sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A Odebrecht é um braço da política brasileira em Angola ou a política brasileira é um braço da Odebrecht?”

“Parte do meu trabalho tem sido contra o medo.” Foi com essa frase que Rafael Marques abriu a última edição da Conversa Pública, sobre as conexões entre Brasil e Angola e a dura realidade do país sob o governo de José Eduardo dos Santos, no poder há 37 anos.
Um dos principais ativistas pela liberdade de expressão em Angola, Rafael Marques de Morais é conhecido internacionalmente por ser um implacável investigador do regime corrupto que governa o país. “As histórias não assustam tanto porque os atos de corrupção na Angola são bastante transparentes”, brincou o jornalista durante a entrevista na Casa Pública.
Ele investiga escândalos de corrupção e denuncia violações de direitos humanos no país africano em matérias publicadas no seu site, Maka Angola, e na imprensa internacional. Sua atuação combativa já lhe rendeu diversos processos e até 40 dias na prisão. O jornalista foi preso em 1999, condenado a cumprir pena por seis meses depois de ter escrito um artigo no qual denunciava “a responsabilidade do presidente da República na promoção da incompetência, do peculato e da corrupção como valores sociais e políticos”. Seu encarceramento foi um marco na luta contra o autoritarismo em Angola e chamou atenção de diversos grupos que lutam pela liberdade de expressão pelo mundo, inclusive no Comitê de Direitos Humanos da ONU.
“Eu passei por várias situações em que entendi que, quanto mais medo tivesse, mais estaria a contribuir com o autoritarismo no meu país”, resumiu ele durante a conversa. Uma das primeiras ocorreu em 1992, quando começou sua carreira jornalística: “Eu fui fazer um trabalho com um deputado que geria um terminal do porto de Luanda. Seu trabalho era retirar as mercadorias de lá e vender nas suas próprias lojas. Eu escrevi isso para o único jornal do país, o Jornal de Angola. Logo depois meu colega fotógrafo foi assaltado e agredido por esse mesmo deputado e nós tivemos que fazer uma notícia, mesmo depois de ter publicado a história, a dizer que tudo aquilo era mentira”, lembra. “Quando vemos as coisas assim acontecerem e tomamos uma atitude de aceitação, estamos contribuindo para piorar a situação.”
Natalia Viana e Eliza Capai ao lado de Rafael Marques durante a Conversa Pública sobre Angola (Foto: Agência Pública)
Natalia Viana e Eliza Capai ao lado de Rafael Marques durante a Conversa Pública sobre Angola (Foto: Agência Pública)
Rafael Marques conduziu também uma investigação sobre a filha do presidente angolano, Isabel dos Santos, a mulher mais rica de todo o continente africano. “Em junho passado ela foi nomeada presidente do conselho administrativo da petrolífera estatal Sonangol. Todas as grandes empreitadas agora estão sob o comando da filha do presidente”, critica o jornalista, que ironiza o fato de ela ainda ter tempo para “passar a vida no Instagram, com fotos em Mônaco ou Hollywood”. Quando a investigação que conduzia foi finalmente publicada, na revista Forbes, Dos Santos decidiu comprar os direitos da revista em português, em um nítido ato de constrição da liberdade de imprensa. “Hoje a revista Forbesem Angola publica propaganda do governo”, conta Rafael Marques.

(Censura por meios mais eficazes e silenciosos, via poder econômico, com toda a cara de tempos pós-modernos conservadores no melhor estilo de Lyotard, Baudrilallard, Vattimo, contrariando Boaventura Santos na pag 167 da Crítica da Razão Indolente - 2000)
O país ainda se recupera da guerra civil que assolou seu território entre 1975 e 2002. “Angola hoje vive uma crise profunda precisamente porque os cidadãos, como forma alternativa de sobrevivência em um sistema autoritário, preferiram contribuir para este sistema”, avalia Rafael Marques. Para ele, agir contra o status quo não é uma questão de coragem. “Eu também tenho medo. É uma questão de afirmação da cidadania”, conclui.

