quinta-feira, 20 de março de 2014
segunda-feira, 17 de março de 2014
A fatura não está paga
Por: Jeison Giovani Heiler
Uma nota
de dinheiro
Meu senhor!
de dinheiro
Meu senhor!
e prometo
comportar-me
como um idiota
Dê-me apenas
Uma nota
Uma nota
do seu dinheiro
Saio das calçadas
Não conto
que dormes c'a
empregada
Esqueço os seus
segredos
posso ser o seu
brinquedo
Aprovo o seu projeto
"Esquento"
os teus negócios
e nem vais precisar
me chamar
para ser teu sócio
Uma nota de dinheiro!
Meu senhor
É apenas uma nota
Engraxo a tua bota
Me lambuzo por inteiro
E se for da cota
dos bixeiros
essa nota de dinheiro
não esqueça:
mendigo,
analfabeto,
não vota
não bota
areia no angu
não arrota caviar
só come ova de urubu
não bota
areia no angu
não arrota caviar
só come ova de urubu
Não chamemos de
propina
É dinheiro da latrina
Grana pega na surdina
Apenas uma nota de
dinheiro
Não me acuse de extorsão
é dinheiro para o pão
pra cachaça e se der
pago também o meu
feijão
Meu senhor de finos
vinhos
Meu Senhor de terno
tenro
Do terno trato
Não quero teu retrato
Quero apenas
uma nota
rota do teu dinheiro
Dê-me logo essa nota
Posso engolir: um
sapo
Posso enforcar:
rebeldes
Posso fingir: orgasmo
Posso lamber: a lata
Posso chover: marasmo
Posso romper: o
acordo
Posso bancar: o asno
Posso foder: de novo
Posso entornar: o
balde
Posso engrossar: o
caldo
Posso meter: a pica
Posso jurar: verdades
Posso meter: a pica
Posso jurar: verdades
Posso descer: a ripa
Posso tocar: um tango
Posso bancar: a xita
Posso tocar: um tango
Posso bancar: a xita
Basta, senhor de
finos modos
Que se digne a pagar:
o preço!!!!
A fatura não está
paga
digno senhor
digna senhora
mãos pra o alto
não é um assalto
é a cobrança da
dívida!
- setembro/2002 -
sexta-feira, 7 de março de 2014
De Collor ao mensalão Tese analisa crises políticas à luz de mudanças ocorridas no interior do neoliberalismo
Danilo Enrico Martuscelli é autor da tese de doutorado intitulada “Crises políticas e capitalismo neoliberal no Brasil”, na qual analisa as crises do governo Collor em 1992 e do partido do governo (PT) em 2005. A originalidade da tese – orientada pelo professor Armando Boito Jr. e apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) – está em procurar interpretar essas crises à luz dos conflitos de classe e das mudanças no desenvolvimento capitalista no Brasil.
“São escassas as análises mais profundas sobre as crises políticas recentes no país. Há muitos textos de conjuntura, feitos no calor dos acontecimentos, mas os trabalhos mais sistemáticos sobre o tema praticamente inexistem”, afirma Martuscelli, que tem graduação em ciências sociais e mestrado e doutorado em ciência política pela Unicamp. “Na tese, busco compreender essas crises a partir dos processos de transição ao neoliberalismo no país e de reformas no interior deste modelo”.
De acordo com o autor, diferentemente das abordagens macrossociais, macropolíticas e macro-históricas das crises de 1930, 1954 e 1964, as análises das crises de 1992 e 2005 geralmente caem em certa “fulanização” da política, em um tipo de crônica do cotidiano que se apega à descrição dos fatos e aos traços psicológicos dos agentes envolvidos.
Na visão de Martuscelli, uma das explicações para essa ruptura na produção histórico-sociológica diz respeito ao impacto político e social das crises anteriores em comparação com as recentes. “As crises de 30, 54 e 64 criaram, respectivamente, as bases para o desenvolvimento do processo de industrialização no país, para a crise do populismo e para o estabelecimento do regime ditatorial. Já a deposição de Collor não resultou no fim da política neoliberal nem colocou em xeque o regime democrático constituído a partir de meados dos anos 80. A crise do partido do governo, em 2005, não logrou afastar o PT do poder federal nem pôr em questão as estruturas do capitalismo neoliberal.”
