quinta-feira, 17 de abril de 2014

Euclides - XXIII -

Euclides acaba de despertar de uma noite conturbada. Os jornais que lhe serviram de cobertor durante a noite jazem espalhados pela calçada. Ele observa, encostado na parede enquanto mastiga um pão seco, como o senhor alinhado, de gravata clara num terno muito escuro, pisa com força sobre a manchete de capa da principal folha de notícias da cidade. O jornal data quinze dias atrás. Euclides imagina quantas discussões deve ter gerado aquela matéria, agora pisada com desprezo por aquele íntegro senhor. No seus nascedouro, a repórter jornalística deve ter discutido com o editor, ou o que o valha, que por interesses políticos-comerciais não deve ter achado oportuna a adoção de diferentes rumos para aquela matéria. Euclides jamais saberá, mas fora exatamente o que ocorrera. Depois de uma série de recomendações e restrições a repórter fora liberada para cobrir aquele espinhoso assunto. Ainda no carro, sentia o vento nos cabelos e imaginava o quanto era bom viver numa nação livre. O motorista ao seu lado ganhava 1/5 do seu salário que representava o piso da categoria de jornalistas e por seu turno não compartilhava dos mesmos pensamentos. Na verdade seu semblante fechado e suas respostas monossílabas às perguntas e comentários da repórter deviam-se muito mais às preocupações com contas e títulos a pagar do que à imaginada natureza fria que lhe atribuía agora a colega de trabalho. Ela conseguira autorização do chefe para tratar daquele assunto que era um calo na administração. A Secretaria de Moda e apresentação social. Haviam denúncias de desvios de recursos públicos. O Secretário de Moda usava uma fábrica de calcinhas de fachada e através de laranjas estava engordando a própria conta bancária. Assim no entender da repórter haviam duas mentiras a serem esclarecidas. A questão da falsa fábrica de calcinhas e a de que laranja não engorda. Ela, portanto, estava eufórica. Seriam dois furos de reportagem em apenas uma matéria. O editor recomendara-lhe que não tocasse no nome do Secretário nem mesmo envolvesse a Secretaria de Moda nos fatos. A instrução era para que se ativesse à malfadada fábrica de calcinhas apenas. Entretanto, mesmo depois de haver repassado esta recomendação ao suposto dono da fábrica de calcinhas o sujeito não conseguia completar uma única frase sem mencionar o nome do secretário e de ainda umas duas dúzias de outros funcionários da Secretaria de Moda. Esta foi a razão e motivo de outra discussão entre si e o Editor Chefe. Com energias renovadas por três sucos de laranja que a repórter tomara no caminho de volta. Ele vociferava contra ela argumentando que se publicasse aquela matéria o jornal seria fechado com certeza, não pela censura, que esta graças a Deus não existia mais neste pais democrático, mas pela falta de recursos, já que a Prefeitura era a principal cliente e patrocinadora daquela folha. Helena ainda buscou argumentar, mas ao final se rendeu aos fortes e práticos  motivos de seu redator. Assim a matéria de capa que agora era lambuzada também pelo suco de laranja de uma menininha distraída que tropeçou num dos buracos da absolutamente imperfeita calçada, não contou com muito mais além de uma foto da nova linha de calcinhas lançada pela Secretaria de Moda anunciando a contratação de uma nova e mais eficiente fábrica deste tão fino artigo. A denuncia de superfaturamento. Em uma coluna lateral, ainda na capa, um manchete secundária tentava atrair atenção para uma nova pesquisa sobre as propriedades calóricas da laranja. Com um sorriso nos lábios Euclides puxa para si uma folha de jornal disposto a ler a coluna de tiras, única que jamais envelhece, permanecendo incólume, enquanto os outros fatos se deterioram pelo tempo ou pelos homens que lhes contradizem a cada minuto. 