Corrupção bilateral

O jornalista contou durante o debate que, desde sua chegada ao Brasil, a pergunta que mais ouviu é sobre o envolvimento do ex-presidente Lula nos casos de corrupção na Angola. Ele avalia que antes mesmo do governo petista as relações políticas entre Brasil e Angola já eram extremamente corruptas. Para ele, o boom econômico vivido pelos dois países durante o governo Lula aumentou os investimentos brasileiros no país africano e, com mais dinheiro envolvido, veio mais corrupção. “Não é exclusivo do Lula. Se olharmos para trás, podemos ver o envolvimento de figuras como o ex-presidente José Sarney, que inclusive assinou o prefácio de um livro do presidente angolano”, conta. “Em Angola somos levados a acreditar que ter integridade é algo de errado e que ser corrupto é o que vale.”
O principal canal dos investimentos brasileiros em Angola é justamente a Odebrecht. “Não há empresa que tenha acesso tão privilegiado ao presidente angolano como a Odebrecht”, avalia. No entanto, ele pondera que esse acesso direto se faz necessário para toda e qualquer empresa estrangeira que deseje se instalar em Angola, dada a proximidade dos setores público e privado no país.
Ao falar sobre os limites também frágeis entre a política externa brasileira e os interesses da empreiteira, Rafael Marques brinca: “A Odebrecht é um braço da política brasileira na Angola ou a política brasileira na Angola é um braço da Odebrecht?”. Para ele, “o Brasil é um país que tem muito a contribuir em Angola, mas as relações comerciais são sempre marcadas pela Odebrecht”. Ele relata que as grandes obras da empresa no país pouco contribuíram para melhorar a vida da população ou o nível de industrialização e que muitas delas, como as que envolvem pavimentação de estradas, são de qualidade duvidosa.

Crises simultâneas

Angola hoje vive uma crise econômica, além de política. A economia angolana, muito dependente da exploração petrolífera, tem sido severamente afetada pela queda acentuada do preço do barril ao longo dos últimos anos. “A situação econômica continua a deteriorar-se porque não houve diversificação da economia. Mais de 95% das receitas na Angola dependem do petróleo”, avalia Rafael Marques. O cenário de crise aproxima o país africano do Brasil, embora Angola não esteja ainda em recessão, já que o PIB do país continua crescendo. “A crise se deve mais ao saque do que ao petróleo. Foram os excessos da classe política angolana, que se transformou também em classe empresarial”, avalia.
“Angola hoje vive uma crise profunda precisamente porque os cidadãos, como forma alternativa de sobrevivência em um sistema autoritário, preferiram contribuir para este sistema”, avaliou Rafael Marques (Foto: Agência Pública)
“Angola hoje vive uma crise profunda precisamente porque os cidadãos, como forma alternativa de sobrevivência em um sistema autoritário, preferiram contribuir para este sistema”, avaliou Rafael Marques (Foto: Agência Pública)
Embora os dois países estejam enfrentando crises políticas e econômicas, a conjuntura social é muito mais favorável à liberdade de expressão no Brasil. “Há um espaço de debate que os brasileiros poderiam aproveitar melhor para discutir os seus problemas. Em Angola é diferente”, diz Rafael Marques. Ele acredita que, apesar de haver debates políticos no país, eles geralmente acontecem fora da capital, Luanda. “Na cidade há uma dificuldade muito grande em alugar um espaço para realizar uma discussão, por exemplo, e a repressão às manifestações é sempre muito violenta.”

“Um ativista nunca para com sua luta”


Indagado sobre as constantes ameaças e processos que sofre, Rafael Marques diz que a questão principal não é sua vida, porque, segundo ele, o ativismo não para com a morte de uma pessoa. “A questão é como os cidadãos angolanos podem exercer sua cidadania”, explica o jornalista.Diante de tantos casos de abuso e autoritarismo do governo angolano, Rafael Marques se tornou uma figura simbólica de resistência em seu país. No entanto, ele rejeita o rótulo de ícone e reitera que a sua batalha é a mesma de todos os cidadãos angolanos. “Certa vez um sociólogo angolano foi a Portugal dizer que um exemplo de que havia democracia em Angola era eu estar vivo”, conta o ativista, “mas eu não represento a democracia em Angola nem a liberdade de expressão. É a Constituição angolana que consagra estes direitos para todos os cidadãos.”
Ele lembrou ainda que a dificuldade em se expressar politicamente é ainda maior para as mulheres. Menciona o caso de Laurinda Gouveia, presa política angolana que foi torturada por seis comandantes da polícia simultaneamente. “A violência contra ela foi muito mais marcante do que contra seus colegas homens”, analisa.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Babá mata ex-namorado para evitar estupro e é levada a ‘tribunal do crime’

Uma babá de 20 anos foi resgatada pela polícia quando estava prestes a ser executada, após ser condenada por um “tribunal do crime”, neste domingo, 30, em Piracicaba, no interior de São Paulo. Ela era julgada por ter matado com uma facada no peito o ex-namorado, de 52, durante uma tentativa de estupro.

