e gratuitas como uma prerrogativa sua, de muitas décadas. São pessoas que vão a escolas particulares porque têm maior poder aquisitivo e que defendem a exclusividade de acesso à universidade pública, gratuita e de qualidade. Esta é uma distorção grande na sociedade brasileira.


Entretanto, não é possível generalizar. Hoje você tem um contingente grande de estudantes da Unicamp que são brancos e de classes favorecidas e que também entendem a importância das cotas para promover a diversidade no corpo discente e para promover diferentes perspectivas a respeito dos assuntos abordados pela universidade. Esse novo contingente de alunos colocará em cheque vários hábitos da universidade. Vai forçar um questionamento a respeito da importância da existência da universidade pública, a quem ela deve servir e que tipo de conhecimento ela deve produzir. Essa experiência é muito bem-vinda. A resistência às cotas é mais barulhenta que generalizada. O país convive bem com a ideia das cotas. O engajamento dos estudantes da Unicamp em geral mostra a receptividade à ideia. As pesquisas de opinião mostram que a maior parte da população brasileira é favorável às políticas de ação afirmativa e o próprio Supremo Tribunal Federal aprovou por unanimidade a necessidade dessas políticas para combater o racismo e as consequências dele na sociedade brasileira.

JU – O princípio das cotas é um tema novo?

Sidney Chalhoub – Não. O tema está longe de ser uma originalidade brasileira. As melhores universidades do mundo, aquelas que a própria Unicamp utiliza como referência para qualificar suas atividades, adotam a diversidade no ingresso dos estudantes há bastante tempo. Harvard, Yale e Columbia, para ficar em três exemplos, adotam políticas agressivas de promoção da diversidade do corpo discente. Não fazer isso deixaria a Unicamp na contramão da história. A decisão do Conselho Universitário em aprovar o princípio das cotas foi muito bem-vinda.

JU – Correntes contrárias às cotas étnicos-raciais argumentam que esse tipo de política pode comprometer a qualidade do ensino, ao permitir o ingresso de estudantes “despreparados” na vida acadêmica. Como o senhor analisa esse tipo de justificativa?

Sidney Chalhoub – A primeira observação a respeito disso é que, como mencionei anteriormente, o pressuposto das grandes universidades do mundo é que a diversidade melhora a qualidade. Obriga a um contraste de pontos de vista. Enquanto a universidade existe como prerrogativa de uma mesma classe social, de uma mesma raça e dos mesmos setores, ela não se abre ao tipo de questionamento e de tensões que são criativas, oriundas da necessidade da convivência de grupos sociais e raciais com perspectivas diferentes. O segundo ponto é que, na prática, todas as pesquisas existentes demonstram claramente que o desempenho dos estudantes cotistas é igual ou superior ao desempenho dos não cotistas nas universidades estaduais e federais que adotaram esse tipo de política afirmativa. Isso é fácil de entender.

Ao contrário da propaganda maldosa que se faz, a adoção de cotas não tem nada a ver com a exclusão do mérito. Tem a ver com a utilização de critérios de seleção que promovam a competição entre estudantes que tiveram oportunidades educacionais semelhantes até o momento em que se candidatam ao ingresso na universidade. Dessa forma, os estudantes negros e indígenas que serão selecionados representarão uma fração dos que postularam uma vaga na universidade. Serão, portanto, os melhores entre eles. A tendência é que sejam ótimos alunos, tanto quanto os não cotistas. Por fim, a universidade evidentemente tem o desafio de lidar com eventuais dificuldades que existam entre os estudantes de modo geral. Tanto as dificuldades de origem socioeconômica quanto as acadêmicas e pedagógicas. Nada disso impede, porém, que a apolítica de cotas seja implementada. Essa é uma dívida das universidades públicas em relação à população afrodescendente. Obviamente, os programas de permanência estudantil são tão importantes quando a criação de oportunidades de ingresso. Esse é um desafio que a Unicamp terá que enfrentar.

JU – Numa das audiências públicas promovidas em 2016 pela Universidade para discutir o princípio das cotas, um professor universitário de origem indígena disse que os indígenas não querem mais ser apenas estudados pela academia. Eles também querem contribuir para a construção da ciência...