Euclides - V -

É costume acordarem bastante cedo todos os dias. Com dois galos, um ganizé e onze galinhas no pátio de casa às cinco horas da manhã as coisas já ficam um bocado agitadas na residência dos Gutier. A esta hora Bonifácio arrasta seu corpo débil e envelhecido para fora da cama. Com cinco ou seis passadas debruça-se sobre a soleira da janela, que amanheceu aberta como ocorre sempre nos dias quentes. Daí a algumas horas será possível avistar os edifícios do centro da cidade. Por enquanto a cidade esta recoberta por  uma densa neblina. O que, nos dias em que acorda de bom humor, dá a impressão a Bonifácio, de que é o mar coberto de uma espuma densa o que ele avista da janela. Muito embora não formule nestes exatos termos este pensamento. Na verdade Bonifácio pensa algo mais próximo disto: “Eita que te parece que choveu o mêsinteiro e a cidade se cobriu d' água”. O humor de Bonifácio, contudo, é o seu habitual. Dona Anastácia constata isso ainda da cama quando ouve os runhidos de Bonifácio que procura limpar a garganta e que termina com uma escarrada grosseira, no julgar de dona Anastácia, para fora da janela. Vez ou outra acontece de Bonifácio acertar sua escarrada nos galináceos do terreiro. O que causa alvoroço ainda maior já que o animal atingido passa a ser vítima de perseguição frenética dos outros que a esta altura já anseiam famintos pelo café da manhã. Quando enfim o estado de espírito matinal de Bonifácio já contagiou dona Anastácia esta resolve enfim sair também da cama e dirigir-se à cozinha. Somente depois que a água estiver fervendo na chaleira e que Bonifácio tiver sorvido o primeiro gole escaldante de chimarrão é que Dona Anastácia poderá cumprir com suas funções renais e de higiene pessoal no banheiro. Algo que Bonifácio, se lembrar de faze-lo, só o fará horas mais tarde, quando compelido pela água do mate que abasteceu sua bexiga. Bonifácio mal deitara de lado a cuia de chimarrão, satisfeito depois de uma chaleira inteira de água quente dividida com dona Anastácia, quando avistaram Euclides saindo de casa. Julgavam o vizinho como um sujeito bastante antipático. Ele jamais os cumprimentava, muito embora os visse todas as manhãs. Mesmo aos sábados e domingos, quando Euclides comparecia religiosamente ao escritório que mantinha no centro da cidade. Depois da terceira curva morro abaixo o vizinho desaparecia em meio ao nevoeiro, como se sua matéria se dissipasse evaporando para a atmosfera. Algo que Bonifácio e Anastácia traduziam mais ou menos assim. “Pronto, o home evaporo de novo”. Neste dia Anastácia perguntou a Bonifácio se deviam contar ao vizinho que sua esposa recebia visitas do encanador diariamente. “Não vai adiantar de nada, do jeito que o home é mole, não vai resolver de nada essa poucasemvergonhança. To bão de dar um jeito é eu mesmo nesse desfrute onde já se viu a mulhé faze uma coisa destas com um cabra que trabalha até em dia santo para colocar o feijão na mesa!” Dona Anastácia já estava acostumada com os blefes de seu marido. No entanto mais tarde quando a polícia bateu à sua porta perguntando pelo paradeiro de seu esposo, seus lábios trêmulos não souberam responder.

Euclides - IV -

É madrugada. Por horas, Euclides apenas ouve as histórias que lhe contam. Nas ruas das cidades, e debaixo de suas pontes, viadutos, e nos bancos de suas praças, há  muito mais filosofia do que supõem nossos preconceitos vãos. Pensa em confidenciar este pensamento que de alguma forma remete a Shakeaspeare. Porem mesmo ali acha Shakeaspeare pedante demais. Em parte também pela distância da frase original, algo que sua imaginação ébria àquela altura não consegue remediar por mais que se esforce. Impressionava-lhe o grau de normalidade que continha o cotidiano da vida na rua. Mesmo para aqueles que pelos mais variados dribles do destino passavam a viver de certa forma à margem do sistema, o cotidiano, os ciclos vitais continuavam a ser os mesmos. Neste momento, nada é mais impressionante para Euclides do que essa descoberta.  Por anos, observara de longe essas figuras, que por vezes pareciam ter sido pintadas para marginalizar um pouco o cenário. Para dar-lhe um aspecto mais realista. “Ora esta é a realidade pensava sempre consigo”. Mas nunca avançou para além desta constatação. Jamais dera a nenhum mendigo, como então se referia as estas pessoas, mais do que um olhar que durasse no máximo 3 segundos. Três segundos. Sem saber porque, sem nunca ter cronometrado esse tempo Euclides lembrou dele agora. Pensou no que seria possível fazer em três segundos. Pensou se tivera dado a todos eles, se somado todo o tempo, algo que chegasse a um minuto. Não. Euclides jamais ter-lhes ia dispensado um minuto inteiro, com todos os seus sessenta segundos. No entanto, agora chamavam-lhe a atenção. Perguntavam-lhe, quais eram as razões para que seus olhos se enchessem de lágrimas. A conversa cessara havia algum tempo. O silêncio de Euclides despertara a atenção dos outros. Seu silêncio. Quantas vezes sentira-se irritado com a insistência dalgum maltrapilho a contar-lhe seus problemas. A pedir-lhe um mínimo de atenção. No entanto, mais uma vez não teve forças, ou coragem para dizer nada. Permaneceu mudo durante ainda algum tempo. Fitou cada um daqueles homens. Fitou cada olhar. Por muito mais que três segundos. Ainda mudo Euclides busca levantar-se. Seus sentidos estão sob efeito etílico, e mesmo que seus braços fracos queiram evitar, dois daqueles seres humanos das sarjetas, sustentam seu peso e impedem-lhe que caia. Euclides repele a ajuda. Cambaleante distancia-se daqueles homens. São como anjos. Pensa consigo. Estiveram sempre aqui. E nunca dei-lhes pela existência.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Senado Aprova projeto que proíbe doações de empresas à campanhas eleitorais