Familiares do homem, um mototaxista, tinham ligações com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
A babá foi sequestrada pelos dois filhos do mototaxista, de 21 e 25 anos, e levada para um cativeiro, em uma casa do bairro Santo Antônio. A Polícia Militar a encontrou algemada e amordaçada, depois de receber uma denúncia anônima.
Os dois suspeitos, que foram presos, esperavam uma ordem para cumprir a sentença de execução. Com eles foi apreendido um revólver carregado. De acordo com depoimento da jovem, outras duas pessoas participaram do “julgamento”.
A babá alegou ter matado o ex-companheiro em legítima defesa. Eles tiveram relacionamento durante um ano e meio, mas romperam a relação. No sábado, 29, ele a procurou na comunidade Pantanal, no bairro Monte Líbano, e queria manter relações sexuais à força, usando uma faca para obrigá-la.
Ela contou que, em um descuido dele, pegou a faca e o golpeou. O corpo do homem com ferimento à faca já havia sido encontrado pela polícia sobre uma cama, na tarde de sábado.
Execução
Em julho deste ano, o Ministério Público Estadual em Piracicaba denunciou 13 envolvidos no julgamento e execução de um jovem de 22 anos, acusado de se envolver com a ex-namorada de um membro do PCC.
O rapaz foi agredido, torturado e morto em uma chácara da zona rural em fevereiro de 2015. O corpo foi enterrado à beira de uma estrada. Os 13 integrantes do “tribunal do crime” foram presos.

http://www.reporterdiario.com.br/noticia/2260013/baba-mata-ex-namorado-para-evitar-estupro-e-e-levada-a-tribunal-do-crime/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+jornalreporterdiario+%28Jornal+Rep%C3%B3rter+Di%C3%A1rio+-+RSS%29&ref=yfp

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

35

35

Uma vela acessa frame sua chama enquanto faço um pedido

que os dias
sejam longos
que as horas
sejam lentas
que a vida
seja plena

o que couber
que caiba
o que vier
que venha

que saibamos
conjugar a 
reciprocidade

que seja 

o amor
amado
a dor
sofrida
a cor
colorida

que seja
que seja

cada desejo 
a seu canto
a seu tempo
compreendido

que seja

o amor
coisa simples
simples
de se ter no bolso de trás
nos dedos das mãos
no brilho do olhar
onde possa
ser menos
duro

que seja

a poesia
uma meta
de cada pessoa

que os dias valham
a pena

que o luar
valha pelo que é

e a flor
seu perfume
o horizonte
o mar
e o sol
com seu lume

a brasília laranja
a grama invadindo-lhe
o carburador
a criança no assento
fora dos limites do carro



sejam o que são
a cada dia.
poesia

que os encontros
de dois espíritos
sejam todos
sempre sagrados
como são

que saibamos
orar 
e beijar os lábios
um do outro
como se fôssemos 
virgens de todo

que saibamos
a casa do outro
é seu corpo

a consciência
um brinquedo
impenetrável

que aprendamos
investir todas as 7 vidas e meia
[lembro que me restam outras 5, se não falharem as contas
no doce jogo de decifração

que seja
que seja
que seja

que apaguem-se as velas
unam-se os lábios
brindem as taças

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Fim de coligações reduziria siglas em 91% das câmaras- Algumas cidades teriam PARTIDO UNICO!