Sidney Chalhoub – Esses novos sujeitos que ingressam na universidade representam um deslocamento importante de negros, indígenas e populações pobres, que são objeto de estudos da academia, mas que raramente têm a oportunidade de se tornarem sujeitos do conhecimento. Isso também é uma experiência fundamental e epistemológica. Isso descentraliza o conhecimento e permite que perspectivas diferentes passem a fazer parte do cenário das universidades. Um assunto no qual a universidade é bastante carente diz respeito a uma reflexão conjunta sobre que tipo de conhecimento ela deve produzir e para quem são esses conhecimentos.

Será que o conhecimento que a universidade produz na área de energia, por exemplo, deve estar voltado às necessidades do mercado ou deve priorizar as necessidades de preservação do planeta? Até que ponto os conhecimentos gerados na área médica priorizam o bem-estar do conjunto da sociedade? O conhecimento de ponta pode ser produzido em várias frentes. A escolha de que frentes serão priorizadas é uma questão que precisa ser politizada na universidade. Não se pode partir do pressuposto de que o conhecimento deve necessariamente atender às necessidades do mercado. É preciso haver debate a respeito dos motivos pelos quais a instituição deve investir nesta ou naquela frente. Na minha opinião, o critério fundamental é produzir o bem-estar social. Esse é um tema que a universidade discute pouco.

JU – O senhor mencionou a questão do mérito numa resposta anterior. Correntes contrárias às cotas alegam que o modelo desconsidera a meritocracia, o que geraria injustiças. O que o senhor pensa a respeito desse tipo de argumento?

Sidney Chalhoub – O fundamental é questionar a ideia da meritocracia como um valor abstrato universal, que justifique a existência de alguma medida comum da aptidão e de inteligência da humanidade. Fica parecendo que a meritocracia partiu de uma definição abstrata, excluída das circunstâncias sociais e materiais de vida das pessoas. A universidade, sendo pública, é da sociedade inteira. O ideal seria que todos aqueles que tivessem condições intelectuais e interesse em entrar na universidade, obtivessem uma vaga. Como não há nenhuma perspectiva de que nossos políticos priorizem o acesso ao ensino universitário, é preciso fazer algum tipo de seleção. A seleção deve fazer com que a sociedade esteja representada no corpo discente da universidade. Não se pode ter somente uma determinada raça ou classe social na universidade.

Já que o ingresso não pode ser da maneira universal, que a sociedade esteja presente, então, por meio da representatividade. Esse foi o princípio aprovado pelo Consu. Não é possível que todos os candidatos entrem em competição pelas vagas como se tivesse havido uma igualdade ideal de oportunidade entre eles. Não se pode fazer com que o aluno negro, pobre e que estudou numa escola pública localizada na periferia de Campinas concorra em igualdade de condições numa prova padronizada com alunos cujos pais cursaram universidade, têm alto poder aquisitivo e tem alto acesso ao capital simbólico. É preciso que a universidade busque equilibrar essa disputa.

Desse modo, quando há reserva de vagas para negros e pessoas de baixa renda, a competição se dá entre eles, entre iguais. Então, não há exclusão do mérito. É uma maneira de ter o mérito qualificado pelas condições sociais e econômicas dos candidatos, e não uma competição que exclui alguns segmentos da sociedade desde sempre. Então, a ideia da meritocracia como valor universal, fora das condições sociais e históricas que marcam a sociedade brasileira, é um mito que serve à reprodução eterna das desigualdades sociais e raciais que caracterizam a nossa sociedade. Portanto, a meritocracia é um mito que precisa ser combatido tanto na teoria quanto na prática. Não existe nada que justifique essa meritocracia darwinista, que é a lei da sobrevivência do mais forte e que promove constantemente a exclusão de setores da sociedade brasileira. Isso não pode continuar.

JU – As cotas étnico-raciais constituem uma política de reparação ou de justiça social?


Sidney Chalhoub – As duas coisas. Se você pensar na história de São Paulo, onde a Unicamp está localizada, a prosperidade do Estado, principalmente a partir da expansão do café, na década de 30 do Século XIX, se deu por meio de duas ilicitudes praticadas pela classe proprietária de maneira abusiva durante décadas. Ela se beneficiou do contrabando de africanos. A lei brasileira de 7 de novembro de 1831 havia proibido o tráfico africano de escravos, mas a propriedade cafeicultora fluminense e paulista se formou por meio da continuidade do tráfico. Um contingente formado por 750 mil africanos foi trazido ao Brasil ilegalmente, em condições desumanas. Esses negros foram escravizados e seus descendentes também. Além disso, a formação da grande propriedade cafeicultora ocorreu através de invasão das terras. Trabalho e terras foram obtidos pela classe dominante ao arrepio da lei. Portanto, a reparação é uma questão que deve ser levada a sério. Se não for levada a sério do ponto de vista legal, que pelo menos seja levada a sério sob o aspecto da promoção de uma justiça social que é devida a essa população cuja presença no país se deu por meio de crimes cometidos pelos cafeicultores.