O pesquisador observa que, a partir do final dos anos 1990, registra-se um processo de desgaste do neoliberalismo, surgindo, assim, grupos interessados em reformar este modelo. “Há um movimento de classes, ainda sem condições de superar o neoliberalismo, mas que pretende criar, nas franjas deste modelo, um tipo de política que contemple seus interesses. É esse tipo de explicação que, a meu ver, não aparece de maneira clara no debate. A explicação da relação dessas crises políticas com o desenvolvimento capitalista e com o conflito de classes é o aspecto teórico importante e original da tese.”
Embora concorde que o distanciamento histórico é fundamental para compreender melhor todas as variáveis de um fenômeno, o cientista político argumenta que é necessário começar um trabalho mais sistemático sobre as crises recentes e que sua pesquisa cumpre um pouco tal função. “Quanto ao impeachment de Collor, já há certo distanciamento que permite enxergar um processo de mudanças ocorrendo na política brasileira. No caso da crise de 2005, ainda temos efeitos presentes na atual conjuntura, como as prisões de José Dirceu, José Genoíno e outros réus do mensalão. A crise, em si, já foi superada enquanto fenômeno, mas questões envolvendo os dois blocos que vêm hegemonizando as eleições (PT e PSDB) ainda são relevantes para pensar a disputa política no país.”
“As dores do parto”
Caracterizando a crise de 1992 como resultante das “dores do parto” da transição ao neoliberalismo, Martuscelli relembra o contexto do final dos 80 e começo dos 90, em que ocorreram várias experiências de transição ao neoliberalismo em nível mundial. “Isso significou transitar para um modelo de capitalismo ancorado nas políticas de privatização, abertura econômica, desregulamentação do mercado de trabalho e redução de direitos sociais – modelo que interessava à burguesia financeira internacional. Por outro lado, vimos a resistência de setores da burguesia brasileira, como dos industriais reclamando do timing da política de abertura comercial introduzida por Collor – abertura que apoiavam, mas não da ‘forma escancarada’ como vinha sendo implementada.”
Na avaliação do pesquisador, a conjuntura é diferente no começo dos 2000, quando a resistência às mudanças na política neoliberal passa a provir da burguesia financeira internacional, preocupada, inclusive, com a eleição de Lula. “A escolha de Palocci para a Fazenda e de Meirelles para o Banco Central serviu para dar-lhes alento. Mas a burguesia interna – que possui relação de contradição e dependência em relação ao capital estrangeiro e é representada por setores da indústria, do agronegócio e dos bancos nacionais – acabou construindo uma frente política com setores dos trabalhadores organizados, visando pressionar o governo a adotar políticas de incentivo à produção industrial, à geração de empregos e ao aumento de salários, e que garantissem maior participação do Estado nos rumos da economia brasileira.”
Martuscelli lembra ainda do fracasso da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), cuja implementação interessava aos EUA; do declínio da taxa de juros, que contraria o interesse dos bancos estrangeiros e nacionais; e da mudança de perfil de financiamento do BNDES, que passou a privilegiar a indústria e a construção civil. “Temos a confluência de uma frente política que ainda é incapaz de tomar o leme da política estatal, mas que procura conquistar maior espaço na política nacional. Para mim, a queda de Palocci, em 2006, não teve a ver apenas com o escândalo do lixo em Ribeirão Preto, mas sobretudo se relaciona com essas pressões da burguesia interna por mudanças na política estatal, sendo a troca deste por Mantega um reflexo desse movimento.”
Financiamento de campanha
O autor do estudo destaca que, em nenhum momento da crise, a grande burguesia interna cogitou a possibilidade do impeachment de Lula, tendo, inclusive, prestado apoio ao governo – o que não aconteceu com Collor, que foi se isolando progressivamente. “Pouco antes da denúncia de Duda Mendonça em relação ao caixa 2, Lula se reuniu com grandes empresários e recebeu uma carta das seis principais confederações patronais, apontando a necessidade da redução dos juros, da ampliação da participação do Estado na economia e da reforma política.”
O cientista político afirma ainda que a convergência entre governo e grande burguesia interna se expressou mais claramente na questão dos financiamentos de campanha. “Em 2002, a campanha de Lula havia recebido R$ 27,9 milhões e a de Serra, R$ 27,8 milhões. Já em 2006, Lula recebeu R$ 75 milhões e Geraldo Alckmin, R$ 45,78 milhões. Na tese indico o perfil dessas contribuições, aparecendo, no caso de Lula, o setor de construção civil em primeiro lugar, seguido do setor financeiro. Justamente esses dois setores é que mais iriam lucrar nos anos seguintes: há um fortalecimento da construção civil com a Copa do Mundo, Olimpíada, PAC e Minha Casa, Minha Vida, enquanto que os bancos nacionais passam a obter lucros muito superiores aos registrados no governo FHC.”