Daniel Bramatti, Guilherme Duarte e Rodrigo Burgarelli,
O Estado de S.Paulo
15 Outubro 2016 | 05h00
A Câmara Municipal de Santarém, no Pará, vai contar com um mosaico de 15 partidos em suas 21 cadeiras a partir do ano que vem. Para formar uma maioria de votos, o novo prefeito terá de negociar com pelo menos seis legendas – ou barganhar o apoio das 12 que elegeram um único vereador. Tal cenário, porém, seria diferente se não fossem permitidas as coligações nas eleições para o Legislativo. Neste caso, apenas quatro partidos conquistariam vagas na Câmara.
Santarém está longe de ser exceção. Levantamento do Estadão Dados revela que a pulverização partidária teria uma redução drástica nos Legislativos municipais com a proibição das coligações nas eleições para vereador e deputado, medida que está em debate no Congresso. Em nada menos que 91% das cidades haveria redução no número de partidos com representantes eleitos se a regra tivesse valido na disputa deste ano.
As coligações favorecem a pulverização porque partidos pequenos, que isoladamente não alcançariam o piso mínimo de votos para eleger um vereador, acabam pegando “carona” ao fazer alianças com legendas maiores. Nas eleições deste ano, os maiores fornecedores dessa carona foram o PMDB e o PSDB, que, com seus votos, garantiram a eleição de 2.782 vereadores de outros partidos. Na prática, as duas legendas poderiam ter obtido, respectivamente, 24% e 17% a mais de cadeiras se não tivessem feito alianças.
O fenômeno da carona, além de generalizado, é significativo na composição das Câmaras. Em 2.563 (48%) das 5.568 cidades em que houve eleições, pelo menos metade dos partidos representados não teria obtido uma única cadeira sem o artifício da coligação. 

Foto: Infográfico|Estadão
Dispersão partidária
Dispersão partidária
Diminuição. Em números absolutos, a cidade que mais enxugaria o número de partidos em sua Câmara se não houvesse coligações é Itapecuru Mirim (MA): de 14, passaria para apenas dois. Mas há casos ainda mais extremos: em 176 municípios, apenas um partido passaria a ocupar todas as vagas da Câmara, por ser o único a ter alcançado o número mínimo de votos para eleger um vereador. 
Este piso se chama quociente eleitoral, e é o resultado da divisão do total de votos válidos pelo número de cadeiras em disputa. A atual legislação permite que um partido eleja vereadores mesmo sem alcançar esse quociente – basta que as legendas de sua coligação, somadas, tenham o número de votos mínimo.
Essa regra favorece a dispersão partidária também nas esferas estadual e federal. Nas eleições de 2014, por exemplo, o número de partidos com assento na Câmara dos Deputados teria sido de 22, em vez de 28, se não houvesse coligações, conforme calculou o Estadão Dados na época. Além disso, haveria uma ampliação do peso dos maiores partidos – PMDB, PT e PSDB, que elegeram pouco mais de um terço dos deputados, ganhariam 84 vagas a mais e controlariam 53% das cadeiras.
Representação. A proibição das coligações nas eleições para o Legislativo já foi discutida em outras iniciativas de reforma política, mas a proposta acabou sepultada graças ao lobby dos partidos médios e pequenos, prováveis prejudicados pela medida.
Além de favorecer a fragmentação partidária, as coligações podem distorcer a vontade do eleitorado – uma pessoa pode votar no partido A e ajudar a eleger um representante da legenda B, muitas vezes sem saber. 
“A transferência de votos intracoligação, considerando sua heterogeneidade ideológica e sua dinâmica oportunista, é um problema porque exacerba patologias ou incongruências da representação democrática. Na prática, o voto em um representante ultraconservador pode ser transferido para um representante de extrema esquerda, e vice versa”, disse o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marcus André Melo.
Para ele, as coligações não são um problema em si, pois são encontradas em várias democracias. “A especificidade brasileira está associada ao número elevadíssimo de partidos políticos que tem representantes nas casas legislativas. Em sete Estados a fragmentação já atingiu o máximo: todos os deputados federais provêm de partidos distintos. Está disfuncional.” 
São Paulo. Caso a proposta que barra coligações para eleições proporcionais já estivesse valendo neste ano, PSDB e PT seriam os maiores ganhadores. Os dois partidos teriam conseguido eleger dois vereadores a mais cada, chegando a 13 e 11 cadeiras, respectivamente – ou seja, quase metade do total de 55 vagas na Câmara ficaria na mão dessas duas siglas. 

O maior perdedor seria o PR, que se coligou com o PT nessas eleições e, graças em parte à alta votação obtida por Eduardo Suplicy (PT), conseguiu eleger dois vereadores a mais do que se tivesse concorrido sozinho.

http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,fim-de-coligacoes-reduziria-siglas-em-91-das-camaras,10000082326