No caso de São Paulo, também se adotou políticas afirmativas em favor de imigrantes. No final do Século XIX, foram adotadas políticas para subsidiar a imigração de europeus brancos, italianos inicialmente. A vinda desses imigrantes era subsidiada pelo tesouro da Província de São Paulo e depois pelo Estado de São Paulo, o que favoreceu a adaptação dessas pessoas ao país. Tratou-se de uma política de inclusão social que jamais existiu para a população negra até recentemente. Portanto, já houve no Brasil a adoção de política de ação afirmativa para brancos europeus e seus descendentes. Dessa maneira, não há nada demais que se veja como reparação as políticas de cotas para negros e indígenas.

Além disso, é importante pensar que, no caso da população negra, quando houve uma aceleração no processo de emancipação escrava, nas duas últimas décadas da escravidão, ocorreu uma mudança na lei eleitoral, em 1881, que proibiu o voto de analfabetos, o que não existia antes. Isso, numa situação em que não havia escola primária para negros. Devido à falta de acesso à instrução, nas primeiras décadas após a emancipação, a população negra ficou excluída da política formal. Esse foi outro movimento importante de desvantagem dessa população na luta por direitos na história do país. Eu entendo que as pessoas esbravejem quando perdem privilégios. Mas as razões históricas, sociais e filosóficas em favor das cotas justificam plenamente a medida. Não há futuro possível com esse perfil de desigualdade se reproduzindo ao longo do tempo. É uma missão de todos superar essa desigualdade.

JU – Aproveitando essa reflexão, o quão prejudicial tem sido para o Brasil essas posturas vinculadas à nossa herança escravocrata?

Sidney Chalhoub – Quando as pessoas se espantam ao constatar que a corrupção no Brasil está tão generalizada, isso é pura ignorância histórica. Como eu citei, o maior exemplo de corrupção na história do país talvez tenha sido a importação ilegal de centenas de milhares de trabalhadores por meio do tráfico africano. Isso no período de formação do Estado nacional, nas décadas de 20 e 30 do Século XIX. Esse Estado se organizou em grande medida para defender os interesses dos contrabandistas e dos cafeicultores. A corrupção está no cerne da formação do Estado brasileiro. Qualquer solução simplista e messiânica para esse problema não faz sentido. É preciso reconhecer a complexidade da questão, o que pode levar a sociedade brasileira a superar essa corrupção crônica que existe no país. Isso tem a ver com a escravidão. A escravidão foi, insisto, a pedra de toque da formação do Estado nacional. A corrupção é capilar na sociedade brasileira e essa capilaridade esteve ligada à própria escravidão no Século XIX.

Alunos, funcionários e integrantes de movimentos sociais acompanham, em frente ao prédio da Reitoria da Unicamp, a sessão do Conselho Universitário que aprovou o princípio de cotas étnico-raciais, no último 30 de maio

JU – No contexto da aprovação do princípio das cotas étnicos-raciais, a Unicamp anunciou a criação da Secretaria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade. Qual a importância dessa instância para promover a reflexão sobre esses aspectos que o senhor abordou?

Sidney Chalhoub – As cotas vão envolver muitas coisas. Vão envolver mudanças curriculares, para que as disciplinas ligadas à história do racismo e do pensamento negro e indígena sejam disseminadas, de maneira que se reconheça a densidade desse tipo de conhecimento. Há uma série de movimentos que apontam para uma receptividade em relação às cotas. Mas é preciso ser vigilante. Haverá tentativas de fraudes no vestibular. Haverá tentativa de agressões gratuitas, como a do professor da Medicina, que felizmente não representa o pensamento da comunidade da faculdade. É preciso ter acompanhamento desses assuntos. É preciso acolher os ingressantes, oferecer condições para que a inclusão ocorra de fato e fazer com que o conhecimento que essas pessoas trarão à universidade seja reconhecido e disseminado. Tudo isso exige um acompanhamento próximo. Desse modo, a criação da secretaria, que terá essa atribuição, é bem-vinda.