Sobre a reeleição de Lula em 2006, Martuscelli entra em debate com o também cientista político André Singer – que integrou a banca e sustenta a tese do realinhamento eleitoral nesta eleição, na qual o subproletariado (representado pelos setores beneficiados por políticas como Bolsa Família, Luz para Todos, crédito consignado e também pelo aumento do salário mínimo) teria se deslocado do bloco hegemonizado pelo PSDB para o PT; por outro lado, a candidatura de Lula teria se distanciado da classe média, fração de classe historicamente vinculada ao PT.
“Considero que o realinhamento eleitoral é um processo importantíssimo para explicar as mudanças, especialmente no segundo governo Lula”, admite o autor da tese. “Mas o realinhamento mais importante é o político, que aconteceu no seio da burguesia, ou seja: o governo do PT passou a fortalecer os interesses da grande burguesia interna, que consegue amplos financiamentos do BNDES, faz a defesa da queda da taxa de juros e, ao mesmo tempo, consegue promover ações conjuntas com o movimento sindical (o que estava fora do script político do início dos 90).”
A ressalva do pesquisador à análise de Singer, portanto, é a de que o realinhamento não se restringiu à aproximação do PT com o subproletariado – o que teria garantido a reeleição de Lula. “Existem, inclusive, outros realinhamentos, como a aproximação da Força Sindical com a CUT, e, a partir da crise de 2005, o fortalecimento da aliança do governo Lula com o PMDB. Ressalte-se, inclusive, o fato de Lula não ter sofrido risco de impeachment. Não havia isolamento político e, sim, o interesse de representantes da grande burguesia interna em apoiá-lo – aspecto que não é observado por muitas análises.”
Perspectivas de pesquisa
Atualmente lecionando na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Chapecó (SC), Martuscelli já visualiza alguns temas para trabalhar em suas próximas pesquisas, como a comparação da crise política de 2005 no Brasil com as crises na Argentina de 2001 e 2008 – todas elas relacionadas com o processo de desgaste do neoliberalismo. “Vejo correlações interessantes, como o fato de que tanto aqui como lá, observadas algumas diferenças importantes, terem ocorrido processos de reformas, e não de superação do modelo neoliberal.”
Outro eixo possível de pesquisa está na realização de uma análise comparativa do papel das denúncias de corrupção nas crises de 1930, 1954, 1964, 1992 e 2005. “Por que surgem as denúncias? Em 1930, temos a crítica aos ‘carcomidos da República Velha’. Em 1954, a crítica udenista ao ‘mar de lama do Catete’. E, em 1964, a crítica conservadora à ‘República dos Sindicalistas’, que estaria sendo supostamente formada no governo Jango. As denúncias de corrupção também aparecem em 1992 e 2005 como analisamos na tese. Para mim, importa avaliar os efeitos dessas denúncias no processo político e sua relação com as crises políticas e os conflitos de classe. Esta é outra questão que ainda não foi analisada de maneira satisfatória.”
quinta-feira, 6 de março de 2014
Como seria se tivesse um pênis dourado?
Por Jeison Giovani Heiler*
Ser mulher deve ser uma
experiência fantástica. Não à toa tantos e tantos queiram ver as coisas sob
este ângulo ontolôgico do ser. Mas a sociedade, assim compreendidos todos que
fazemos parte da sociedade, incluindo eu mesmo, apesar de todos os discursos
não temos compreendido bem o sentido [ontológico de ser mulher. É preciso fazer
um esforço enorme para compreender certas questões do gênero, olhando apenas do
lado de cá das coisas. Por isso convido aos macho-alfa, todos que assim como
eu, indivíduos portadores do sexo fálico, a imaginar o seguinte: e se
tivéssemos este sexo recoberto de ouro puro? É, e se o pênis além do prepúcio
tivesse uma espécie de capinha de ouro de onde saltasse impávido para o ato
sexual?