O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Vital do Rêgo (PMDB-PB), confirmou nesta quarta-feira (16) a aprovação do projeto de lei que proíbe a doação de recursos de empresas para financiamento de campanhas eleitorais. A proposta, que já havia sido aprovada pelo colegiado há duas semanas, foi submetida a turno suplementar nesta quarta.
Como a decisão tem caráter terminativo, o texto seguirá para a Câmara dos Deputados, sem a necessidade de ser apreciado pelo plenário do Senado – a não ser que algum senador apresente recurso, em um prazo de cinco dias, pedindo que a matéria seja encaminhada ao plenário da Casa.
No mesmo dia em que os integrantes da CCJ do Senado deram a admissibilidade ao projeto, no último dia 2, o Supremo Tribunal Federal retomou o julgamento que irá definir se empresas podem fazer doações em processos eleitorais.
Na ocasião, a maioria dos ministros se posicionou contra as doações da iniciativa privada a partidos políticos e campanhas eleitorais. A decisão final, no entanto, foi adiada porque o ministro Gilmar Mendes pediu vista (mais tempo para analisar o tema).
Outra alteração proposta pelo projeto de lei prevê a revogação do artigo 81 da mesma lei, que permite doações aos comitês financeiros dos partidos ou coligações, com contribuição limitada a 2% do faturamento bruto das empresas doadoras no ano anterior à eleição.O texto avalizado pela CCJ do Senado propõe alteração no inciso VII, do artigo 24, da lei n° 9504/97. O norma em vigor proíbe a doação de pessoas jurídicas sem fins lucrativos que receba recursos do exterior. No entanto, a proposta discutida atualmente pelos congressistas pretende impedir que empresas de qualquer natureza e finalidade financiem campanhas eleitorais.
Para o relator da proposta, senador Roberto Requião (PMDB-PR), o custo das eleições faz com que candidatos e partidos procurem financiadores privados para as campanhas, o que, segundo ele, provoca “a proliferação de casos de corrupção e de abuso do poder econômico”.
Fonte: http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/04/projeto-que-proibe-empresas-de-doarem-em-eleicoes-vai-para-camara.html
Conteúdo também aqui: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/04/1441496-senado-acaba-com-doacao-de-empresas-em-campanhas-eleitorais.shtml

terça-feira, 15 de abril de 2014

Um certo Euclides

Dentre as três opções que se lhe apresentavam Euclides, é claro, optou pela menos fácil.
Ele jamais percorreria a distancia entre dois pontos em linha reta. Assim não havia qualquer trajeto curto o bastante, que não pudesse ser alongado. Não havia questão simples o suficiente, à qual não pudesse impor uma variável complicadora. Uma vez tomada a decisão que mudaria definitivamente sua vida Euclides abandonou seu escritório invadindo a rua. Pessimista como era, não esperava que aquela manhã chuvosa de junho se convertesse naquela tarde radiante, por este motivo conservava o guarda chuva ainda úmido em uma das mão enquanto a outra empunhava a surrada bolsa que transportava os papeis e processos do escritório. Depois de vencer a pé o trajeto entre o trabalho e sua casa, aproximadamente  onze quilômetros,  dez minutos de carro, mais de uma hora de caminhada, metade do trajeto morro acima, Euclides sentou-se em uma pedra e pôs-se a pensar: “Devo entrar pela porta da frente, pela porta dos fundos, ou devo pular uma das janelas”. Nenhuma das três, a mente brilhante de Euclides ofereceu-lhe ainda uma quarta alternativa, foi assim que seus curiosos vizinhos passaram a acompanhar, pela fresta aberta na cortina, sua escalada rumo ao telhado da casa. Quando ele pulou do galho do pessegueiro que se estendia sobre a casa, Bonifácio, seu vizinho, aposentado por invalidez pela Previdência Social por obra de uma ação manejada por Euclides na Justiça, apostou com a esposa, dona Anastácia, que ele cairia, e que certamente fraturaria a clavícula. Dona Anastácia dobrou a aposta afirmando que ele ficaria “tretaplégio”. Para a infelicidade de ambos Euclides executou com maestria o seu plano e em poucos segundos já havia removido as telhas e agora enfiava-se pelo buraco aberto no telhado saindo do campo de visão de seus vizinhos, motivo por que, mais tarde, quando perguntados, pelo Delegada da Comarca, Dra. Jurema Wulf, não souberam dizer, com exatidão, embora imaginassem, o que fazia Dona Eulália, esposa de Euclides com Darci, encanador, naquela tórrida tarde em sua casa. Euclides fugiu para o México, dizem alguns. Outros afirmam com veêmencia que ele continuou na cidade por um tempo, vivendo embaixo das pontes, irreconhecível, mas que depois a Prefeitura fez uma campanha de “limpeza” e ele foi mandado para o Paraná como indigente. Seu Bonifácio e dona Anastácia apostam com qualquer um que Euclides está disfarçado na cidade, e que deve lançar-se, segundo consta, a vereador nas próximas eleições.