O Brasil está pronto para as cotas. A Unicamp está pronta, sim, para adotar as cotas. E a comunidade está mobilizada nesse sentido. Acho que a nova gestão da Reitoria, que herdou a discussão da gestão anterior, começa muito bem, inclusive para tentar assegurar a governabilidade num momento difícil da universidade, ao abraçar uma causa que é bastante popular entre os estudantes, funcionários e grande parte dos docentes. O Consu, que é o parlamento da universidade, já aprovou. Resta aplicar a política da melhor forma possível e assegurar a permanência estudantil. Daqui a poucos anos, teremos finalmente médicos, engenheiros, físicos, historiadores e biólogos de alto nível formados numa das melhores universidades do país. Pessoas que servirão de exemplo e inspiração para a transformação da sociedade brasileira em uma sociedade racialmente mais justa.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Porque eu gosto dos Pixies!

Por: José Rodrigo Rodriguez

Domingo durante o show dos Pixies no Lollapalooza, lutando contra um resfriado, fiquei pensando na primeira vez que ouvi a banda, no final dos anos 80, começo dos anos 90. E fiquei tentando entender porque eu gosto tanto deles. Até hoje.  

Naquela época o Brasil vivia uma situação na área da cultura, especialmente no campo da música, que soa completamente surreal para quem não viveu aqueles tempos. Olhando para trás, nem eu mesmo acredito.
Por exemplo, naquela época, os “grandes artistas”, inclusive os “rebeldes” Legião Urbana, Titãs, Cazuza e etc estreavam seus clipes no programa do Fantástico da TV Globo, rede que possuía uma audiência imensa, maciça, quase indecente para um país democrático.
Na segunda-feira de manhã, acordávamos todos ouvindo a mesma música, aquela que estreara no domingo e que seria repetida a semana toda em praticamente todas as rádios AM e FM. Uma “coinciência” que não enganava ninguém ou enganava apenas aos mais ingênuos.
A indústria cultural em seu auge vivia de um oligopólio absurdo, marcado por uma aliança, que parecia indestrutível, entre grandes gravadoras, grandes redes de TV e emissoras de rádio.
Foi assim, provavelmente, que muitas músicas se tornaram parte da “história” de uma geração. Pela força de um oligopólio poderoso que não oferecia mais nada para se ouvir e, por isso mesmo, marcou profundamente a nossa cultura.
Eu nasci para a música assustado e revoltado com este esquema semi-fascista. Na minha cabeça radical de então, eu tinha raiva de qualquer um que estivesse ao lado do “esquemão”, Chico Buarque de Hollanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso inclusive, mais todos os “medalhões” da MPB.
Apenas mais tarde fui compreender que estes artistas haviam tentado disputar este esquema por dentro em um momento em que ele ainda não estava completamente montado. Ao que tudo indica, na década de 60, ainda havia espaço para disputar a qualidade musical no campo da música voltada para as massas.
A minha raiva desta situação aumentou quando descobri o que havia sido e ainda era o punk na década de 70, movimento ainda vivo em seu legado no campo do rock alternativo de então.
Na época, ser “indie” não era ter um “look” e gostar de um certo estilo musical. Ser “indie” era combater a indústria cultural e promover a tudo e a todos que resistiam a ela.
Estava em curso a tentativa de criar um mercado paralelo com gravadoras, casas de show, promotores de shows, revistas, fanzines e outros meios de produção cultural alternativos, que não estivessem à serviço do grande capital. Uma tentativa de criar a possibilidade de alguma concorrência neste campo, para o bem da criatividade e da diversidade.
No Brasil, houve algumas poucas tentativas de implementar um mercado alternativo nestes moldes, uma delas vivida por mim, com toda a intensidade, na São Paulo dos anos 90.
É preciso dizer, para fazer justiça ao adolescente radical que eu fui, que os “grandes da MPB”, confortavelmente associados ao grande capital da música, nunca mexeram uma palha por este movimento. E nem se deram conta dele. Mesmo os artistas mais ligados à música de seu tempo, como Caetano Veloso.
Apenas recentemente Caetano emitiu sinais de ter percebido o que foi essa coisa toda, ao menos esteticamente, ao gravar a trilogia dos excelentes “Cê”, “Zii e Zie” e “Abraçaço”.
Antes tarde do que nunca!
Naquela época, vários jovens roqueiros, alguns bastantes criativos, decidiram aderir ao “esquemão”, talvez na esperança de repetir a façanha dos grandes artistas da MPB e disputa-lo esteticamente por dentro.
Resultado: o assim chamado “rock dos anos 80″ (é mais correto dizer “pop-rock”), que produziu música de baixa qualidade. Canções que nunca ganharam o reconhecimento artístico da comunidade de críticos, músicos e fãs de rock, que sempre foi, ao menos desde a década de 60, marcadamente internacional.
Nossa querida MPB, ao contrário, foi consagrada internacionalmente. E bandas de rock como Os Mutantes são hoje comparadas, com toda a tranquilidade, com os Beatles e os Rolling Stones pela crítica e pelos melhores músicos do mundo. E são citados como referência inclusive por artistas jovens.
Qualquer garota ou garoto inteligente que se envolva com rock, da Austrália à Islândia, passando por Gana, África do Sul, Suécia, Estados Unidos e Peru, vai ouvir, em algum momento, Os Mutantes. Quem é do rock sabe: eu não estou exagerando.
Da mesma forma, bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Sepultura, ambas geniais, recolocaram o rock brasileiro no mapa da música mundial.