Pode ser, [não há
garantias de que se possa competir com as vaginas] que isso fizesse do sexo,
algo mais que meramente um sexo, ou um difusor ontológico de identidade, o que
já é um problema em si nas sociedades burguesas-conservadoras. Isso traria ao
sexo, propriedades que ultrapassam sua função reprodutiva. O sexo
converter-se-ia em um objeto, adorado e perseguido com ganas fora do comum. Em
uma palavra o órgão sexual sentiria na pele, com perdão do trocadilho, o
resultado do processo de conversão de sexo à fetiche.
Muito desejado, este
objeto atrairia comentários dos mais brilhantes ao mais grosseiros. Andar pelas
ruas, deixaria de ser ato banal para converter-se num exercício perene de
esquivas, de olhares, cantadas e da cobiça alheia despudorada, e absolutamente
trivial, porque, afinal, se alguém não
desejar ardentemente um objeto fálico dourado é porque não é dotado de sã
consciência e só pode ser detentor de alguma espécie ou tipo de distúrbio
social, passível, inclusive, de tratamento, na avaliação de alguns.
Mas esse seria ainda o
menor dos inconvenientes. Imaginemos que nas entranhas do ventre macho, ligadas
ao membro dourado, estivessem, as trompas de falópio, os ovários e algo que
chamaríamos de [útero. Com uma serie de
outros órgãos e glândulas que vamos omitir para não fazer deste breve
ensaio um relatório anatômico feminino [agora masculino, que em resumo, tornariam possível,
sabe-se lá por que espécie de milagre, a vida.
O primeiro
inconveniente já pode ser adivinhado e consistiria em um sangramento que teimaria em
se repetir em ciclos mensais mais ou menos regulares. Nestes períodos, o objeto
fálico poderia adquirir colorações e odores que, apesar da sugestão contrária, não
deixaria de atrair o desejo carnal do sexo oposto. Em algumas ocasiões este
ciclo torrencial de sangue rubro escuro poderia cessar, dando lugar a nove meses
de crescimento abdominal, que poderia levar o homem a quase [triplicar] a sua
circunferência abdominal. Mero incômodo. Que, segundo a legislação vigente, a
esta altura produzida por um plêiade de fêmeas insensíveis, não seria óbice para a
continuidade de tarefas comuns como esfregar a louça sanitária e manter uma
jornada de [quarenta e quatro horas] de trabalho semanais.
Ocorre, que por ser
portador de um órgão sexual tão pujante e desejado, os homens já não poderiam
simplesmente existir. Assim, simplesmente ou, naturalmente. Ao homem seria
necessário e urgente todo o tipo de produção, maquilagens, cremes, loções,
perfumes, tinturas e pinturas das mais várias ao nível infinito da criatividade
humana. Artificialização esta que seria aproveitada sempre que a conveniência e
as peças publicitárias de cervejas ou quaisquer outros artigos de uso
majoritariamente feminino julgarem oportuno.
Desejado como uma
vitela num poço de leões famintos ou como a água no deserto, contudo, não seria
dado ao homem entregar-se às "futilidades da vida fácil". Nem
tampouco seria ele o senhor único e exclusive de suas vontades. Descrição no
comportamento, e decoro na escolha de suas companhias e dos lugares a
frequentar seriam sempre exigências mínimas ao homem honesto e de família. Sua
vida sexual, ou o uso que daria a seu objeto fálico dourado então seria alvo de
intenso, e ardente controle social. Aqueles que atreverem a darem-no facilmente
pelas esquinas ou pelas ruas e becos mal frequentados haverá de restar como
certa a morte social. A exclusão das rodas de gente honesta e da possibilidades
de bem casar. A eles estarão reservadas as letras musicais e os cantos de Geni,
aquela boa de cuspir.
Uma vez que nas suas
entranhas instaure-se a vida em tão ciosas circunstâncias, haverá aquela
sociedade de rotular esse pungente ser de "filho de puto". Um dos mais
infames epítetos que poderia ser dado a qualquer indivíduo desta sociedade. Daí
em diante, a tragédia social haveria de expandir sua garganta e exibir seus
dentes. A vida deste sujeito portador de sexo fálico dourado dividir-se ia em
trabalhar as quarenta e quatro horas semanais e alimentar seu rebento, sem
esquecer de todas as exigências sociais anteriores ainda em vigor e que não
revogam-se mas multiplicam-se a cada dia, tanto quanto mais completo e perfeito
o processo de fetichização do orgão sexual em mercadoria.