II

Não era dificil adivinhar o que ocorreria naquela tarde. Logo depois de abandonar mais cedo  o escritório e flagar sua esposa transando com o encanador em cima da pia que vivia quebrada, todos só poderiam supor que ele matara os dois. Não foi o que aconteceu. Quando o viram entrando pela abertura que abrira no telhado, os dois amantes tomaram susto tal que se desequilibraram. Na queda, a pia, que já andava mal, veio abaixo, e é difícil explicar como, mas a gaveta dos talheres abriu-se e as facas que aí estavam acabaram ferindo mortalmente tanto ao encanador quanto à esposa de Euclides. Deparando-se com aquela situação, Euclides não perdeu a calma. Raciocinou que seria impossível convencer os jurados de que aquilo efetivamente tinha acontecido. E que a condenação por homicídio duplo qualificado pelas várias facadas desferidas (com lâminas diferentes, e garfadas inclusive) seria inafastável. Mas Euclides sempre fora um homem estritamente racional, frio, calculista. Bem, a pá estava atrás do galinheiro, de lá certamente seria visto pelos vizinhos, o que a essa hora não seria nada bom. De qualquer forma, tinha a impressão de ter visto qualquer movimento na cortina da janela da casa ao lado, o que denunciava que seus vizinhos provavelmente estavam espreitando pela fresta, como de costume, quando subiu ao telhado. Nesse caso, certamente sabiam que estavam na casa naquele momento: o encanador, ele e sua esposa. De qualquer modo embora pudessem supor o que se passava no interior da casa, não poderiam, pelo menos por enquanto, afirmar nada de concreto. Enquanto desencadeava esse raciocínio frio e lógico Euclides permanecia sentado na cadeira da cozinha, tamborilando os dedos sobre a mesa, esperando pela fervura da água para que pudesse tomar o seu chá de erva cidreira. Dona Anastácia estranhou a mancha vermelha na barra do paletó de Euclides quando este apareceu na sua porta solicitando autorização para colher no seu quintal umas folhas de erva cidreira para preparar um chá para sua esposa, que,  pelo que pode entender de sua fala atropelada, estava se sentindo um pouco mal devido a certos produtos químicos empregados pelo encanador para desentupir os canos da pia. Ainda comentou com seu Bonifácio, quando viram sumir na última curva, a passos ébrios, Euclides ao meio, abraçado com o encanador e sua esposa,  que o mundo de fato andava pelo avesso. Como podiam estes jovens fazerem tanta “vagabundagem” em plena luz do dia, e ainda virem conversar com os vizinhos na maior cara de pau. – “Eu devia ter lhes dado era um chá de boldo.”