O público sempre gostou do rock dos anos 80, é claro. Eu mesmo, hoje em dia, ouço muita coisa. Como ouço e me divirto com Luiz Caldas, É o Tchan, Gretchen, Rosana, Roberto Carlos e o Lepo Lepo.
Afinal, são todos músicos de respeito, todos muito divertidos. Mas foram criados para agradar as massas, sem maiores preocupações estéticas. Não se deve levá-los muito a sério.
Não tenho nada contra o mercadão, mas ele tem limitações estruturais. Afinal, quando alguém investe muito dinheiro em uma mercadoria, espera que ela dê um bom retorno. Para que isso seja possível, ela precisa agradar a todos. Não pode ser difícil, desafiadora, controversa.
Há casos de grandes obras feitas para a massa, bem no coração da indústria. Mas no cômputo geral, especialmente nos momentos em que ela ela funcionava a pleno vapor, estamos diante da exceção da exceção da exceção!
Como eu ia dizendo, na década de 90 em SP houve uma tentativa de viabilizar um esquema de produção e de distribuição musical radicalmente alternativo.
Havia pequenas gravadoras e lojas de Disco funcionando, como a Wop Bop, a Baratos Afins e a Devil Discos. Havia casas de show alternativas, como o Hangar, o Espaço OFF, o Centro Cultural Vergueiro.
Havia também uma série de fanzines e publicações circulando, em uma efervescência cultural que permitiu que eu passasse a minha adolescência sem precisar ouvir ou comprar um disco sequer das bandas do “esquemão”.
Esta cena e as informações que eu coletei naqueles tempos foram a minha salvação do autoritarismo da indústria cultural da época. 
Meus ídolos eram, entre outros, os brasileiros Vzyadoq Moe, Violeta de Outono, De Falla (de Porto Alegre), Patife Band, Mercenárias, Inocentes, Maria Angélica e Fellini (citado por Chico Science como influência). Entre os estrangeiros: Nick Cave, Pogues, PIL, Joy Division, Bauhaus, Jesus & Mary Chain, Dead Kennedys e Pixies.
Todas essas bandas buscaram caminhos alternativos ao rock dos anos 70, marcado pelo hard rock e pelo rock progressivo. E nasceram do meio alternativo ao “mercadão”. São filhas do punk.
Na verdade, quase tudo o que foi feito de bom no rock mundial, dos anos 80 em diante, nasceu do movimento punk e de seus desdobramentos.
Muitas dessas bandas, especialmente as estrangeiras, hoje são clássicas. As brasileiras, a maior parte delas, nunca se tornou realmente profissional. Algumas terminaram logo no primeiro disco e hoje são objetos de um culto quase secreto.
Na época, todas eram novidade. Ninguém sabia quem elas eram e que futuro teriam. Os seus discos, muitas vezes, não vendiam quase nada. Como os discos dos Pixies.
Era preciso caçar esses álbuns pela cidade, gravar as músicas do rádio durante o inesquecível programa Garagem, à meia noite na 89 FM, pedir para os amigos mais ricos, que viajavam para o exterior, fazerem fitas cassete para gente. Qualquer coisa para escapar do “esquemão” das gravadoras.
A cena alternativa dos anos 90 merece uma biografia, que ainda não foi escrita. Há muita coisa a entender e a explicar. Parece claro, por exemplo, que não havia uma “consciência de classe” organizada, não havia um projeto coletivo bem estruturado. Talvez por isso a cena tenha se desfeito tão rápido.
Por exemplo, até hoje membros do Fellini reclamam publicamente da gravadora Baratos Afins por eventuais vendas não contabilizadas de seus discos. Algo que, com todo o respeito, soa improvável diante do tamanho da cena, que era basicamente restrita a garotos e garotas intelectualizados de classe média, como eu.
O “esquemão” mudou, acabou incorporando traços do som alternativo de forma higiênica e controlada criando bandas inofensivas como o Nirvana. Depois veio a internet e alterou completamente as regras do jogo. Hoje tudo está muito diferente. Graças a deus! Ou ao diabo?
Eu espero que as grandes gravadoras nunca mais atinjam o tamanho e o poder que um dia tiveram. Eu espero que a audiência das redes de TV se pulverize mais e mais e novas redes de TV e de rádio surjam. Eu espero que a internet continue a exercer seu papel democrático.
Acima de tudo, eu espero que ninguém mais viva sob o poder de um oligopólio cultural agressivo, como eu vivi.
Mas seja como for, ainda hoje, quando escuto os Pixies, esse clima de enfrentamento volta à minha memória. Os anos da adolescência são sempre muito marcantes.
E eu confesso que, desde então, tenho dificuldades de olhar, por exemplo, para Chico, Gil e Caetano, como paladinos da liberdade, sem maiores explicações. Sobre as bandas de pop-rock dos anos 80, não vou dizer mais nada.
Ao menos para a minha geração, para este grupo de roqueiros à esquerda, todos estes artistas eram aliados do “esquemão”. Alguns haviam prestado grandes serviços ao país, à poesia, à resistência à ditadura etc.
Mas naqueles anos de oligopólio, estavam à direita, ao lado do grande capital, sem força ou sem vontade para questionar o controle privado dos meios de produção cultural.
Sou forçado a dizer, para terminar, que seu alinhamento recente contra a liberdade de expressão e a favor dos interesses econômicos na questão das biografias não me surpreendeu. Eles já haviam me decepcionado bem antes.
Afinal, questionar as estruturas autoritárias do mercado cultural nunca foi uma questão central para estes artistas.
É por isso, e é assim, que eu gosto tanto dos Pixies! Ainda hoje.  
Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/jose-rodrigo-rodriguez/blog/2014/04/08/porque-eu-gosto-tanto-dos-pixies/