O autor é
bacharel em Direito (CATOLICA SC), mestre em Sociologia Política (UFSC) e
doutorando em Ciência Política (UNICAMP) é co-autor de duas coletâneas de
poesia - "Prosa e verso volume II" (2003) e "Prosa e Verso volume
III" (2004) - editadas pela Editora Nova Letra de Blumenau e de uma coletânea
de contos "Contos Jaraguaenses: Trinta escritores, trinta contos"
(2007), editada pela Editora Design de Jaraguá do Sul. É autor de livro
"Democracia o Jogo das incertezas" editado pela Nova Editora
Acadêmica (2014) e co-autor e organizador do Livro "Doze anos dúzias de
histórias" (2013) editado pela Prefeitura Municipal de Jaraguá do Sul.
Socialistas e a emancipação da mulher
Por Augusto Buonicore
Ao contrário dos liberais-burgueses, os principais socialistas utópicos foram bastante sensíveis ao problema da emancipação das mulheres. Saint-Simon (1760-1825), na sua Exposição da Doutrina, escreveu: “Nós teremos que mostrar como a mulher, primeiro escrava, ou pelo menos em uma condição que se avizinha da servidão, se associa ao homem e adquire cada dia maior influência na ordem social e como as causas que determinam até aqui sua subalternidade estão se enfraquecendo sucessivamente, devendo enfim desaparecer e levar com elas esta dominação, esta tutela, esta eterna minoridade que ainda se impõem às mulheres e que seriam incompatíveis com o estado social do futuro que prevemos”.
Mas, sem dúvida, foi Fourier (1772-1837) que levou mais longe as formulações feministas. Entre outras coisas, argumentou que a “mudança de uma época histórica sempre se deixa determinar em função do progresso das mulheres em relação à liberdade, porque é aqui, na relação da mulher com o homem (...) que aparece de maneira mais evidente a vitória da natureza humana sobre a brutalidade. O grau de emancipação da mulher é a medida natural do grau de emancipação geral”. E, continuou, “ninguém fica mais profundamente punido do que o homem quando a mulher é mantida na escravidão”.
Infelizmente nem todos os socialistas foram favoráveis a conceder direitos políticos e sociais às mulheres. Dentro da esquerda talvez tenha sido Proudhon (1809-1865), o pai do anarquismo, aquele que mais se colocou contra as reivindicações femininas. Para ele a mulher era, sob todos os aspectos, inferior ao homem. Inclusive tentou expressar essa inferioridade em porcentagens pseudo-científicas. Pelos seus cálculos a mulher possuía apenas 8/27 da capacidade masculina.
Segundo Evelyne Sullerot, Proudhon chegou ao absurdo de “pregar uma seleção genética que permitisse eliminar as esposas más e formar uma raça de boas esposas disciplinadas, como se formava uma raça de boas vacas leiteiras. Aspirava a uma legislação que desse ao marido o direito de vida e de morte sobre sua mulher”. As idéias preconceituosas de Proudhon fariam carreira no movimento operário europeu.
Flora Tristan: feminismo e luta operária
Flora Tristan (1803-1844) foi uma das primeiras a compreender a íntima relação existente entre a emancipação dos trabalhadores e a emancipação das mulheres. Ela pode ser considerada uma socialista da fase de transição entre o utopismo e o marxismo. Ao contrário dos utópicos e antecipando-se à Marx e Engels, Flora via no proletariado o agente principal das transformações sociais e por isso mesmo gastou boa parte de sua vida tentando organizá-lo. Nisso residia sua originalidade.
Ela viajou para Inglaterra várias vezes e, em 1840, publicou “Um passeio por Londres”, onde descreveu a situação dos trabalhadores pobres e defendeu as prostitutas, o divórcio e direitos iguais para homens e mulheres. Em 1843 Flora publicou a obra "União Operária", defendendo a formação de uma poderosa organização de trabalhadores, que congregasse indistintamente, homens e mulheres, como instrumento de luta por melhores condições de vida e de transformação revolucionária da sociedade capitalista. Entre suas bandeiras estava o direito pleno à educação, direito de escolha do marido, direito ao divórcio, igualdade das mães solteiras e filhos ilegítimos diante das leis.