- III - 

Quando acordou pela manhã Euclides não abriu os dois olhos simultaneamente. Deixou-se ficar de olhos fechados por alguns momentos sentindo a consciência despertar aos poucos dos sonhos agitados que tivera naquela noite. Calculou em pensamento dezessete minutos como o tempo necessário para recobrar suficientemente sua consciência. Tempo que uma vez decorrido autorizaria a abertura suave do olho esquerdo. Justamente aquele voltado para o lado contrário em que sua esposa dormia, ou seja, para o lado da parede. Depois de ter  escrutinado o território visível ao alcance de seu olho esquerdo Euclides finalmente sentiu-se seguro para permitir que a luz matinal penetrasse também em seu olho direito. Abriu-o, não suave, desta vez, mas, bruscamente. Neste mesmo momento sua esposa levantou-se sobressaltada, como que emergindo de um mergulho profundo. Não assustara-se com a abetura repentina do olho direito de Euclides, como podeis supor. Mas com os sonhos que agitavam seu inconsciente. Eustáquia, era a filha mais nova de uma família com 27 irmãs. Conhecera Euclides no casamento de uma de suas irmãs, e a paixão fora fulminante. Euclides na época relutou em abandonar o sacerdócio, entretanto, foi impossível resistir à tentação que para si significava Eustáquia, sobretudo quando a jovem moça passou a vir diariamente ao confissionário penitenciar-se por estar apaixonada pelo sacristão recém ordenado. Fato que se agravava considerando que o confissionário era apenas um dos bancos da igreja, no qual sentavam-se frente a frente - sem nenhuma proteção - o pecador e o absolvidor. Fato agravado ainda pelas vestes sensuais das quais não relutava em abrir mão a despudorada Eustáquia. Euclides mastigou o pão seco do café da manhã e rumou para o escritório sem saber quais foram os sonhos que despertaram tão adruptamente sua esposa de seu inocente sono. Mais tarde quando tomou o corpo ensangüentado de sua esposa nos braços talvez tivesse tido importância conhecer o teor de suas aflições. Contudo, prático como era, Euclides não atinou para isso, despiu pela última vez o corpo tênue de Eustáquia e procurou livrar-lhe das manchas de sangue, que maculavam sua alvura. Se tivesse feito o curso de especialização em medicina legal na faculdade de direito, certamente não teria lhe passado desapercebido que depois de limpar todo o sangue de Eustáquia não restara nenhum ferimento visível. Por esta razão Euclides ficou feliz em poder envolver o corpo tênue e alvo de sua amada pelo menos desta vez com o vestido florido que dera-lhe no natal passado e que ela nunca havia usado. Dona Anastácia ainda comentou com seu Bonifácio antes que os três sumissem de suas vistas para sempre: Olha meu velho, que esta é a primeira vez que vejo essa sem vergonha com uma roupa que esconda sua bunda!


 -  XIII - 

Euclides agora está sentado sobre os trilhos do trem. Mede com os olhos a distância entre si e a s pessoas que ao longe conversam. Parecem felizes. Parecem realmente felizes. Parecem. Euclides leva aos lábios vermelhos o gargalo da garrafa de vinho que traz envolta em um saco de pão.Mais alguns goles e estará vazia. A escuridão da noite é rompida algumas vezes pelos veículos que cruzam a Av. Marechal. Poucos a esta hora da
madrugada. Algumas imagens, reflexos de outros tempos, projetam-se em algum ponto incerto da cabeça de Euclides. Impulsos elétricos disparados entre os neurônios. Como naquelas nas noites em que depois do reboar das trovoadas, estalam no negrume do céu, improvisando traçados incertos. As imagens, aquelas primeiras, antes da comparação com os relâmpagos que iluminavam o céu de outrora, já não conservam a mesma nitidez. São fotos velhas, amarelecidas pelo tempo, que no poço profundo dos pensamentos se misturam à outras, distorcendo a realidade, criando novas lembranças no imaginário. São fatos novos, criados por uma mente cansada. Que se alimenta do passado, para recriar, o que poderia ter sido. Euclides, o que você fará da sua vida rapaz, ou do que resta dela. A esta pergunta, Euclides não obterá já a resposta, conservemo-la, nós que a conhecemos, para o futuro. Neste momento, enquanto cuidávamos de prescrutar seus pensamentos, Euclides, movido sabe-se lá por quais motivos resolveu levantar dos trilhos. A passos curtos, do tamanho da distância entre dois dormentes, ele segue acompanhando o sentido dos trilhos em direção ao centro da cidade. Deve amanhecer daqui a pouco. E a menos que queira se juntar aos maltrapilhos que fedem na calçada impedindo a felicidade dos cidadãos que pagam em dia seus impostos, trabalham 48 horas semanais e sabem que receberão o 13° salário para quitar suas dívidas contraídas nas lojas que se amontoam ao longo das ruas quentes da cidade, deve procurar um Hotel barato para passar os próximos dias. Na recepção informam-lhe o preço da diária. E cobram adiantado. Fato que Euclides atribui ao seu estado deplorável. Próprio de um homem ébrio, que não dorme nem se banha há mais de 3 dias. Com a barba feita, e os cabelos alinhados a imagem no espelho torna-se um pouco mais tolerável. Diferente do que vira há pouco refletido nas vitrines. Mas o sono parece ter-lhe abandonado por completo. Não há mais nada a fazer nesta cidade.