quinta-feira, 1 de março de 2012

Plano Municipal de Cultura será finalizado no 1º Seminário de Políticas Culturais

O Seminário de Políticas Culturais acontece para preparar ações e implantar as metas da próxima década.
Após seis anos de longa discussão, o Plano Municipal de Cultura está prestes a ser finalizado e integrado à lei que prevê a regulamentação do Sistema de Cultura de Jaraguá do Sul. O último passo será dado no dia 17 de março, quando ocorre o 1º Seminário de Políticas Culturais. 

Depois de concluído, o documento segue para apreciação na Câmara de Vereadores, e deve ser votado ainda neste ano. O objetivo desse evento é elaborar ações para que as 31 metas estabelecidas em duas conferências realizadas nos anos de 2007 e 2009 possam ser implantadas. 

Com o plano, que valerá por dez anos, a cidade regulamentará o Sistema de Cultura de Jaraguá que integra o Fundo Municipal de Cultura e o Conselho Municipal de Cultura (que já existem no município), além de ser incluída no Sistema Nacional de Cultura para poder receber recursos federais. 

No seminário, serão promovidas oficinas divididas em cinco eixos temáticos: Gestão Pública de Cultura; Economia da Cultura; Preservação do Patrimônio Cultural; Cultura, Direito e Cidadania; e Cultura e Comunicação. Cada grupo será responsável pela elaboração das ações de cada tema.

A exigência da criação de um planejamento para a Cultura vem desde 2007, quando Fundação Cultural assinou um termo com o Ministério da Cultura. A presidente do Conselho Municipal de Cultura, Silvia Kita, explica que o documento foi feito agora porque somente no ano passado o governo federal assinou as metas do planejamento nacional.

“Queríamos elaborar algo aqui com base no documento federal”, diz Silvia.Com o planejamento estabelecido, os gestores públicos da área da cultura terão uma meta para seguir e poderão fazer um planejamento. “Vamos conseguir dar mais segurança para o gestor público, que vai ter um embasamento”, comenta a presidente.

Fonte: Jornal O Correio do Povo (24/02)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012