Na sua obra ela afirmou: “Mesmo o homem mais oprimido pode oprimir outro ser, que é sua própria mulher. A mulher é a proletária do homem”. Por isso conclamou: “Trabalhadores, em 1791 vossos pais proclamaram a imortal declaração dos Direitos do Homem, e graças aquela solene declaração sois homens livres e iguais perante a lei (...) O que toca a vocês fazerem agora é libertar aos últimos escravos que existem na França, proclame os Direitos da Mulher e empregando os mesmos termos que empregaram vossos pais digam: ‘nós, o proletariado da França (...) decidimos incluir em nossa Carta os direitos sagrados e inalienáveis da mulher’.”
Com seu livro nas mãos ela viajou por toda França propagando suas idéias. Ela buscava também convencer os trabalhadores que a manutenção das mulheres numa condição de indigência dificultava a sua própria luta contra os patrões e o governo. A ignorância das mulheres do povo, escreveu, “tem conseqüências funestas. Sustento que a emancipação dos operários é impossível se as mulheres permanecerem neste estado de embrutecimento”.
Numa carta escrita em 1844 a um amigo, o socialisto utópico Considérant, ela afirmou um tanto desolada: “Tenho quase todo mundo contra mim. Os homens porque peço a emancipação da mulher; os proprietários, porque reclamo a emancipação dos assalariados”. Flora morreu logo em seguida com apenas 41 anos de idade. O seu corpo não resistiu ao ritmo de trabalho que ela mesmo se impôs. Morreu deixando-nos uma das mais belas biografias de uma liderança socialista e feminista do século 19.
Marx, Engels e Bebel
As posições feministas destes socialistas teriam um forte impacto no pensamento de dois jovens revolucionários alemães: Marx e Engels. Ainda nos seus primeiríssimos artigos na Gazeta Renana, em 1842, Marx assumiu a defesa da mulher, particularmente quanto ao direito do divórcio. Rejeitou a idéia predominante de que o casamento deveria ser indissolúvel. Escreveu Saffiotti: “Ao casamento, enquanto conceito, Marx opôs o casamento como fato social e, como tal, ele nada tem de indissolúvel, pois os fatos sociais se transformam, perecem, são substituídos por outros”.
Nas suas obras de transição da juventude para a maturidade, Marx e Engels se interessaram mais diretamente pela questão da opressão da mulher. Esta preocupação já pode ser sentida em A Sagrada Família (1845) e nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos (1844). Nestas obras eles incorporam a idéia-força de Fourier de que “o grau de emancipação da mulher é a medida natural do grau de emancipação geral” e nos Manuscritos de 1844 escreveram: “A relação imediata, natural, necessária dos seres humanos é a relação do homem com a mulher (...) Eis por que, com fundamento nesta relação, se pode aquilatar o grau de desenvolvimento do homem”.
Mas o que os socialistas utópicos, e os jovens Marx e Engels, ainda não sabiam eram quais as bases da opressão feminina e os caminhos mais adequados para superá-la. Seria o materialismo-histórico que lhes permitiria decifrar o enigma da esfinge. O grande passo foi dado com a elaboração conjunta de A Ideologia Alemã (1846) e, posteriormente, do Manifesto do Partido Comunista (1848).
Na Ideologia Alemã, eles já afirmavam: “Esta divisão do trabalho, que implica todas estas contradições e repousa opor sua vez, sobre a divisão natural do trabalho na família e sobre a separação da sociedade em famílias isoladas e opostas umas às outras – esta divisão do trabalho implica, ao mesmo tempo, a repartição do trabalho e de seus produtos, distribuição desigual, na verdade, tanto quanto à quantidade como quanto a qualidade; onde a mulher e os filhos são os escravos do homem. A escravidão certamente muito rudimentar e latente na família é a primeira propriedade, que, aliás, corresponde já plenamente aqui à definição dos economistas modernos segundo a qual ela é a livre disposição da força de trabalho de outro”.
Assim, o primeiro passo para emancipação – e não o último - seria a incorporação da mulher no trabalho social produtivo. “Para que a emancipação se torne factível é preciso, antes de tudo, que a mulher possa participar da produção em larga escala social e que o trabalho doméstico não a ocupe além de uma medida insignificante”, afirmou Engels.
Este era apenas o primeiro passo, que capitalismo já começava a realizar. A superação definitiva desta opressão milenar se daria através de uma revolução social que transformasse os meios de produção, e a riqueza por eles produzida, em propriedade social. A revolução socialista limparia o terreno para que a libertação da mulher pudesse, finalmente, ser completada.
Sem dúvida, entre os marxistas, Augusto Bebel (1840-1913) foi o primeiro a se debruçar especificamente sobre o problema da emancipação da mulher. Ele publicou o livro "A mulher e o socialismo", em 1879. Dez anos depois, após o fim das leis contra os socialistas, fez uma ampla revisão e atualização do livro. Bebel era operário, autodidata e se tornaria o principal líder político da social-democracia alemã até sua morte em 1913, as vésperas da eclosão da I Guerra Mundial.
A eminente socialista e feminista alemã Clara Zetkin escreveu: “As debilidades teóricas e algumas lacunas científicas deste livro ficam reduzidas a nada se se comparam com sua grande importância histórica”. A principal virtude do livro foi ter se oposto a “equivocada conclusão de que a reivindicação da igualdade das mulheres deveria esperar a atuação de um futuro Estado (...) O principal dirigente do proletariado alemão proclamou a luta pela plena equiparação do sexo feminino como um componente da luta do proletariado e como uma tarefa do presente”.
Bebel reconheceu as especificidades das luta feminista, que permitiria unir as mulheres de várias classes em torno de algumas bandeiras. O conjunto do sexo feminino, escreveu, “sofre duplamente: de um lado sofre debaixo da dependência social dos homens, a qual se suaviza, porém não se elimina com a igualdade formal de direitos diante da lei, e, de outro lado, devido a dependência econômica em que se acham as mulheres em geral (...)”. Por isso, “as irmãs adversárias tem em maior proporção que o mundo masculino (...) uma série de pontos em comum ao qual podem dirigir sua luta (...)”.
No entanto, alertava que, para as socialistas, “não se tratava apenas de realizar a igualdade de direitos da mulher como o homem no terreno da ordem social e política existente, o qual constitui o objetivo do movimento feminino burguês, mas de eliminar todas as barreiras que fazem que o homem dependa do homem e, portanto, um sexo ao outro (...) Daí que quem persiga a solução total da questão feminina deve se unir a quem tem inscrito em sua bandeira a solução da questão social e cultural para toda humanidade, ou seja, os socialistas”.
Nem todos desposavam as opiniões avançadas de Bebel. Vários socialistas alemães eram contra colocar no programa partidário o voto feminino e a inclusão das mulheres no mundo do trabalho assalariado. Os Lassalianos, por exemplo, inverteram as teses dos socialistas utópicos ao afirmaram: “A situação da mulher só pode melhorar se se melhorar a situação do homem”.
Na sua história do movimento operário alemão, Eduard Bernstein descreveu uma assembléia da social-democracia berlinense que, em 1866, “superou o dilema teórico transferindo a emancipação da mulher ao Estado socialista do futuro e estigmatizando as aspirações ao trabalho feminino na indústria, já que as considerava um meio dos capitalistas conseguirem força de trabalho a preços mais baratos”.
Mesmo a corrente vinculada à Marx e Engels no interior da social-democracia alemã não seguia as indicações de seus mestres. O programa socialista de Eisenach (1869), elaborado por Wilhelm Liebknecht, estipulava apenas a necessidade de se conquistar o “sufrágio universal, direto e secreto concedido a todos os homens de mais de 20 anos”. O Programa de unificação entre lassalianos e marxistas, ocorrido em Gotha (1875), por proposta de Bebel, estabeleceria a bandeira: “Sufrágio universal, direto, secreto e obrigatório para todos os cidadãos com pelo menos 20 anos”. O fato de estar escrito apenas cidadão e não “cidadão e cidadã” deu margem à interpretações dispares.
A dúvida só foi resolvida quando, finalmente, o Programa de Erfurt (1891) estabeleceu explicitamente que o Partido social-democrata alemão deveria lutar “por direitos e deveres iguais de todos, sem exceção de sexo ou de raça” e pelo “sufrágio universal igual, direto e secreto para todos os membros do império com mais de vinte anos, sem distinção de sexo, em todas as eleições”. Por fim, propugnava a “abolição de todas as leis que, do ponto de vista do direito (...) colocam a mulher em estado de inferioridade em relação ao homem”.
Clara Zetkin: feminismo e revolução
Clara Zetkin (1857-1933) foi a primeira grande líder feminina (e feminista) do movimento socialista alemão e internacional. Em 1891 passou a ser redatora do órgão de imprensa feminina da social-democracia alemã, considerado o jornal feminista de maior influência na história. Em 1896 apresentou o seu famoso informe sobre a questão da mulher no Congresso do Partido em Gotha.
Neste congresso é possível observar ainda uma visão estreita sobre a questão da mulher, que seria superada posteriormente. Ali ela afirmou: “O princípio-guia deve ser o seguinte: nenhuma agitação especificamente feminista, apenas agitação socialista entre as mulheres. Não devemos por em primeiro plano os interesses mais mesquinhos do mundo da mulher (...) Nossa agitação entre as mulheres não incluem tarefas especiais”.
Em 1907 ocorreu, em Stuttgart, um congresso da Internacional Socialista. Nele Zetkin apresentou uma proposta de resolução que afirmava: “Os partidos socialistas de todos os países tem o dever de lutar energicamente pela conquista do sufrágio universal feminino (...) direito que deve ser reivindicado vigorosamente em todos os lugares de agitação e no parlamento”.
Neste conclave Zetkin, com o apoio de Lênin, combateu os socialistas austríacos e ingleses que tergiversavam na sua propaganda do sufrágio universal feminino. Eles defendiam uma tática gradualista na qual primeiro deveria ser garantido o voto masculino. Zetkin achava que neste ponto não poderia haver qualquer concessão e acabou sendo vitoriosa.
Mas na sua justificação sentiu necessidade de esclarecer que o “reconhecimento do direito de voto ao sexo feminino não suprime a contradição entre exploradores e explorados (...) Para nós socialistas, o direito de voto das mulheres não pode ser o objetivo final, diferentemente das mulheres burguesas, porém consideramos a conquista deste direito como uma etapa bastante importante no caminho que levará até o nosso objetivo final”. No congresso internacional ocorrido em 1910, em Copenhague, defenderia a realização de um dia internacional das mulheres.
Apesar das resoluções aprovadas nos seus congressos, a social-democracia não colocou no centro de sua ação a luta pelos direitos sociais e políticos das mulheres. Zetkin fazendo um balanço crítico a respeito da ação socialista escreveu: “A II Internacional tolerou que as organizações inglesas afiliadas lutassem durante anos pela introdução de um direito de voto feminino restrito (...) permitiu também que o Partido social-democrata belga e, mais tarde, o austríaco se negassem a incluir, nas grandes lutas pelo direito ao voto, a reivindicação do sufrágio universal feminino (...) que o Partido dos socialistas unificados da França se contentasse com platônicas propostas parlamentares para a introdução do voto da mulher (...) A II Internacional nunca criou um órgão que promovesse em escala internacional a realização dos princípios e reivindicações a favor das mulheres. A formação de uma organização internacional das mulheres proletárias e socialistas para uma ação unitária e decidida nasceu a margem de sua organização, de forma autônoma”.
Zetkin foi uma das poucas, ao lado de Rosa de Luxemburgo, a romper com a direção reformista do Partido Social-democrata alemão, após a eclosão da I Guerra Mundial, e a ajudar a organizar o Partido Comunista. Foi eleita membro do Comitê Executivo da Internacional Comunista e presidente do Socorro Vermelho, organização mundial de solidariedade às vítimas da reação e do fascismo. Quando Hitler assumiu o poder ela era deputada comunista no Reichstag e teve que se exilar na URSS, onde veio a falecer ainda em 1933. Seu corpo foi enterrado nas muralhas do Kremlin ao lado dos heróis da revolução.
Bibliografia
- Alambert, Zuleika, Feminismo: o ponto de vista marxista, Ed. Nobel, S.P., 1986.
- Álvares, José Gutiérrez – Mulheres Socialistas, Editorial Hacer, Barcelona, 1986
- Bebel, August – La mujer y el socialismo, Akal editor, Espanha, 1977
- Engels, F. – Do socialismo utópico ao científico, Ed. Global, SP, 1981.
- Marx, Engels e Lênin, Sobre a Mulher, Global editora, S.P., 1980.
- Saffioti, Heleieth I. B. – A mulher na sociedade de classe, Ed. Vozes, Petrópolis, 1976.
- Sullerot, Evelyne – Historia y sociología del trabajo femenino, Ed. Península, Barcelona, 1970.
- Zetkin, Clara – La cuestión femenina y la lucha contra el reformismo, Ed. Anagrama, Barcelona, 1976.
Assinar:
Postagens (Atom)
